Lamarck
e o “a toa” oficial
Glauco Saraiva
Peixoto
AFRE, DF Governador Valadares
Eu
acho que o Progepi é algo
absolutamente necessário. É uma
questão de maturidade
dar a mão à palmatória
e admitir que não
podia ser diferente. Afinal,
somos a única categoria
que “peitou” esse
governo. Nos últimos
sete anos, desde a primeira
audiência pública
provocada pelo Sindifisco
a propósito da taxa
de lixo, até o recente
acionamento do Ministério
Público para nos
acalmar, fomos os únicos
a provocar alguma turbulência
nesse imenso espelho de águas
calmas chamado Minas Gerais,
destinado a refletir o
brilho intenso do governador
sol. Na verdade, na verdade,
provocamos apenas marolinhas,
mas, convenhamos, não
podíamos ficar impunes.
Convocaram, então, gênios incógnitos, com as seguintes
ordens: “submissão total, queremos a solução final
contra campanhas salariais e coisas do gênero.” O Progepi é o
resultado. Trabalho concluído, chegou a vez dos chefes promoverem as
reuniões de divulgação. Nelas, pelas fotos e relatos,
dá para notar que estavam todos uniformizados, vestindo aquela famosa
grife francesa “peau de mouton”, e repetindo o discurso oficial
de que se tratava de oportunidade para a “participação
de todos”. No melhor estilo do carrasco que pergunta ao condenado como
ele prefere o nó da forca!
É possível que, dentre os divulgadores, existam aqueles que realmente
acreditam nos argumentos que foram obrigados a repetir, balelas do tipo que o
Progepi vai melhorar e aproximar o desempenho dos fiscais de todo o Estado, que
vai melhorar a gestão, etc. Ou pior, que o mau fiscal não vai ganhar
o mesmo do bom fiscal, ou vice-versa, ou que o modelo anterior era muito questionável
e que nem todos podem ganhar o teto. Gente que pensa assim está prenhe
de preconceito, fecundada que foi pela rigidez do autoritarismo.
Chefes assim pensam assim por causa da Lei de Lamarck, que todos nós
estudamos no segundo grau e que foi esquecida após a divulgação
das teorias de Darwin, lembram-se? Mais de duzentos anos depois, eis que encontramos
aplicação para a lei do uso e do desuso em plena SEF: de tanto
exigir o uso da obediência, a Sufis exacerbou essa característica
nos nossos chefes, em detrimento de atributos como capacidade de argumentação,
discernimento, iniciativa. Deve ser pelo desuso que chefes assim não
enxergam a verdade por trás dos falsos argumentos. Não enxergam
que, se não mudarem o comportamento e o perfil das chefias, nada mudará.
Afinal, se existem maus fiscais na SEF, se eles persistem, ainda piores são
os respectivos gerentes. Obedientes, mas muito piores. Se um gerente não
teve coragem de avaliar negativamente um subordinado no sistema anterior, porque
teria agora com o Progepi e suas tarefinhas?
A essa pergunta os gênios incógnitos não conseguirão
responder. E é compreensível, afinal eles são gênios,
não deuses, e somente Deus poderia colocar ordem nesse caos. Assim,
o Progepi, produto de gênios, tem furos. Um deles diz respeito a nossa
tão sonhada autonomia. Salvo engano, com o fim da antiga OS, conseguimos
alguma. Com o novo sistema, depois de cumpridas nossas tarefinhas, acho que
poderemos sair por aí fiscalizando qualquer um. Não receberemos
pelo trabalho, mas não há nada, até hoje, que nos impeça.
Eu, por exemplo, se morasse em Betim, cumpridos meus pontinhos, poderia lascar
um AIAF em qualquer grande transportadora que porventura tenha PTA’s
engavetados, é ou não é?
Essa incipiente autonomia pode ser classificada como efeito colateral do trabalho
dos gênios incógnitos. Assim como a oficialização
da vagabundagem. Caso sobreviva, o Progepi será o porto seguro daquela
figura inatingível do fiscal que trabalha pouco. Se, com a antiga OS,
existia o risco de o chefe mandar esse sujeito trabalhar a qualquer momento,
agora ele está tranqüilo. É só cumprir os pontinhos
do acordo de trabalho amigo e pronto: transforma-se no “a toa oficial”.
Na história, esse será o legado do Sr. Não, não
e não: foi o único secretário da Fazenda de Estado importante
da Federação que não evitou queda na arrecadação,
mandou seus subordinados enfiarem o plus na poupança e criou uma figura
nova no funcionalismo público: o “a toa oficial”. Quanto
a nosso legado, acho que vai depender do Lamarck. 