PONTO DE VISTA
Nš 26
10 de outubro de 2008
 
   

Para reflexão da categoria
José Roberto Medeiros - Catraca
Auditor Fiscal da Receita Estadual desde 1987

Aos Auditores Fiscais da Receita Estadual de Minas Gerais, peço ler com muita atenção o texto "Greve dos Professores em MG" de autoria da Prof. Imaculada Criscolo Parrela, de escola estadual em Montes Claros.

Pediria a todos, independente da posição que ocupe atualmente na SEF, reflexão para os graves pontos levantados pela mesma que restaram no enfraquecimento da instituição que trata da educação no Estado e, a qual, a continuarmos agindo como estamos, ocorrerá na SEF.

Lembrem-se: "Tudo o que é necessário para o triunfo do mal, é que os homens de bem nada façam" - Edmund Brake.

Publicado, em 9 de outubro de 2008, no jornal Hoje em Dia, seção Opinião, página 5

Razões pelas quais não fiz parte do movimento grevista dos professores em Minas Gerais
Imaculada Criscolo Parrela (*)

Embora o título sugira uma justificativa, não é a intenção e nem o objetivo de tudo o que vou escrever. Apenas creio que é este o momento de tomarmos a iniciativa, de fazermos alguma coisa começar a acontecer, para não pagarmos e não fazermos os nossos alunos e toda a sociedade pagar um preço mais alto do que já estamos pagando pelo sucateamento da educação. Sucateamento esse planejado, previsto e assinado, por nós, professores. Esse caos em que se encontra o ensino público foi uma tragédia anunciada. Nós vimos e nós ouvimos. E nos calamos! Nos indignamos... e nos calamos!!! E nesse silêncio absurdo que se fez dentro de nossa categoria, o Estado foi se apoderando de nossas vozes até não sermos mais ouvidos por ninguém... nem mesmo por nós!

Uma das razões pela qual eu não aderi ao movimento foi por causa desse silêncio. Porque estamos cometendo um erro terrível de sermos cúmplices de um plano de educação com o qual não concordamos inteiramente, com o qual não identificamos e, no entanto, continuamos a cumpri-lo fielmente diante da batuta de superintendências a serviço do Governo.

Só pra início de esclarecimentos, o Governo tem passado para nós a responsabilidade do seu próprio fracasso em qualidade de ensino. O que importa, hoje, são os números estatísticos: tantos por cento no ensino médio, outros tantos por cento em sala de aula, alunos com seis anos na escola... Agora, vá lá ver como está a escrita, a leitura, o raciocínio lógico dessa criança, desse adolescente... É de fazer dia de finados virar o maior carnaval temporão.. e de quem é a culpa? Do professor, que ganha mal, que é preguiçoso, que não está preparado...

E tome projeto em cima... e tome responsabilidade em cima... E mais e mais dias letivos... Tem adiantado? Houve um aumento de qualidade? Não, meus queridos leitores. Não houve nenhuma qualidade porque o que existe dentro das escolas públicas é a tentativa de promover, a qualquer custo, os nossos cidadãos brasileiros.

O que existe de fato é excesso de oportunidades para o aluno se promover... O próprio aluno já conta com todas as oportunidades de promoção desde o início de ano. Ele escolhe as matérias que poderá ficar pendentes e haja projeto disciplinar para conter este aluno, que sai de sua casa e se sente muito à vontade na escola, que ele julga que tem a obrigação de promovê-lo quando ele bem entender...

Recebo aluno na 5ª série (ou seja, no 6º ano) que não é alfabetizado. Não sabe escrever e aí o planejamento do ano real tem que ser mudado para atender aquilo que era competência dos anos anteriores... E esses vão passando à frente e nós vamos entregando esses alunos à frente também sem a devida competência. E haja projeto para atender essa clientela...

Esse nosso aluno, que tem se servido desse prato de sabor agradável, é uma vítima. Porque esse prato agradável vai dar muito trabalho para ser digerido. Esse aluno que hoje se aproveita desse sistema é a maior vítima do próprio sistema, porque dentro dessa sociedade competitiva que vivemos ele não representa concorrência para ninguém. E já existem universidades que absorvem esses alunos, perpetuando a baixa qualidade de ensino oferecida na nossa sociedade competitiva, mas que também é altamente consumista.

O Estado estuda metodicamente seus planos de ação para que nós os cumpramos porque ele (o Estado) sabe que nós vamos servi-lo. E chega até as escolas um monte de resoluções prontas, acabadas e nós gastamos horas discutindo como vamos realizá-las. Não discutimos a eficácia, discutimos apenas como faremos para entregar em prazo estipulado...

