PONTO DE VISTA
Nš 22
30 de junho de 2008
 
  

União: Verdade ou Mentira?

Max Antônio Amaral Pereira
Auditor Fiscal da Receita Estadual

Inicialmente recorro a um texto de minha autoria publicado no "Liberdade de Expressão" há algum tempo, intitulado "O QUE UNE E O QUE DESUNE", onde convidava o leitor a refletir sobre o que efetivamente nos unia e desunia.

Este é um tema que me interessa sobremaneira. E as recentes abordagens do Hugo Mescolin e do Hideraldo naquele espaço sobre o assunto me aguçaram a vontade de escrever novamente sobre ele.

No ensaio a que me referi acima argüi que a ocorrência de um fato político, como as últimas eleições do Sindifisco, permite sopitar muitas cobranças, emergir broncas guardadas, refletir sobre a linha sindical adotada nos últimos anos e provocar mais e mais reflexões sobre nossa realidade atual, nossas perdas e sobre o futuro que está sendo desenhado para todos nós. Passados seis meses do pleito ainda vivemos alguns de seus reflexos. E isto não deixa de ser natural, como também instigante.

Falei também dos colegas doentes, e muito doentes, trabalhando porque o afastamento, mais do que justo e humanitário, representava e representa ainda uma perda remuneratória tão significativa, que muitos imaginam que o sacrifício valha à pena.

Contei, ainda, que um alguém havia me parado nos corredores do prédio onde trabalho para me contar que "uma colega acamada em um leito de hospital com enfermidade grave, estaria correndo o risco de perder até mesmo a GEPI normal em função do tipo de O.S. a ela distribuída antes que a doença a derrubasse".

Relatei igualmente que, na pequena cantina de meu andar uma discussão ganhava corpo: hoje somos AFREs, FTEs, AFTEs, os que optaram e os que não optaram pela carreira nova, os que têm liminares e os que não têm liminares, os apostilados (integral e proporcional), os sem apostila, com qüinqüênios cheios, com qüinqüênios vazios, sem qüinqüênios, comissionados, novatos, antigos, aposentandos, aposentados, concurso X, concurso Y, turma disso e turma daquilo. Surgia naquela época mais uma segmentação, a dos ex-FTEs e dos ex-AFTEs. Lembrei também que, no chamado grupo de fiscalização, tributação e arrecadação, temos a orbitar, lado a lado conosco, outras categorias como a dos gestores, cada qual comas suas mazelas próprias, divisões, angústias, sonhos e pesadelos.

Agora surgem os com e os sem diploma, ou seja, os com "pós-graduação" e os sem "pós-graduação".

Algumas perguntas se impõem: quem é na realidade o grande artífice da desunião? Frente a tudo isso que papel desempenhou o nosso sindicato nos últimos quatro anos? E o que fizemos nós enquanto categoria diante deste quadro? Será que efetivamente falamos sério quando protestamos por uma categoria unida?
União não significa apenas construir juntos, fazer juntos. Mas, e principalmente, nos sentir juntos, unidos. Fora disso não existe união verdadeira. Existe apenas discurso demagógico.

Uma união verdadeira precisa ser construída sobre pilares concretos, preservando-se a liberdade de opinião, sem tutelas e sem censuras a pessoas e a idéias.

Não é possível falar de união sem o respeito às diferenças, sem considerar as realidades locais e de cada segmento de nossa categoria.

A categoria sofrida na angústia das ameaças e cozida no sonho do possível ofertado, no pesadelo das perdas, na vontade do imediato, no imaginário do medo, parece querer mais do que tem obtido até agora. Parece não se contentar mais somente com o possível oferecido. Mas para voar mais alto ela sabe, também, que é preciso construir as condições para que uma união verdadeira e substantiva floresça entre nós. E começa a perceber a importância de se ter um bom parceiro nesta jornada.

