PONTO DE VISTA
Nš 04
18 de março de 2010
 
 

Lamarck e o “a toa” oficial

Glauco Saraiva Peixoto
AFRE, DF Governador Valadares

Eu acho que o Progepi é algo absolutamente necessário. É uma questão de maturidade dar a mão à palmatória e admitir que não podia ser diferente. Afinal, somos a única categoria que “peitou” esse governo. Nos últimos sete anos, desde a primeira audiência pública provocada pelo Sindifisco a propósito da taxa de lixo, até o recente acionamento do Ministério Público para nos acalmar, fomos os únicos a provocar alguma turbulência nesse imenso espelho de águas calmas chamado Minas Gerais, destinado a refletir o brilho intenso do governador sol. Na verdade, na verdade, provocamos apenas marolinhas, mas, convenhamos, não podíamos ficar impunes.

Convocaram, então, gênios incógnitos, com as seguintes ordens: “submissão total, queremos a solução final contra campanhas salariais e coisas do gênero.” O Progepi é o resultado. Trabalho concluído, chegou a vez dos chefes promoverem as reuniões de divulgação. Nelas, pelas fotos e relatos, dá para notar que estavam todos uniformizados, vestindo aquela famosa grife francesa “peau de mouton”, e repetindo o discurso oficial de que se tratava de oportunidade para a “participação de todos”. No melhor estilo do carrasco que pergunta ao condenado como ele prefere o nó da forca!

É possível que, dentre os divulgadores, existam aqueles que realmente acreditam nos argumentos que foram obrigados a repetir, balelas do tipo que o Progepi vai melhorar e aproximar o desempenho dos fiscais de todo o Estado, que vai melhorar a gestão, etc. Ou pior, que o mau fiscal não vai ganhar o mesmo do bom fiscal, ou vice-versa, ou que o modelo anterior era muito questionável e que nem todos podem ganhar o teto. Gente que pensa assim está prenhe de preconceito, fecundada que foi pela rigidez do autoritarismo.

Chefes assim pensam assim por causa da Lei de Lamarck, que todos nós estudamos no segundo grau e que foi esquecida após a divulgação das teorias de Darwin, lembram-se? Mais de duzentos anos depois, eis que encontramos aplicação para a lei do uso e do desuso em plena SEF: de tanto exigir o uso da obediência, a Sufis exacerbou essa característica nos nossos chefes, em detrimento de atributos como capacidade de argumentação, discernimento, iniciativa. Deve ser pelo desuso que chefes assim não enxergam a verdade por trás dos falsos argumentos. Não enxergam que, se não mudarem o comportamento e o perfil das chefias, nada mudará. Afinal, se existem maus fiscais na SEF, se eles persistem, ainda piores são os respectivos gerentes. Obedientes, mas muito piores. Se um gerente não teve coragem de avaliar negativamente um subordinado no sistema anterior, porque teria agora com o Progepi e suas tarefinhas?

A essa pergunta os gênios incógnitos não conseguirão responder. E é compreensível, afinal eles são gênios, não deuses, e somente Deus poderia colocar ordem nesse caos. Assim, o Progepi, produto de gênios, tem furos. Um deles diz respeito a nossa tão sonhada autonomia. Salvo engano, com o fim da antiga OS, conseguimos alguma. Com o novo sistema, depois de cumpridas nossas tarefinhas, acho que poderemos sair por aí fiscalizando qualquer um. Não receberemos pelo trabalho, mas não há nada, até hoje, que nos impeça. Eu, por exemplo, se morasse em Betim, cumpridos meus pontinhos, poderia lascar um AIAF em qualquer grande transportadora que porventura tenha PTA’s engavetados, é ou não é?

Essa incipiente autonomia pode ser classificada como efeito colateral do trabalho dos gênios incógnitos. Assim como a oficialização da vagabundagem. Caso sobreviva, o Progepi será o porto seguro daquela figura inatingível do fiscal que trabalha pouco. Se, com a antiga OS, existia o risco de o chefe mandar esse sujeito trabalhar a qualquer momento, agora ele está tranqüilo. É só cumprir os pontinhos do acordo de trabalho amigo e pronto: transforma-se no “a toa oficial”.

Na história, esse será o legado do Sr. Não, não e não: foi o único secretário da Fazenda de Estado importante da Federação que não evitou queda na arrecadação, mandou seus subordinados enfiarem o plus na poupança e criou uma figura nova no funcionalismo público: o “a toa oficial”. Quanto a nosso legado, acho que vai depender do Lamarck.