E tome mais projeto... Agora o aluno vai escolher se quer estudar, a partir do 2º ano do ensino médio, exatas, humanas, biológicas... Estamos andando em contramão... E tome mais reunião: para tirar aula daqui, professor de lá... tapa aqui, descobre de lá... e nós professores, feito gado, cumprimos a cartilha fielmente... O aluno manda... o professor adoece... O professor adoece... a perícia desconhece...

A superintendência pede contagens de tempo assinadas por inspetores (o que é obrigação dos inspetores...), mas quem tem que correr atrás do engano ou do erro? O professor... e lá vai o professor de ônibus, de moto táxi, de táxi, para outras cidades onde trabalhou, telefona daqui, de lá de fixo e de celular... mas cumpre e não discute... E por aí vai, porque exemplos não faltam e os meus colegas de trabalho não me deixam mentir... Como uma categoria pretende ser respeitada, ouvida se estamos cabisbaixos, encolhidos, insatisfeitos e MUDOS?

Como podemos aceitar tão passivamente que nos mandem, que estipulem planos em cima de nossas ações, nós professores que somos profissionais, habilitados? Este cargo que nós temos não nos foi dado de favor, não... Nós temos capacidade e habilidade para trabalharmos em educação. Eu não estou dentro da educação porque não consegui um outro título melhor. Muito pelo contrário, escolhi ser professora, professora de História e acredito nas minhas escolhas. Assim como acredito que tenho que ter autonomia e respeito, principalmente da parte daqueles a quem presto os meus serviços.

Torna-se imperioso rever as responsabilidades que o aluno tem que ter com o seu aprendizado. As escolas, os professores não podem mais cumprir resoluções que permitam essas disparidades dentro de uma instituição cuja meta é educar... Torna-se imperioso resgatar o valor desse profissional, sua autonomia dentro e fora das salas de aula... Sermos ouvidos entre nós...

Chega de tanto conformismo, de tanta cabeça baixa, de tanta desesperança...
Falar que um movimento por aumento de salário não seja importante é um despropósito... Falar que as reivindicações em pauta eram sem importância seria desmerecer o nosso próprio trabalho...

Valorizo a luta de meus companheiros de profissão e vejo em cada um que foi na escola onde trabalho, falar de nossos problemas e batalhar pela minha adesão. Um professor de talento, que necessita de reconhecimento, de valorização, de dignidade... Porém, este silêncio ensurdecedor dentro das escolas públicas, esse manejo de gado que tem recaído sobre nós, essa descrença, e essa cumplicidade até mesmo inconsciente tem que acabar...

A luta nossa, a greve que estamos precisando fazer é uma greve interna, uma contestação pública, uma demonstração de como sabemos trabalhar e tirarmos essa tutela pesada que torna o nosso trabalho banal e ineficaz...

O movimento tem que começar em cada conselho de classe, em cada reunião de colegiado, em cada reunião pedagógica, não somente para decidirmos quanto tempo gastaremos para cumprir este ou aquele projeto, ou resolução. Mas para discutirmos se este ou aquele projeto, ou lei ou seja o que for, é eficaz, se vai beneficiar o real aprendizado do aluno... se estaremos contribuindo para desenvolvermos um cidadão cumpridor de seus deveres, conscientes do seu papel modificador dentro da sociedade onde vive e de onde será um multiplicador das ações que realizamos dentro da escola pública.

Enquanto não respeitarmos o nosso trabalho, enquanto deixarmos que os outros segmentos sociais falem por nós, nós nunca seremos ouvidos. A mesa de negociação tem que começar dentro da nossa escola. Se querem uma escola inclusiva que nos mandem os recursos, pois somos educadores e não mágicos... Se querem uma escola de qualidade, devolvam aos alunos a responsabilidade por sua promoção... Dê a eles a oportunidade de desenvolverem o sentido de parceria, de conquistas...

Enquanto isso não acontece nós temos que dizer NÃO a todo e qualquer projeto que não seja amplamente discutido por nós, feito por nós. Tentarmos trabalhar da maneira que sabemos, porque nós sabemos trabalhar. E o Governo sabe disso... e é por isso que tem gasto tanto dinheiro em propagandas que não condizem com a realidade... se esse dinheiro fosse investido em nossas reais possibilidades... aí sim, o Brasil teria a maior de suas experiências em desenvolvimento.

Por isso não participei: porque não acredito em servilismo. Porque se não dou meu NÃO no meu cotidiano, se aceito passivamente aquilo que aniquila o meu trabalho; se não valorizo a minha prática; se não respeito aquilo que eu sou, o Estado, a quem servimos, não dará a mínima à nossa própria voz. E tome mordaça. Não quero continuar assinando um documento que decreta o fim de minha profissão.

(*) Professora do ensino fundamental da rede estadual de ensino, na Escola Estadual Armênio Veloso, em Montes Claros