PONTO DE VISTA
Nš 19
6 de junho de 2008
 
   

O fio do bigode fiscal

GLAUCO PEIXOTO
Auditor Fiscal da Receita Estadual,
Governador Valadares/MG

Ao longo da minha infância e adolescência, durante o período de férias em Jequitinhonha, uma das coisas que mais gostava de fazer nas noites silenciosas e estreladas da fazenda era conversar com Samaria, a mãe do nosso vaqueiro, pessoa já idosa, totalmente analfabeta, mas com uma capacidade de entender o mundo à sua volta que me deixava boquiaberto. Samaria (abreviação comum na zona rural para “senhora Maria”), com um bom senso extraordinário, afirmava que, ao contrário de muitos da sua idade, não tinha saudade dos tempos antigos, quando as dificuldades eram muitas. Não tinha estrada, não tinha médico, dizia. O povo, sobretudo na roça, sempre passava necessidade. “A única coisa que eu acho que piorou nos dias de hoje foi que os “homi” perderam o costume de dar valor ao fio do bigode” afirmava ela, e caia na risada.

Confesso que hoje, ao saber da reunião terça-feira entre a diretoria do Sindifisco e o Secretário da Fazenda, ou seus representantes, não sei direito, pensei muito em Samaria e no valor da palavra empenhada. Afinal, se em reunião anterior, quando se discutiu o posicionamento da SEF em relação ao Decreto do Reposicionamento por Escolaridade Adicional, nossos representantes tanto do Sindicato quanto da Affemg, obtiveram o compromisso dos dirigentes da SEF de encaminhar e defender junto a SEPLAG a decisão que a categoria fiscal tomasse em assembléia (certamente blefaram, pensando que a categoria está sendo conduzida pelo mesmo raciocínio dos últimos anos), como interpretar essa súbita mudança de posicionamento? Como entender o argumento de que foi um abaixo-assinado encaminhado por não sei quem que motivou o descumprimento da palavra dada?

Ora, onde é que nós estamos senhores administradores? Onde é que vamos parar com atitudes como essa? Em primeiro lugar, que apresentem o tal abaixo-assinado. É imperioso que ele seja exibido, pois precisamos ver pra crer nessas assinaturas. Se esse documento não existir, acho que vai ser difícil continuar uma conversa situada abaixo da linha da mentira. Caso exista, caso sejam assinaturas de fiscais, primeiro verificaremos a data, se foi elaborado antes ou depois da assembléia. Se foi antes, ridículo terá sido o argumento da SEF. Agora, se esse suposto abaixo-assinado foi elaborado por fiscais após a assembléia, a situação muda um pouco de figura. Só um pouco!

Não, não se enganem, senhores administradores, nada justificará sua mudança de posição. Apenas seríamos forçados a lidar com um recém-nascido na SEF, uma novidade, um genuíno produto da traição, primogênito do ódio não saciado dos perdedores com a ganância dos egoístas, descendente direto da inveja dos vaidosos inconformados com a derrota. Acredito que muita reflexão seria necessária para entendermos como tal atitude teria sido tomada no seio de uma categoria como a nossa.

Mas, como disse, mesmo que exista o tal abaixo-assinado, ele seria para nossa digestão, só pela categoria, nunca usado para justificar mudança de posicionamento da alta gerência. Afinal de contas, quais são os critérios, senhor Secretário, ou melhor, existem critérios para discussão das reivindicações da categoria? Ou as decisões são tomadas antecipadamente e nossos representantes feitos de bobos em reuniões de faz-de-conta? Daqui para frente abaixo-assinados à revelia do nosso Sindifisco terão o mesmo peso das decisões de assembléias? E, nesse caso, qualquer abaixo-assinado vale ou vai depender da posição dos donos das assinaturas?

A surpresa e a decepção com essa decisão da SEF na questão do Decreto de Escolaridade causam tal perplexidade que é natural ficarmos meio confusos sobre o caminho a seguir. Só sei que é momento de tomarmos uma atitude à altura dos acontecimentos. Mas não interpretem mal o que digo. Não estou falando prá categoria fiscal começar a prometer e não cumprir. Apenas devemos nos mobilizar intensamente, fortalecer nossa posição e demonstrar a quem não está acostumado o quanto vale o fio do bigode fiscal.