PONTO DE VISTA
Nš 1
30 de janeiro de 2008
 
   

Ossinhos de plástico

GLAUCO PEIXOTO
Auditor Fiscal da Receita Estadual,
Governador Valadares/MG

A minuta do decreto que trata da questão da escolaridade adicional é tão ruim, mas tão ruim que, mais do que uma minuta, é um sintoma. Pode-se até discutir sintoma do quê, mas que é um sintoma, ah, isso ninguém me tira da cabeça.

Esse governo é muito bom em várias coisas. Por exemplo, vai ser bom em propaganda assim lá na Bahia de Duda Mendonça e Nizan Guanaes! É bom demais! Quem é que vai discordar que ele também é extremamente competente na nomeação de gerentes obedientissíssimos. Acho que nunca mais teremos outro igual, no grau de exigência de obediência cega. Agora, a outra grande especialidade desse governo é a das maldades com o funcionalismo. Quando surgiam, suas maldades costumavam ser muito bem elaboradas, disfarçadas em artigos de leis e decretos entregues na Assembléia, embrulhados em papel de presente. Não eram poucos os incautos que se enganavam, achando que iriam se dar bem. Sem falar nos mal intencionados, ciosos do dever de ficar do lado mais forte, oprimindo os mais fracos e ganhando bem pela escolha.

Mas, eis que surge, sem aviso, uma maldade óbvia, uma ruindade óbvia, caso dessa minuta. O que teria acontecido? Como é que conseguiram escrever algo assim? Pode ter sido a velha e desgastada estratégia do bode na sala, ou pode ter sido azar do governo: vai que a incumbência de redigir a minuta caiu nas mãos de um aspirante a malvado com pouca experiência, e deu no que deu. Eu, desconfiado como sou, não acredito em bodes, nem em azar e insisto que se trata de um sintoma: sintoma de negligência.

Imaginem o caso de uma família que se muda para uma casa nova. Ela é bonita, grande e espaçosa, mas precisa de reparos urgentes. Junto com a casa, a família toma posse de um bichinho de estimação que ajuda a tomar conta dela, mas também está muito mal cuidado. O chefe da família, vaidoso e ambicioso, exige que todos se empenhem na reforma da casa e nos cuidados ao animalzinho. No entanto, como pretende se mudar para uma outra moradia, maior e melhor localizada, o mais rápido possível, o chefe não faz questão de que a reforma seja exagerada. Desde que para a vizinhança a casa pareça um luxo só, não tem importância se o material usado for de segunda categoria. Quanto ao animalzinho, todos têm de se esforçar para que ele se sinta bem o suficiente para cuidar da segurança, entreter as crianças e buscar o jornal para o chefe todas as manhãs. E isso é conseguido com um pouco de ração, alguns afagos e muitos safanões nos momentos de maior impertinência.

Quando se aproxima o momento de se mudar para a casa maior, os cuidados com a atual diminuem e é natural que o animalzinho recomece a padecer. Mas animaizinhos sentem fome e, nessas horas, incomodam. Se, no começo, a família quis até se valer de consultorias técnicas para cuidar do bichinho, na hora de preparar a mudança não dá para perder tempo com ele. A solução é arranjar um daqueles ossinhos de plástico e atirar na grama do quintal para o bichinho brincar. Sabem como é que é, com o ossinho de plástico ele vai brincando, mordendo, pensa que está comendo, vai enganando a fome e deixa a família preparar a mudança sossegada. Como foi domesticado, não percebe que está completamente negligenciado.

A minuta do decreto sobre escolaridade adicional é um sintoma de que, nós, funcionalismo, já não estamos mais nos planos, já não fazemos parte de qualquer projeto, se é que algum dia fizemos. Se ainda faltava alguma coisa para completar a lista de idéias revolucionárias, produtos de choques imaginários, mas materializados apenas pela propaganda maciça, acho que o governo determinou que se escrevesse qualquer coisa aí... e deixa o pessoal correr atrás.

O problema dos ossos de plástico é que, se mastigar demais, além de aumentar a fome, periga engasgar.