“Conheci
aquele Colega em uma
visita à ‘sua’ Delegacia
Fiscal. Ele também,
assim como eu, depois
de tantos anos, ainda
não perde a mania
de referir às
unidades da SEF como ‘nossas’,
apesar de, hoje, elas
serem subjugadas por
outra Secretaria alienígena,
ao estilo stalinista,
como parte, senão
tudo, do Acordo Gerencial
a possibilitar um tal
choque de gestão.
Mesmo este choque não
conseguiu nos demover
da antiga idéia
de que ainda temos que
lutar pelo que é nosso.
O
nosso personagem falava
manso, pausadamente,
devagar, fraco mesmo.
Movia-se com dificuldade.
Ria quando o enjôo
de quimioterapia era
contido no esôfago.
Respirava fundo, tentando
o impossível
de colocar ar em um
pulmão debilitado,
pedia desculpas e continuava
a mostrar sua tese
sobre o comportamento
ilegal ou irregular
de contribuintes. Estava
já nos seus últimos
dias, aqueles restantes
que o câncer
não lhe conseguira
comer completamente
ou talvez fossem os
dias que ele não
os entregara para o
câncer comer,
gastando-os ali na ‘sua’ DF.
Certo é que
deveria estar aposentado
ou em tratamento, mas
não podia perder
tanto do vencimento
necessário à esposa
e três filhos
em formação.
Convivia tranquilamente
com seu chefe, apesar
das ordens que este
tinha para verificar
pessoalmente se ele
comparecera ao trabalho
e cortar o dia e qualquer
atraso, com influência
no ‘plus’,
Gepi, etc.. E neste
ponto seu chefe era
esmerado, pois, afinal,
o Estado precisava
reduzir folha de salários à custa
destes idiotas caquéticos,
múmias ambulantes
que insistem em dizer ‘presente
fessora’ e não
trazem maçã.
Tudo isto ele passava
com um sorriso leve
nos lábios e
um crítico olhar
de ‘lasseiz-faire’ pela
quase impossibilidade
de reação
pessoal.
Chegava
cedinho, pela manhã,
sentido dores e desejando ‘bom
dia’ a todos;
assinava o ponto (afinal
para ele precisava
um ponto especial em
seus tempos de ‘quimio’),
iniciava o trabalho
e era aos poucos absorvido
pelas outras dores
maiores do espaço
laborioso, até chegar
o horário das
agulhadas da quimioterapia.
Tinha sempre o cuidado
de avisar ao chefe
da sua saída
por ordem médica,
descia, ia à cozinha
e pedia à cantineira
que lhe guardasse um
pedaçinho daquele
bolo ou biscoito que
a ‘vaquinha’ entre
os amigos proporcionaria
a todos no café da
tarde. Fazia-o, porque
dizia que aquele bolinho
o ajudava a se manter
vivo, decorrência
do sabor de solidariedade
e do simples ato de
somente contemplar
a guloseima, sabendo
ser impossível
degluti-la após
aquela penosa sessão
química.
Ali
na cantina, ás
16 h, com um ‘pratinho
medroso’ em frente,
parecia um moleque,
quando ganha pirulito.
Fingindo esquecer as
mais de três
horas ligadas a uma
máquina; suspirava
e exclamava: que bom
ter amigos, que bom
ter quem se lembra
da gente! A seguir
despistava e metia
o biscoito no bolso,
para não melindrar
ninguém que
fosse. Num desses momentos
foi que o conheci e
não conseguia
acreditar que a contemplação
de um simples biscoito
solidário, fizesse
mais bem para o organismo
debilitado que todos
aqueles remédios
de alta tecnologia.
Era mesmo um milagre.
Percebi sua tentativa
do quase passe de mágica
em fazer sumir o lanchinho
nalgum bolso da blusa.
Ele, sentindo-se meio ‘Mister
M’, escusou-se: ‘o
Rex também gosta!’ Percebi
que falava de algum
cachorro, mas deixei
pra lá.
Custara
a acreditar, quando
os colegas disseram-me
que ele estava no último
estágio da doença
e que em breve estaria
num altar. Não
poderia acreditar que
estivesse assim, alegre
no cadafalso. Para
quebrar o gelo, atrevi-me
a perguntar por que
não se afastava
do trabalho. Respondeu-me: ‘45% é muito
desconto para afastar-se
com quase 30 anos de
trabalho e como já estou
no finalmente mesmo,
que eu morra e viva
minha família’.
Mesmo sem saber se ‘viva’ era
verbo ou exclamação,
tentei argumentar,
mas meus argumentos
foram todos contidos
pela mordaz OS 003/2009,
que coloca canga nos
comissionados e trabuco
nas mãos da
Alta Administração.
O
chefe chegou e lhe
disse secamente para
retornar ao trabalho,
já atrasado
em preciosos 15 minutos.
Levantei-me para despedir
e abracei-o, como uma índia
abraça ao despedir-se
do seu ‘cunhã membira
aguaçá’ (o
recém nascido
que tivera, sendo amante
do guerreiro preso,
prestes a ser executado às
bordoadas). Era mesma
uma nascitura despedida
final. Ele surpreendeu-se
com o abraço
e confidenciou-me,
no estilo mineiro de
mão ao ombro,
que os superiores já não
lhe tocavam a mão
havia meses, pois os
deuses não mais
falam com os homens
desde as epopéias
de Grécia e
Roma. Era abertura
para um naco de prosa,
acompanhando-o do corredor
até a sala.
Fomos num papo descontraído,
a passos lentos e com
algumas estórias
passadas no interior
de Minas, certamente
as últimas de
seu repertório,
recontadas ineditamente
naqueles breves instantes.
Encerramos perante
o esbaforido chefe
que já o aguardava à porta
com o ‘papagaio’ às
mãos em visível
nervosismo sob impulso
de aplicar-lhe a famigerada
OS.
Ao
final da tarde, quando
eu saía das
canseiras e perambulação
nos corredores, próprias
para nada se conseguir
resolver em DF, já escurecendo,
de canto de olho, ainda
pude vê-lo receber à beira
da calçada,
bem próximo à banca
de revistas, o afago
incontido do abanar
o rabo de um cãozinho
vira-latas, desses
que fazem ponto em
alguns locais e horários;
e depois de afagá-lo,
enfiar a outra mão
no bolso para oferecer
a ‘boa noite’ ao
Rex, um saboroso biscoito
mágico. Soube
depois que, naquela
repartição,
dia após dia,
nosso Colega amofinava
diariamente, mas sempre
juntou algum ar nos
pulmões para
conseguir dizer aos
AFREs: ‘Secretaria,
estes já não
são mais teus
filhos, mas teus enteados;
Colegas, esta Secretaria
teleguiada tornou-se
tua madrasta; Rex,
só você me
entende.’
Alguns
dias após pude
recortar sua foto em
um dos jornais da categoria,
para ser colocado com
orgulho junto aos santinhos
do oratório
de casa. Ali que já tinha
uma porção
de santos, recebeu
mais um; um ‘santo’ colega
e seu sorriso maroto
a desafiar os submissos
e debochar dos submetidos
eletrizados no ‘choque’.
As últimas notícias
foram que, até hoje,
sua viúva está tentando
receber o ‘plus’ atrasado
que ele tivera direito
em 2008 pelo adicional
de escolaridade. Talvez
um dia poderá seguir
a orientação
da madrasta e colocar
a sobra, após
desconto do IR, na
Poupança.”
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