CARTA
ABERTA À VEJA
Imparcialidade – Aécio
Neves
Luciano
Nogueira Marmontel
AFRE, DF Pouso Alegre
automat_br@ig.com.br
A
edição
2128 da revista Veja
publicou a matéria “O
legado de Aécio
em concreto” sobre
a construção
do novo Centro Administrativo
do Governo de Minas Gerais,
uma imponente obra projetada
por Oscar Niemeyer que,
quando concluída,
irá reunir as
sedes das administrações
do Estado, incluindo
o gabinete do governador.
A exemplo de outras reportagens publicadas pela Veja sobre o governo
Aécio Neves, a matéria mais parece publicidade paga. Não
há uma única crítica contra a obra. Nenhum representante
da oposição do governo foi ouvido. Tudo que se lê é pura
exaltação da obra e, por tabela, do governador Aécio
Neves.
Em nenhum momento é questionada a real necessidade do Centro Administrativo
e se o seu gigantesco custo de R$ 1,4 bilhão (informado na reportagem) é compatível
com a obra ou se haveria algo por trás disso, lembrando que a
previsão inicial apontava um valor bem mais modesto, embora ainda
elevado, de R$ 500 milhões (isso não foi informado pela
Veja).
Ressalte-se ainda que o estado de Minas Gerais é extremamente
carente de investimentos públicos – educação,
transportes, segurança, saúde e muitos outros. A quantia
gasta com essa obra eleitoreira e faraônica seria suficiente para
muitas outras obras com benefícios diretos a toda a população.
Na edição seguinte da publicação da matéria,
a Veja publicou duas cartas de leitores igualmente elogiando a obra e
o governador Aécio Neves. Curioso é que ambos não
residem em Minas (uma delas afirma literalmente “nunca pisei em
solo de Minas Gerais”). O autor desta carta aberta (morador de
Minas Gerais) também escreveu à Veja, questionando a necessidade
do centro e seu custo. A revista, como esperado, não publicou
essa ou qualquer outra opinião contrária à obra,
que possa ter recebido.
Como leitor da Veja há mais de 35 anos, tenho cada vez mais dúvidas
sobre sua imparcialidade – atributo indispensável de qualquer órgão
da imprensa que deseje ter um mínimo de credibilidade.
E aí está o núcleo da questão. Mesmo assumindo,
numa hipótese muito remota, que o Centro Administrativo seja realmente
necessário, o custo seja compatível com seu tamanho e os
questionamentos contra ele sejam injustos, o simples fato da Veja se
recusar a publicar uma única linha que seja sobre o outro lado
dessa obra já é motivo mais que suficiente para que qualquer
pessoa minimamente esclarecida tenha dúvidas da imparcialidade
desse periódico.
É importante acrescentar que a revista Época, concorrente da Veja,
já havia publicado matéria sobre mesmo assunto, “A Disneylândia
de Aécio”, também falando da grandiosidade da obra, mas sem
omitir informações contrárias a ela, como Veja faz. Quem
quiser pode facilmente acessar a versão para a Internet da matéria
em:
http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI75212-15223,00-A+DISNEYLANDIA+DE+AECIO+NEVES.html
Muitas pessoas (inclusive os cidadãos mineiros) ignoram certos
detalhes sobre Minas Gerais e seu governo. Neste estado os investimentos
públicos raramente beneficiam a população. As rodovias
estaduais são um claro exemplo (se fossem citados todos, certamente
essa carta teria o volume de um grande livro). Elas são uma das
bandeiras do governo Aécio Neves, que se gaba de ter levado asfalto
a todas as cidades do estado.
