PONTO DE VISTA
Nš 27
6 de outubro de 2009
 
 

TRIBUTO AOS COLEGAS QUE TOMBARAM
O passado ilumina o presente e o futuro para que aprendamos com as experiências

Inocêncio Duarte de Oliveira Rocha
AFRE, DFT/BH
inocenciodaft@yahoo.com.br

Há alguns dias ouvi uma frase em um destes programas televisivos atribuída a algum guru oriental, apresentada como solução ocidental para todos os problemas atuais. A frase era, mais ou menos, a seguinte: “Não nos preocupemos com o Passado, nem com o Futuro, pois nos importa o Presente”, bem ao estilo do popular “águas passadas não tocam moinho”, ou “bola pra frente”.

Bem, após uma análise da dita, acabei fazendo reservas para concordar, pois o passado, a meu ver, tem pelo menos duas funções: iluminar o presente e o futuro, e permitir o acúmulo de experiências, para que, como idiotas, não repitamos os erros.

Não sei a quem falarei agora. Farei relato sobre a história de um Amigo atemporal, que poderia ser presente, passado ou futuro, pois acredito nos AFREs, mesmo depois da OS 003/2009.

“Conheci aquele Colega em uma visita à ‘sua’ Delegacia Fiscal. Ele também, assim como eu, depois de tantos anos, ainda não perde a mania de referir às unidades da SEF como ‘nossas’, apesar de, hoje, elas serem subjugadas por outra Secretaria alienígena, ao estilo stalinista, como parte, senão tudo, do Acordo Gerencial a possibilitar um tal choque de gestão. Mesmo este choque não conseguiu nos demover da antiga idéia de que ainda temos que lutar pelo que é nosso.

O nosso personagem falava manso, pausadamente, devagar, fraco mesmo. Movia-se com dificuldade. Ria quando o enjôo de quimioterapia era contido no esôfago. Respirava fundo, tentando o impossível de colocar ar em um pulmão debilitado, pedia desculpas e continuava a mostrar sua tese sobre o comportamento ilegal ou irregular de contribuintes. Estava já nos seus últimos dias, aqueles restantes que o câncer não lhe conseguira comer completamente ou talvez fossem os dias que ele não os entregara para o câncer comer, gastando-os ali na ‘sua’ DF.

Certo é que deveria estar aposentado ou em tratamento, mas não podia perder tanto do vencimento necessário à esposa e três filhos em formação. Convivia tranquilamente com seu chefe, apesar das ordens que este tinha para verificar pessoalmente se ele comparecera ao trabalho e cortar o dia e qualquer atraso, com influência no ‘plus’, Gepi, etc.. E neste ponto seu chefe era esmerado, pois, afinal, o Estado precisava reduzir folha de salários à custa destes idiotas caquéticos, múmias ambulantes que insistem em dizer ‘presente fessora’ e não trazem maçã. Tudo isto ele passava com um sorriso leve nos lábios e um crítico olhar de ‘lasseiz-faire’ pela quase impossibilidade de reação pessoal.

Chegava cedinho, pela manhã, sentido dores e desejando ‘bom dia’ a todos; assinava o ponto (afinal para ele precisava um ponto especial em seus tempos de ‘quimio’), iniciava o trabalho e era aos poucos absorvido pelas outras dores maiores do espaço laborioso, até chegar o horário das agulhadas da quimioterapia. Tinha sempre o cuidado de avisar ao chefe da sua saída por ordem médica, descia, ia à cozinha e pedia à cantineira que lhe guardasse um pedaçinho daquele bolo ou biscoito que a ‘vaquinha’ entre os amigos proporcionaria a todos no café da tarde. Fazia-o, porque dizia que aquele bolinho o ajudava a se manter vivo, decorrência do sabor de solidariedade e do simples ato de somente contemplar a guloseima, sabendo ser impossível degluti-la após aquela penosa sessão química.

