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PONTO
DE VISTA
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A
Hora e a Vez do Fisco
“Que cada um pegue o seu taco e esgrima a
jogada de sua vida”
Max
Antônio Amaral Pereira
Auditor Fiscal da Receita Estadual,
DF/BH1
guaramax@uol.com.br
Tenho percebido, neste momento de incertezas para todos nós, que muito
se questiona a representação política dos fiscos no
Brasil. E nessa hora somos dominados por um sentimento de impotência.
Quem deve e quem pode nos representar?
Vencida esta questão preliminar, surge outra, tão importante
e tão angustiante quanto: Como e de que forma seremos representados?
Para buscar a resposta a estas e outras questões, faz-se necessária
uma breve digressão.
Tomo como exemplo os pilares sobre os quais se apóia o nosso sistema
democrático, i.e., a sua concepção tripartite.
No plano teórico ao menos (imperfeições, casuísmos
e desmandos à parte), Executivo, Legislativo e Judiciário,
cada qual albergado pela competência que lhe é outorgada pela
Carta Magna, cumpre o seu papel (ou, ao menos, deveria cumpri-lo).
Na esteira desta concepção filosófica, o Legislativo
apóia-se em uma estrutura bicameral: Senado e Câmara Federal.
O primeiro, afinal somos uma federação, constitui a representação
dos Estados e o segundo congrega a representação do povo, cuja
palavra é (assim deveria ser sempre) a derradeira e decisiva.
A consolidação e o aperfeiçoamento do modelo democrático
perpassa pela garantia da autonomia de determinadas instituições
como, por exemplo, o Ministério Público, as Procuradorias,
as Advocacias Gerais, a Defensoria Pública, os Tribunais de Contas,
as Auditorias Públicas, as Polícias e os Fiscos em todos os
seus níveis, Federal (aqui incluídos, além das carreiras
unificadas com a criação da Super Receita, os Fiscos do trabalho
e das diversas Agências Reguladoras, as famosas “ANAS”),
Estadual e Municipal.
A primeira questão a ser resolvida está, então, vinculada à percepção
do grau de nossa autonomia no exercício de nossa atividade intrínseca.
Será que exercitamos, de forma plena, a nossa capacidade controlística?
Sabemos mesmo o que é exercer plenamente o controle e a fiscalização
dos tributos de nossa competência? O que entendemos por formular políticas
fiscal e tributária? Qual é o nosso papel, enquanto agentes
do Fisco, dentro da Instituição que nos abriga e diante da
sociedade que nos financia?
De nada adianta buscar respostas prontas, nem apelar para fórmulas
mágicas e nem tampouco nos refugiar na retórica de um discurso
falacioso e vazio.
Só obteremos respostas concretas, não canso de escrever e falar,
pela atitude, individual e coletiva, pela reflexão e pela organização,
pela palavra e pela ação.
Aqui em Minas já experimentamos algumas atitudes, tanto no plano individual,
quanto no coletivo. Ainda que insipientes, tais experiências são
sinalizações claras e contundentes de que podemos fazer nascer
um novo Fisco, cônscio e responsável, forte e atuante, reflexivo
e dinâmico, autônomo e eficaz.
Assim surgiu o ArtFisco. Uma feliz, vitoriosa e consagradora iniciativa
de seus idealizadores, tendo à frente a figura iluminada de Matias
Bakir de Faria.
Ousado, visionário ou maluco, Mancini desenvolveu inicialmente a Refazenda2001.
Se o Projeto ArtFisco buscava se consolidar como um amálgama da criação
e da integração, a REFAZENDA2010, mais que um espasmo de ousadia
de seu criador, era e é ainda, principalmente, um grito de liberdade.
Seja navegando pelas “ondas” da REFAZENDA2010, seja apoiados
nas asas do Projeto ArtFisco, a poesia de Iacyr, a música de Luisinho
Lopes, a pena, cortante como uma navalha, de Carlos Peixoto, o texto lúcido
e instigante de Hugo Mescolin, os desenhos, a pintura e a fotografia da Soraia,
o dueto teatral da Rosana e do Munir, as vozes do Antônio Eugênio
e da Tininha, os gorjeios do Anselmo e da Pimenta, os versos do Lúcio
Ferraz, a fina e sarcástica ironia das rimas do Moita, as estrofes
da Judith, a verve explosiva do Catraca, o som do Promenade e as imagens
de um cineasta e fiscal aposentado gritavam e cantavam, cada qual à sua
maneira e com o seu talento, a nossa ode pela liberdade.
A ferramenta é uma só: o fiscal-homem. O objetivo: a edificação
do fiscal-cidadão. O que une todos aqueles que, de alguma maneira,
gritam a sua sede de cidadania é tão somente a ousadia. Já escrevi
certa vez que ousadia nada mais é que a vitamina de vida. E, parafraseando
Lia Luft, emendei: “a ousadia é a essência de alguém
disposto a se imolar, a arder pelo seu ideal. Alguém que, ora despedaçado,
ora refeito nos emprestará o seu pulmão para respirarmos, o
seu sangue para sobrevivermos e o seu coração para lutarmos
as nossas guerras. Assim é o artista. Assim é esse alguém
que pode e está escondido dentro de cada um nós”.