Eu gostaria muito de mostrar aos defensores desse governo as reais condições
destas rodovias. Em minha cidade, Pouso Alegre, uma das obras do governo
estadual foi o asfaltamento da Av. Perimetral, subtrecho da MG 290. O
asfalto foi concluído em 2007 e apenas 6 meses após a conclusão
já estava quase intransitável, tamanha era a quantidade
de buracos e falhas no pavimento. A quem acha que isso é mentira
ou exagero, convido a “passear” pela avenida por meio dos
seguintes vídeos, sem maquiagens ou edições, disponíveis
na Internet, filmados em 2008, menos de um ano após concluído
o asfaltamento:
http://www.youtube.com/watch?v=Q0xaeM_0GPM&feature=PlayList&p=24F7902D05DBD2AC
http://www.youtube.com/watch?v=PX4-AxHrKQI&feature=PlayList&p=24F7902D05DBD2AC
http://www.youtube.com/watch?v=87bRjaMdquw&feature=PlayList&p=24F7902D05DBD2AC
Mas essa, obviamente não é a única obra vergonhosa
do Governo Aécio Neves. Dei-me ao trabalho de fazer outras filmagens
de algumas rodovias estaduais e disponibilizá-las na Internet,
para que qualquer cidadão possa comprovar sem correr os riscos
que os mineiros enfrentam:
http://www.youtube.com/watch?v=DhVF2sO7Boo&feature=PlayList&p=6627427363C200BA
http://www.youtube.com/watch?v=-98JxtZ093o&feature=PlayList&p=6627427363C200BA
http://www.youtube.com/watch?v=ulacPYp-LEI&feature=PlayList&p=6627427363C200BA
http://www.youtube.com/watch?v=t9acvy2qE08&feature=PlayList&p=6627427363C200BA
http://www.youtube.com/watch?v=ugKZxwry48Q&feature=PlayList&p=6627427363C200BA
A quem se der ao trabalho de ver esses vídeos, lembro que as rodovias
MG 458 e MG 290, na ocasião das filmagens, haviam sido recentemente “recuperadas” pelo
governo Aécio Neves. E mesmo assim, não possuem acostamento,
pista adicional para veículos pesados e, muitas vezes, nem sequer
sinalização.
Tão baixa qualidade das obras públicas não significa,
por outro lado, que o Governo Mineiro cobre pouco de seus cidadãos.
Em matéria de tributação, Minas Gerais é um
dos estados mais famintos da União (se não for o maior).
Alguns exemplos:
1.
Pagamos pelo litro do
etanol mais de R$ 1,60,
por causa da incidência
do ICMS recordista de
25%. Em nosso vizinho,
o estado de São
Paulo, o litro deste
combustível custa
em torno de R$ 0,50 a
menos. Entre os estados
produtores de etanol,
Minas é o que
possui o maior preço;
2. O IPVA mineiro, juntamente com o paulista, tem a maior alíquota
(4%) e o menor desconto para pagamento a vista (3%) do Brasil. Outro
detalhe relevante é que o governo Aécio Neves reduziu este
imposto (a somente 1%) para as locadoras de veículos. Não
foi nenhuma coincidência o fato de que uma grande locadora de veículos,
a Localiza, foi umas das maiores doadoras da campanha eleitoral do governador.
3. A alíquota de ICMS de energia elétrica dos contribuintes
residenciais também é recordista nacional: nada menos que
30%. Some-se a isso o fato que o valor do quilowatt/hora cobrado pela
estatal mineira, a CEMIG, ser um dos mais altos do Brasil.
4. Por outro lado, as empresas de pequeno tinham benefícios fiscais
para aquisição de bens do ativo imobilizado (podiam abater
30% do imposto estadual devido) e impressoras fiscais (idem, com 100%
do valor). Em 2003, logo que assumiu o governo, Aécio Neves pôs
um fim a estes incentivos.
Sem
esfolar os bolsos dos
contribuintes mineiros,
como é que o Aécio
Neves poderia bancar
o centro administrativo?
Mais: o governo Aécio Neves mantém controle absoluto sobre
quase toda a imprensa mineira. Com raras exceções, não
se vê uma única crítica a seu governo (a Veja não
me deixa mentir), fato que explica a grande popularidade do governador.
Um exemplo, desta submissão é o grupo UAI, a maior empresa
de comunicação de Minas, que edita o jornal Estado de Minas,
provedores de acesso à Internet, rádios e emissoras de
TV (transmissoras da Rede Globo) espalhadas em todo o estado. Não
há uma única crítica ao governo mineiro em nenhum
meio de comunicação deste grupo.
Alguns jornalistas que ousaram abrir a boca foram imediatamente amordaçados
e demitidos. O exemplo mais notório foi a demissão praticamente
ao vivo do jornalista, Jorge Kajuru, da Band. A violência contra
esses profissionais lembra os períodos mais negros da ditadura
Vargas ou do regime militar brasileiro, que ironicamente, o avô de
Aécio Neves ajudou a combater.
Uma vez que seria total perda de tempo enviar esta carta apenas à Veja,
vou encaminhá-la a outras pessoas de meu círculo de relacionamento,
outros órgãos e profissionais da imprensa e postá-la
em fóruns de discussão na Internet. Peço aqui minhas
desculpas a quem não gostou dessa mensagem, mas acredito isso
interessa a qualquer brasileiro preocupado em saber um pouco da realidade
de alguém que ameaça mandar neste país.
Espero assim, como cidadão residente em Minas Gerais e, dentro
de minhas limitadas possibilidades, mostrar a outras pessoas que nem
tudo que se publica sobre Minas Gerais e seu governador condiz com a
realidade dos fatos.
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