Publicado,
em 9 de outubro de 2008, no jornal Hoje em Dia, seção
Opinião, página 5
Razões
pelas quais não fiz parte do movimento grevista
dos professores em Minas Gerais
Imaculada Criscolo Parrela (*)
Embora
o título sugira uma justificativa, não é a
intenção e nem o objetivo de tudo o que vou
escrever. Apenas creio que é este o momento de tomarmos
a iniciativa, de fazermos alguma coisa começar a acontecer,
para não pagarmos e não fazermos os nossos
alunos e toda a sociedade pagar um preço mais alto
do que já estamos pagando pelo sucateamento da educação.
Sucateamento esse planejado, previsto e assinado, por nós,
professores. Esse caos em que se encontra o ensino público
foi uma tragédia anunciada. Nós vimos e nós
ouvimos. E nos calamos! Nos indignamos... e nos calamos!!!
E nesse silêncio absurdo que se fez dentro de nossa
categoria, o Estado foi se apoderando de nossas vozes até não
sermos mais ouvidos por ninguém... nem mesmo por nós!
Uma
das razões pela qual eu não aderi ao movimento
foi por causa desse silêncio. Porque estamos cometendo
um erro terrível de sermos cúmplices de um
plano de educação com o qual não concordamos
inteiramente, com o qual não identificamos e, no entanto,
continuamos a cumpri-lo fielmente diante da batuta de superintendências
a serviço do Governo.
Só pra
início de esclarecimentos, o Governo tem passado para
nós a responsabilidade do seu próprio fracasso
em qualidade de ensino. O que importa, hoje, são os
números estatísticos: tantos por cento no ensino
médio, outros tantos por cento em sala de aula, alunos
com seis anos na escola... Agora, vá lá ver
como está a escrita, a leitura, o raciocínio
lógico dessa criança, desse adolescente... É de
fazer dia de finados virar o maior carnaval temporão..
e de quem é a culpa? Do professor, que ganha mal,
que é preguiçoso, que não está preparado...
E
tome projeto em cima... e tome responsabilidade em cima...
E mais e mais dias letivos... Tem adiantado? Houve um aumento
de qualidade? Não, meus queridos leitores. Não
houve nenhuma qualidade porque o que existe dentro das escolas
públicas é a tentativa de promover, a qualquer
custo, os nossos cidadãos brasileiros.
O que existe de fato é excesso de oportunidades para o aluno se
promover... O próprio aluno já conta com todas as oportunidades
de promoção desde o início de ano. Ele escolhe as
matérias que poderá ficar pendentes e haja projeto disciplinar
para conter este aluno, que sai de sua casa e se sente muito à vontade
na escola, que ele julga que tem a obrigação de promovê-lo
quando ele bem entender...
Recebo
aluno na 5ª série (ou seja, no 6º ano) que
não é alfabetizado. Não sabe escrever
e aí o planejamento do ano real tem que ser mudado
para atender aquilo que era competência dos anos anteriores...
E esses vão passando à frente e nós
vamos entregando esses alunos à frente também
sem a devida competência. E haja projeto para atender
essa clientela...
Esse
nosso aluno, que tem se servido desse prato de sabor agradável, é uma
vítima. Porque esse prato agradável vai dar
muito trabalho para ser digerido. Esse aluno que hoje se
aproveita desse sistema é a maior vítima do
próprio sistema, porque dentro dessa sociedade competitiva
que vivemos ele não representa concorrência
para ninguém. E já existem universidades que
absorvem esses alunos, perpetuando a baixa qualidade de ensino
oferecida na nossa sociedade competitiva, mas que também é altamente
consumista.
O
Estado estuda metodicamente seus planos de ação
para que nós os cumpramos porque ele (o Estado) sabe
que nós vamos servi-lo. E chega até as escolas
um monte de resoluções prontas, acabadas e
nós gastamos horas discutindo como vamos realizá-las.
Não discutimos a eficácia, discutimos apenas
como faremos para entregar em prazo estipulado...
E
tome mais projeto... Agora o aluno vai escolher se quer estudar,
a partir do 2º ano do ensino médio, exatas, humanas,
biológicas... Estamos andando em contramão...
E tome mais reunião: para tirar aula daqui, professor
de lá... tapa aqui, descobre de lá... e nós
professores, feito gado, cumprimos a cartilha fielmente...
O aluno manda... o professor adoece... O professor adoece...
a perícia desconhece...
