PONTO DE VISTA
Nš 26
24 de setembro de 2009
 
  

FISCALIZAÇÃO DO IPVA NA TERRA DO PEDRÃO E DO SEU MANOEL

Glauco Saraiva Peixoto
AFRE, DF Governador Valadares

Não tenham dúvidas: o IPVA aqui de Valadares vai bombar. Dizem que tá muito ruim, mas agora vai bombar. Não há outro resultado a se esperar depois da operação realizada aqui na cidade na última sexta-feira e noticiada no @fazenda, em que o Superintendente Regional saiu às ruas com 4 gestores para participar de uma fiscalização conjunta do IPVA com a polícia militar e prefeitura municipal. É isso mesmo, eu também fiquei espantado quando recebi o telefonema de um conhecido, repórter na TV Rio Doce, emissora que fez a cobertura, me perguntando que operação era aquela. Que operação era aquela pergunto eu, respondi. O Superintendente estava na rua com 4 “fiscais”, segundo o repórter, e como isso era coisa que nunca havia acontecido, ele me questionava se a fiscalização iria recrudescer, se o Superintendente estava dando exemplo, essas questões de quem não conhece nada do mecanismo da Fazenda. E eu ali, mudo, olhos arregalados, precisando de um beliscão para voltar a realidade.

Antes das idéias começarem a se reorganizar, minha língua coçou prá dar uma aula pro repórter sobre o que está acontecendo na SEF, mas me contive e quis saber se tinha passado na Globo também, já que a TV Rio Doce tem uma audiência, diria, periférica. Não, não passou na Globo, foi a resposta. Ufa, ainda bem que lá o negócio é mais profissional, eles não iriam engolir esse mico. Mico, não, aquela notícia era um chipanzé, um orangotango jornalístico. Menos mal, o jornal da TV Rio Doce passa junto com a novela das seis e aí, a audiência é mais ou menos assim: o Pedrão e o Jorjão estão relaxando ao redor do litro de caninha lá no copo sujo na saída para Teófilo Otoni depois de descarregarem uns dois caminhões. Um deles levanta os olhos para a tv esquecida no canto, escuta um pouco e comenta: “esses puliça tá querendo tomar o dinheiro até do carro da gente, Pedrão!” “Da gente o quê, Jorjão, ocê num tem nem bicicreta, fica queto e me dá o copo ae...”. Já no Morro da Carapina, seu Manoel fechou a venda, foi para casa e está sentado no trono lendo a Veja da semana passada (o negócio não é a notícia, é relaxar o intestino) enquanto sua mulher assiste a TV esperando o programa seguinte de curas e libertações. De repente ela grita: “Mané, os omi no jornal tão falando de um tal de PVA que tem de pagar do carro”. E seu Manoel: “Me deixa em paz, mulher, não vê que estou .....lendo. E meu chevette não paga isso mais não”.

Mas foi bobagem minha preocupar com o alcance do noticiário da TV Rio Doce, ou o alcance tributário da operação da última sexta-feira. Na verdade, aquela “fiscalização” do IPVA, pelo menos em parte, serviu a outro propósito, foi direcionada para uma outra audiência, bem mais distinta. Um exemplo? Os deputados que participaram de uma reunião com gestores na segunda-feira à noite, na sede da Superintendência aqui de Valadares, oportunidade em que foram entoadas preces fervorosas em prol da transmutação da água em vinho, ou melhor, (hic) de funcionários administrativos em fiscais.

Reparem bem, a divulgação no @fazenda, naquela “aba” de notícias com o título de “FISCALIZAÇÃO”, dessa operação com gestores na rua aqui em Valadares foi apenas o lance mais ousado de um processo sutil de propaganda que busca criar uma imagem de proximidade entre a ação dos gestores e dos fiscais na SEF. O recrudescimento dessa pretensão dos gestores tem como bíblia um documento de 90 páginas enviado pelo Sinffaz ao Secretário da Fazenda. Na verdade não é bíblia nada, é manual de construção de um trem da alegria, o qual, apesar do nome, se move sutil e sorrateiramente. Estamos diante de um movimento bem coordenado e sincronizado, que, mais uma vez, se aproveita do momento de crise da SEF, do desgaste da fiscalização e do nosso momento político para tentar emplacar uma aberração. Enquanto o Matias e o Sinval se esfalfam para apresentar uma alternativa séria para os problemas da SEF e do Estado, eles esgueiram-se pelas brechas e novamente colocam-se como alternativa. De novo, de novo e de novo. Eles não se cansam. Deve ser medo do STF.

Apesar de aberração, sobretudo do ponto de vista jurídico, esse movimento dos gestores representa risco. Em primeiro lugar porque estamos falando de política; segundo, ninguém sabe o que se passa na cabeça do sr. Não, não e não; finalmente e mais importante, tudo indica que tem ajuda de dentro, de fiscais.

Apesar de causar indignação e ser complicado de aceitar, o fato de existirem pessoas que agem contra a própria classe pode ser explicado de diversas formas. Há desde motivações ideológicas, do tipo “o povo unido jamais será vencido”, até questões puramente domésticas. Afinal, se você é fiscal e seu companheiro(a) é gestor(a), apoiar o pleito do Sinffaz pode significar uma oportunidade imperdível de aumentar a renda familiar, é ou não é? E são numerosos os exemplos de fatos históricos em que os olhos dos heróicos protagonistas não estavam voltados para a posteridade, mas sim para o fundo das suas despensas.