Assim é a Sol que, num “insight” genial, criou o “Liberdade
de Expressão”.
Assim, esse homem que descobre a si mesmo e esse fiscal que passa a se
conhecer na sua inteireza saberão fazer-se representar. E apenas uma pessoa é capaz
de dizer quem pode e quem deve representá-lo: você mesmo.
Do ponto de vista formal e legítimo, legal e político, quem
nos representa nas questões trabalhistas e nas mais diversas querelas,
judiciais ou não, é o Sindicato.
Mas quem representa o pensamento? Seria estúpido definirmos este ou
aquele representante. Dizer que esta ou aquela entidade, esta ou aquela pessoa
representam o nosso pensamento, individual ou coletivo é, no mínimo,
perigoso.
Um sindicato, no máximo, reverbera o pensamento e a vontade da categoria
que representa, erigidos em dado momento ou em determinada circunstância,
normalmente em um fórum pré-determinado, chamado de assembléia
de classe e, apenas em relação a determinado assunto ou pleito.
Mas nunca a totalidade do pensamento. Admitir o contrário, seria o
mesmo que concordar com a subjugação do pensamento. E abdicar
da liberdade de pensamento seria, para mim, negar a essência do meu
ser. Quando estou atuando em algum palco, ou escrevendo os meus artigos,
ou ainda cantando, i.e., no pleno exercício da minha capacidade de
criar, sou e me sinto absolutamente livre, cônscio de meus direitos
e deveres e, principalmente, consciente de que meus limites e minhas
capacidades são infinitos.
Consoante com este ponto de vista, as entidades de classe, além de
refletir, em determinados momentos e em condições especiais,
a vontade de seus representados, têm a obrigação de consolidarem
espaços para a produção de conteúdo.
Aqui devo voltar ao nosso exemplo para lembrar que o sistema democrático
brasileiro não se ratifica na prática. Com um Legislativo dependente
e caquético e um Judiciário vesgo, o poderoso Executivo se
agiganta e a todos se impõe. Não podemos copiar o modelo. Cada
entidade, a exemplo dos veículos alternativos, já presentes
em nossas vidas graças à ousadia de uns poucos, tem um papel
próprio a cumprir. Lá como cá, é fundamental,
pois, se preservar a autonomia de cada ente.
A AFFEMG, por exemplo, sob a batuta do Sinval, já vem priorizando
a produção de conteúdo. Assim como no passado o Sindifisco inovou com a criação do Conselho Deliberativo Ampliado, CDA,
a nossa Associação se moderniza com a formação
do Conselho Político e a constituição do Conselho
Editorial.
O que é fundamental frisar é que estas instâncias sinalizam
a vontade política da entidade e de seu comandante maior em democratizar
a gestação das idéias e em compartilhar a opinião.
E há espaço para todos.
Um bom sinal: Febrafite e Fenafisco, já de algum tempo, começaram
a falar a mesma língua. Tal e qual uma estrutura bicameral ideal,
as duas Federações produzem alternativas de proposta de Lei
Complementar (Lei orgânica do Fisco) a serem levadas para debate da
categoria e alternativas para a solução, em nível nacional,
dos nossos problemas mais prementes, como por exemplo, a questão
do subteto.
O produto final das discussões deverá ser encaminhado para
discussão e aprovação no Congresso Nacional. E, nós,
fiscais estaduais, não podemos nos esquecer jamais que os colegas
dos demais fiscos também deverão exercer o lídimo
direito de propor as suas alternativas.
Agora, uma boa notícia: o Sindifisco, sob nova direção,
foge da ortodoxia engessadora, inova e conjuga um novo verbo, interlocutar
e fala em delegar. Eu, não tenho dúvidas, vou nessa.
Os instrumentos estão aí: Sindifisco, Affemg, ArtFisco,
REFAZENDA2010,
Febrafite, Fenafisco, FiscoFórum, Liberdade de Expressão, Coordenação
Intersindical, institucionais ou não. A mão de obra também:
nós próprios. A matéria prima e o combustível
são fartos: o pensamento, a reflexão, a palavra, a criação,
a atitude e a indignação. A organização é o
desafio e a ação planejada o caminho.
Certa vez, Barnabé da Silva, meu velho e fiel escudeiro, me ensinou
o seguinte:
Se quisermos, nós faremos a história. Se formos cônscios
e organizados nós reescreveremos a história deste país.
O velho lobo me fizera perceber que, se não fosse por nós e
pela ação dos servidores que caminharam por Brasília
na luta contra a Reforma da Previdência, o Governo Federal não
teria recuado mais de uma vez, a base governista não teria sido irremediavelmente
rachada, os partidos que a compõem também não teriam
sofrido fissuras definitivas e o mais importante: a “entourage” do
poder não teria sido desmascarada. Definitivamente, nós,
naquele momento, mostramos o caminho.
Nós, e apenas nós, tornamos legítima a nossa representação.
A hora e vez do Fisco só dependem de nós. ![]()