A
superintendência pede contagens de tempo assinadas
por inspetores (o que é obrigação dos
inspetores...), mas quem tem que correr atrás do engano
ou do erro? O professor... e lá vai o professor de ônibus,
de moto táxi, de táxi, para outras cidades
onde trabalhou, telefona daqui, de lá de fixo e de
celular... mas cumpre e não discute... E por aí vai,
porque exemplos não faltam e os meus colegas de trabalho
não me deixam mentir... Como uma categoria pretende
ser respeitada, ouvida se estamos cabisbaixos, encolhidos,
insatisfeitos e MUDOS?
Como
podemos aceitar tão passivamente que nos mandem, que
estipulem planos em cima de nossas ações, nós
professores que somos profissionais, habilitados? Este cargo
que nós temos não nos foi dado de favor, não...
Nós temos capacidade e habilidade para trabalharmos
em educação. Eu não estou dentro da
educação porque não consegui um outro
título melhor. Muito pelo contrário, escolhi
ser professora, professora de História e acredito
nas minhas escolhas. Assim como acredito que tenho que ter
autonomia e respeito, principalmente da parte daqueles a
quem presto os meus serviços.
Torna-se
imperioso rever as responsabilidades que o aluno tem que
ter com o seu aprendizado. As escolas, os professores não
podem mais cumprir resoluções que permitam
essas disparidades dentro de uma instituição
cuja meta é educar... Torna-se imperioso resgatar
o valor desse profissional, sua autonomia dentro e fora das
salas de aula... Sermos ouvidos entre nós...
Chega
de tanto conformismo, de tanta cabeça baixa, de tanta
desesperança...
Falar que um movimento por aumento de salário não seja
importante é um despropósito... Falar que as reivindicações
em pauta eram sem importância seria desmerecer o nosso próprio
trabalho...
Valorizo
a luta de meus companheiros de profissão e vejo em
cada um que foi na escola onde trabalho, falar de nossos
problemas e batalhar pela minha adesão. Um professor
de talento, que necessita de reconhecimento, de valorização,
de dignidade... Porém, este silêncio ensurdecedor
dentro das escolas públicas, esse manejo de gado que
tem recaído sobre nós, essa descrença,
e essa cumplicidade até mesmo inconsciente tem que
acabar...
A
luta nossa, a greve que estamos precisando fazer é uma
greve interna, uma contestação pública,
uma demonstração de como sabemos trabalhar
e tirarmos essa tutela pesada que torna o nosso trabalho
banal e ineficaz...
O
movimento tem que começar em cada conselho de classe,
em cada reunião de colegiado, em cada reunião
pedagógica, não somente para decidirmos quanto
tempo gastaremos para cumprir este ou aquele projeto, ou
resolução. Mas para discutirmos se este ou
aquele projeto, ou lei ou seja o que for, é eficaz,
se vai beneficiar o real aprendizado do aluno... se estaremos
contribuindo para desenvolvermos um cidadão cumpridor
de seus deveres, conscientes do seu papel modificador dentro
da sociedade onde vive e de onde será um multiplicador
das ações que realizamos dentro da escola pública.
Enquanto
não respeitarmos o nosso trabalho, enquanto deixarmos
que os outros segmentos sociais falem por nós, nós
nunca seremos ouvidos. A mesa de negociação
tem que começar dentro da nossa escola. Se querem
uma escola inclusiva que nos mandem os recursos, pois somos
educadores e não mágicos... Se querem uma escola
de qualidade, devolvam aos alunos a responsabilidade por
sua promoção... Dê a eles a oportunidade
de desenvolverem o sentido de parceria, de conquistas...
Enquanto
isso não acontece nós temos que dizer NÃO
a todo e qualquer projeto que não seja amplamente
discutido por nós, feito por nós. Tentarmos
trabalhar da maneira que sabemos, porque nós sabemos
trabalhar. E o Governo sabe disso... e é por isso
que tem gasto tanto dinheiro em propagandas que não
condizem com a realidade... se esse dinheiro fosse investido
em nossas reais possibilidades... aí sim, o Brasil
teria a maior de suas experiências em desenvolvimento.
Por
isso não participei: porque não acredito em
servilismo. Porque se não dou meu NÃO no meu
cotidiano, se aceito passivamente aquilo que aniquila o meu
trabalho; se não valorizo a minha prática;
se não respeito aquilo que eu sou, o Estado, a quem
servimos, não dará a mínima à nossa
própria voz. E tome mordaça. Não quero
continuar assinando um documento que decreta o fim de minha
profissão.
(*)
Professora do ensino fundamental da rede estadual de
ensino, na Escola Estadual Armênio Veloso, em Montes
Claros
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