E esse companheiro de jornada não surge do nada. O parceiro ideal pode surgir em um ambiente plural sim. Mas alguns pré-requisitos são necessários. O mais importante é que o embate de pontos de vistas diferentes aconteça em um ambiente de clara e transparente manifestação de interesses e objetivos divergentes entre si. Se isso acontecer certamente as melhores soluções surgirão. Afinal, é em cima disto que estão fincados os pilares da democracia.

União não significa concordância irreflexiva, nem tampouco subversão de valores. Quando as contradições são profundas, especialmente no campo ideológico ou de caráter, a união torna-se algo inalcançável.

Nessa hora sempre nos lembramos de uma perguntinha chata: União em torno do quê? Em torno de qual ou quais objetivos? Em busca da realização de qual ou quais interesses?

Você já reparou que as nossas diferenças vão além das rubricas do contracheque, das siglas, dos concursos, dos cargos e dos locais de trabalho? Somos uma classe multifacetada na origem de cada um de nós, na criação, na educação, na cultura, na estrutura familiar, na formação acadêmica, nas gerações, na religião, na falta de religião, no partidarismo político, no apartidarismo político, na orientação sexual até. Também somos diferentes nos objetivos, nos interesses, nos valores pessoais, na forma de vestir, na forma de nos alimentar, nos sonhos, nos pesadelos até.

Definitivamente não dá para falar de união da forma tão superficial quanto vejo daqui e dali.

O que se vê por aí são invocações pueris, montadas em clichês manjados, de um espírito de união que não se sustenta à menor análise, objetivando sempre sufocar o debate consistente, desviar o foco da discussão, disfarçar a falta de argumentos, inibir a crítica ao pensamento divergente e ocultar objetivos inconfessáveis. Aqui abro um parêntesis para dizer que sei que este não é o caso de vários dos interlocutores que desfilam a sua verve no "Liberdade de Expressão", especialmente aqueles que citei neste ensaio, Hugo e Hideraldo.

Por tudo o foi dito acima, é tolice pretender que uma diretoria de entidade representativa de classe se conduza para todo e sempre escoltada pelos mesmos apoios que fortuitamente se somaram nos períodos de campanha eleitoral. Gente, mais importantes que os apoios que surgem nos momentos de eleição, são aqueles que se mantém cativos ao longo da jornada à frente da entidade, seja ela sindicato ou associação. Nenhuma diretoria sobreviveria se se preocupasse tão somente em espelhar qualquer divisão propalada, i.e., trabalhando mais para uns e menos para outros.

A união sonhada e o apoio sincero só serão conquistados e mantidos com trabalho, verdade e transparência. Quem o conseguir certamente terá não só a mim, como a todos nós, incondicionalmente a seu lado. Se isso não fosse verdade a situação teria vencido facilmente as últimas eleições do Sindifisco.

A vida é dinâmica, as coisas fluem e mudam a todo instante. O homem na busca de sua verdade e de sua felicidade pode mudar de roupa, de casa, de carro, de mulher, de profissão, de emprego, de partido político, de candidato, de religião, de cidade, de estado, de país, de hobby, de sexo até. Você conhece alguém que já patrocinou alguma mudança radical em sua vida? Se a resposta é sim, você teve a curiosidade de perguntar-lhe porque e como ele ou ela mudou?

Certamente a resposta conteria algo do tipo: foi um processo de maturação, provavelmente longo e penoso, de muita reflexão, de acertos e de erros, mas fundamentalmente de muita verdade e vontade.

É isso. O processo de construção da união também é assim. União precisa de muita verdade e de muita vontade. O resto é bijuteria, mero penduricalho.

Eu também gostaria de ver a nossa categoria unida, cúmplice, forte e determinada. Mas, para começarmos a construir a nossa união responda primeiro para você mesmo: Qual é a sua? Qual é a minha? Qual é a do colega do lado? Qual é a da categoria?

Feito isso, que tal começarmos a falar sério sobre união?