Ali na cantina, ás 16 h, com um ‘pratinho medroso’ em frente, parecia um moleque, quando ganha pirulito. Fingindo esquecer as mais de três horas ligadas a uma máquina; suspirava e exclamava: que bom ter amigos, que bom ter quem se lembra da gente! A seguir despistava e metia o biscoito no bolso, para não melindrar ninguém que fosse. Num desses momentos foi que o conheci e não conseguia acreditar que a contemplação de um simples biscoito solidário, fizesse mais bem para o organismo debilitado que todos aqueles remédios de alta tecnologia. Era mesmo um milagre. Percebi sua tentativa do quase passe de mágica em fazer sumir o lanchinho nalgum bolso da blusa. Ele, sentindo-se meio ‘Mister M’, escusou-se: ‘o Rex também gosta!’ Percebi que falava de algum cachorro, mas deixei pra lá.

Custara a acreditar, quando os colegas disseram-me que ele estava no último estágio da doença e que em breve estaria num altar. Não poderia acreditar que estivesse assim, alegre no cadafalso. Para quebrar o gelo, atrevi-me a perguntar por que não se afastava do trabalho. Respondeu-me: ‘45% é muito desconto para afastar-se com quase 30 anos de trabalho e como já estou no finalmente mesmo, que eu morra e viva minha família’. Mesmo sem saber se ‘viva’ era verbo ou exclamação, tentei argumentar, mas meus argumentos foram todos contidos pela mordaz OS 003/2009, que coloca canga nos comissionados e trabuco nas mãos da Alta Administração.

O chefe chegou e lhe disse secamente para retornar ao trabalho, já atrasado em preciosos 15 minutos. Levantei-me para despedir e abracei-o, como uma índia abraça ao despedir-se do seu ‘cunhã membira aguaçá’ (o recém nascido que tivera, sendo amante do guerreiro preso, prestes a ser executado às bordoadas). Era mesma uma nascitura despedida final. Ele surpreendeu-se com o abraço e confidenciou-me, no estilo mineiro de mão ao ombro, que os superiores já não lhe tocavam a mão havia meses, pois os deuses não mais falam com os homens desde as epopéias de Grécia e Roma. Era abertura para um naco de prosa, acompanhando-o do corredor até a sala. Fomos num papo descontraído, a passos lentos e com algumas estórias passadas no interior de Minas, certamente as últimas de seu repertório, recontadas ineditamente naqueles breves instantes. Encerramos perante o esbaforido chefe que já o aguardava à porta com o ‘papagaio’ às mãos em visível nervosismo sob impulso de aplicar-lhe a famigerada OS.

Ao final da tarde, quando eu saía das canseiras e perambulação nos corredores, próprias para nada se conseguir resolver em DF, já escurecendo, de canto de olho, ainda pude vê-lo receber à beira da calçada, bem próximo à banca de revistas, o afago incontido do abanar o rabo de um cãozinho vira-latas, desses que fazem ponto em alguns locais e horários; e depois de afagá-lo, enfiar a outra mão no bolso para oferecer a ‘boa noite’ ao Rex, um saboroso biscoito mágico. Soube depois que, naquela repartição, dia após dia, nosso Colega amofinava diariamente, mas sempre juntou algum ar nos pulmões para conseguir dizer aos AFREs: ‘Secretaria, estes já não são mais teus filhos, mas teus enteados; Colegas, esta Secretaria teleguiada tornou-se tua madrasta; Rex, só você me entende.’

Alguns dias após pude recortar sua foto em um dos jornais da categoria, para ser colocado com orgulho junto aos santinhos do oratório de casa. Ali que já tinha uma porção de santos, recebeu mais um; um ‘santo’ colega e seu sorriso maroto a desafiar os submissos e debochar dos submetidos eletrizados no ‘choque’. As últimas notícias foram que, até hoje, sua viúva está tentando receber o ‘plus’ atrasado que ele tivera direito em 2008 pelo adicional de escolaridade. Talvez um dia poderá seguir a orientação da madrasta e colocar a sobra, após desconto do IR, na Poupança.”

Então colega, este “passado” não o ilumina a sair do imobilismo, para modificar o presente e não se tornar o próximo “cunhã membira” executado? Este “passado” não lhe traz a apreensão real e presente de que, se você não se engajar na nossa luta, vai ter também que fazer mágica para guardar o biscoito para o Rex, breve, breve?

“Viva” com sua família, verbo e exclamação. Reflita e partilhe solidariedade. E tenha um sorriso especial para sua madrasta, pois ela não mais lhe quer. Agora, sim, bola pra frente! E viva você com a nossa lei orgânica, remuneração em subsídio e carreira típica de Estado. Até breve!