O
fio do bigode fiscal
GLAUCO
PEIXOTO
Auditor Fiscal da Receita Estadual,
Governador Valadares/MG
Ao
longo da minha infância e adolescência, durante o período
de férias em Jequitinhonha, uma das coisas que mais gostava
de fazer nas noites silenciosas e estreladas da fazenda era conversar
com Samaria, a mãe do nosso vaqueiro, pessoa já idosa,
totalmente analfabeta, mas com uma capacidade de entender o mundo à sua
volta que me deixava boquiaberto. Samaria (abreviação
comum na zona rural para “senhora Maria”), com um bom
senso extraordinário, afirmava que, ao contrário
de muitos da sua idade, não tinha saudade dos tempos antigos,
quando as dificuldades eram muitas. Não tinha estrada, não
tinha médico, dizia. O povo, sobretudo na roça, sempre
passava necessidade. “A única coisa que eu acho que
piorou nos dias de hoje foi que os “homi” perderam
o costume de dar valor ao fio do bigode” afirmava ela, e
caia na risada.
Confesso que hoje, ao saber da reunião terça-feira entre a diretoria
do Sindifisco e o Secretário da Fazenda, ou seus representantes, não
sei direito, pensei muito em Samaria e no valor da palavra empenhada. Afinal,
se em reunião anterior, quando se discutiu o posicionamento da SEF em
relação ao Decreto do Reposicionamento por Escolaridade Adicional,
nossos representantes tanto do Sindicato quanto da Affemg, obtiveram o compromisso
dos dirigentes da SEF de encaminhar e defender junto a SEPLAG a decisão
que a categoria fiscal tomasse em assembléia (certamente blefaram, pensando
que a categoria está sendo conduzida pelo mesmo raciocínio dos últimos
anos), como interpretar essa súbita mudança de posicionamento?
Como entender o argumento de que foi um abaixo-assinado encaminhado por não
sei quem que motivou o descumprimento da palavra dada?
Ora, onde é que nós estamos senhores administradores? Onde é que
vamos parar com atitudes como essa? Em primeiro lugar, que apresentem o tal
abaixo-assinado. É imperioso que ele seja exibido, pois precisamos ver
pra crer nessas assinaturas. Se esse documento não existir, acho que
vai ser difícil continuar uma conversa situada abaixo da linha da mentira.
Caso exista, caso sejam assinaturas de fiscais, primeiro verificaremos a data,
se foi elaborado antes ou depois da assembléia. Se foi antes, ridículo
terá sido o argumento da SEF. Agora, se esse suposto abaixo-assinado
foi elaborado por fiscais após a assembléia, a situação
muda um pouco de figura. Só um pouco!
Não, não se enganem, senhores administradores, nada justificará sua
mudança de posição. Apenas seríamos forçados
a lidar com um recém-nascido na SEF, uma novidade, um genuíno
produto da traição, primogênito do ódio não
saciado dos perdedores com a ganância dos egoístas, descendente
direto da inveja dos vaidosos inconformados com a derrota. Acredito que muita
reflexão seria necessária para entendermos como tal atitude teria
sido tomada no seio de uma categoria como a nossa.
Mas, como disse, mesmo que exista o tal abaixo-assinado, ele seria para nossa
digestão, só pela categoria, nunca usado para justificar mudança
de posicionamento da alta gerência. Afinal de contas, quais são
os critérios, senhor Secretário, ou melhor, existem critérios
para discussão das reivindicações da categoria? Ou as
decisões são tomadas antecipadamente e nossos representantes
feitos de bobos em reuniões de faz-de-conta? Daqui para frente abaixo-assinados à revelia
do nosso Sindifisco terão o mesmo peso das decisões de assembléias?
E, nesse caso, qualquer abaixo-assinado vale ou vai depender da posição
dos donos das assinaturas?
A surpresa e a decepção com essa decisão da SEF na questão
do Decreto de Escolaridade causam tal perplexidade que é natural ficarmos
meio confusos sobre o caminho a seguir. Só sei que é momento
de tomarmos uma atitude à altura dos acontecimentos. Mas não
interpretem mal o que digo. Não estou falando prá categoria fiscal
começar a prometer e não cumprir. Apenas devemos nos mobilizar
intensamente, fortalecer nossa posição e demonstrar a quem não
está acostumado o quanto vale o fio do bigode fiscal. 