PONTO DE VISTA
Nš 21
23 de junho de 2008
 
  

Tenho, mas sou contra

Glauco Peixoto
Auditor Fiscal da Receita Estadual,
Governador Valadares/MG

Sou um sujeito curioso e foi apenas em função desse defeito, confesso, que resolvi dar uma lida naquele bonito volume deixado outro dia em minha sala com as melhores recomendações da chefia. Tratava-se da publicação que traz as informações do PAFE 2008, ou seja, aquele tipo de trabalho destinado ao ostracismo das prateleiras. Mas a curiosidade me mata e lá vou eu ler, em abril, sobre os planos para um ano já quase no meio. Surpresa!!! Não é que, além de bonito, o danado também tem conteúdo! Enfiei a cara e estava até gostando da leitura, sobretudo quando percebi que as projeções de arrecadação do PAFE para os primeiros meses de 2008 foram aniquiladas pela vida real, mesmo sem o tal do "parcelamento especial". Ainda que lutasse contra, não conseguia deixar de pensar nas repercussões dessa arrecadação recorde sobre aquela palavrinha trimestral que começa com P...

Mas aí, cheguei à página 28, no capítulo que trata dos Objetivos Estratégicos da SEF, e meu "desconfiômetro" começou a apitar. Na página 43, que trata do Alinhamento da Gestão Estratégica com as Metas Estaduais, ele fazia um barulho ensurdecedor. Meu "desconfiômetro" estava me alertando que, separada por algumas páginas bonitas, se encontrava mais uma maldade embrulhada em papel de presente. Podem conferir, acho que a mensagem é claríssima. Na página 28 está escrito: "Além disso, é necessário o redirecionamento dos processos de gestão da SRE no sentido de se promover uma efetiva mudança na cultura da organização, de forma a criar a percepção da necessidade de que, em todos os níveis, as áreas e os indivíduos estejam alinhados com a estratégia da Secretaria".

Já na página 43, podemos encontrar a Diretriz 8 do Controle Fiscal (Fiscalização): "Alinhar os critérios de avaliação GEPI X ADI. Refere-se ao alinhamento dos critérios de avaliação para atribuição de GEPI com os critérios da avaliação de desempenho individual, a ser realizado pela Sufis em conjunto com a SRH".

Para mim, lá vem chumbo grosso. É só vincular ainda mais a GEPI à ADI, arrumar um jeito de dar mais uma torcida no parafuso dessa última e eu quero ver alguém divergir de alguma coisa na SEF. Gente, por exemplo, que insiste em classificar os "acordos de trabalho" atualmente em voga como o acordo de quem manda fala, concorda quem tem juízo, pode ir preparando o molho para a barba. Ai daqueles que questionam o modelo de meta e super meta e prevêem a criação, no futuro, da hyper meta, assim, com y mesmo, para ficar mais chique e mais de acordo com as modernas técnicas de gestão. Tadinho deles!

À medida que fui lendo, pensava que do jeito que fiscal é esperto, vai acontecer na SEF igual ao caso que me contaram ter se passado na antiga União Soviética. Lembram-se da União Soviética, aquela grande ilha cercada de autoritarismo por todos os lados? Pois é, deu no que deu! Contam que lá havia um encarregado de planificação para os Kolkozes, um dirigente de terceiro ou quarto escalão, vaidoso e autoritário, cioso em exercer poder sobre seus subalternos (como a história se repete, não é mesmo?), condenando a férias forçadas na Sibéria aqueles que apresentassem a menor discordância das suas idéias. Certa ocasião, ao finalizar mais um projeto, o camarada dirigente decidiu dar uma lição em um subordinado que estava se tornando conhecido por sua postura independente. Chamou-o para uma conversa, apresentou o projeto que havia preparado e, ao final, lançou a armadilha, perguntando se o sujeito tinha alguma idéia diferente. E o sujeito respondeu como eu acho que vamos ter de responder não demora: "Tenho sim, mas sou contra".