PONTO DE VISTA
Nš 20
25 de agosto
 
  

ENTRE “TAPAS” E FEITORES

Inocêncio Duarte de Oliveira Rocha
AFRE, Tapa da DFT BH
inocenciodaft@yahoo.com.br

Caros Amigos,

Advirto aos leitores que qualquer semelhança com a realidade atual é apenas mera coincidência.

Esta é uma história bem real (interpretada nos dias atuais, após 300 anos de acontecida) e pode ser encontrada quase toda no Arquivo Público Mineiro, nos livros de história e em teses sobre o período da Escravidão em Minas Gerais.

No Brasil Colônia, quando foi criada a Intendência de Minas (gênese da SEF, mas ainda não existiam secretarias de governo, lá pelos idos de 1704), as autoridades se depararam com um grande dilema: como fazer o controle da produção das minas e dos tributos?

Sim, porque os portugueses só queriam comer os frutos sem saber o que era plantar ou trabalhar, criavam taxas e comissões em próprio proveito e ficam espiando o trabalho de além mar (mas ainda não havia SUFIS/SUTRI/SRH...nem SEPLAG), na “boa vida”.

Tempos bons aqueles; para eles. Minas mandava ouro para Lisboa e Portugal usava escandalosamente o ouro para comprar de tudo, no mundo todo, dentro do processo de globalização iniciado com as Grandes Navegações, com a influência da Igreja e da famosa Escola de Navegação de Sagres,agora coordenada pelos lordes ingleses e holandeses.

Bem, a solução para o problema laboral na Intendência das Minas foi muito simples: importar escravos para fazer o serviço pesado e entregar tudo aos Contratadores que operavam por datas ou por localidade, fazendo uma espécie de “regime especial” com a Intendência (olha aí o danado).

E chegaram levas e levas de cativos de África e até de alguma província asiática, todos enfileirados para o trabalho (como nós fiscais).

Mas então surgiu outro problema para os contratadores: quem tomaria conta dos escravos para que fizessem o que a Coroa e a Intendência quisessem?

Mais uma vez a engenhosidade tupiniquim funcionaria, ou seja, seriam escolhidos dentre os próprios escravos três grupos de trabalho.

O primeiro grupo de escravos, aqueles que soubessem bem o idioma, fossem letrados, soubessem fazer contas, seriam os gerentes dos demais ou ocupariam posições estratégicas como tropeiros, gerentes de postos avançados de tributação, sentinelas, tomadores de conta das vendas e algumas posições semelhantes, como os mordomos das casas dos portugueses e dos ricos, estes então chamados “homens bons”.

Tais escravos eram os “ladinos” ou os espertos, ali, “coladinho dos homens”, ajuntando as benesses e apresentando ao patrão o produto alheio como se fosse seu, à troca de comissão de permanência ao lado do senhorio.

Não demorou muito para achar que falavam em nome de todos e que sabiam o que era bom para todos, afinal o ladino é muito esperto (ou não seria o contrário?). Bem, não importa.

A segunda equipe escrava era dos demais que tinham afeição ao trabalho e faziam o serviço pesado. Iam às minas e buracos desmoronantes e de lá arrancavam o ouro a lágrimas, suor e sangue, carregava-o sob risco de assaltos, prestavam conta em um relatório diário ao colega ladinosentinela e ficavam em um cômodo amontoados durante a noite, com uma expectativa de vida em torno dos próximos sete anos (dificilmente viviam mais que isso).

Estes ficaram conhecidos como os “tapas” ou os tapados, os idiotas, os bobos, que mal ganhavam a própria subsistência, para morrer ou se tornar meia mão de obra em poucos anos (cegos, aleijados, doentes, senis e caquéticos que para nada mais prestariam a não ser encher lingüiça).

Se um tapa fugia e era recapturado, era carimbado a ferro quente com F de fujão (hoje PF), mas que significava ser do Fisco ou da Fazenda.

Mas, infelizmente, existia ainda um terceiro grupo escravo. Ele não tinha qualquer capacidade laboral, seja como ladino ou como tapa(do), pois deles se diziam, eram toscos na inteligência e também sem iniciativa ou conhecimento suficiente para o trabalho na mina.

A este terceiro grupo, também escravo, cabia a tarefa dos açoites: eram os feitores, os capitães do mato, os carrascos, os que prendiam os tapas ao pelourinho ou troncos e metiam-lhes a chibata, os que guardavam a chave das senzalas improvisadas e dos ranchos, os que faziam as Ordens dos Senhores (O. S.) em buscar e levar os tapa(do)s ao local de serviços, alegres por colocar-lhes os grilhões nos pés, acorrentando-os enfileirados, fazendo-os assentarem-se para receber a mandioca assada de desjejum ou o angu de fubá com sebo de almoço (e não comiam da feijoada noturna no único caldeirão da senzala, pois ficava lá fora, vigiando, em uma fogueira solitária).

A única alegria que tinham: retalhar na taca e no trabuco os tapas em praça pública. E, nas suas insanidades, quanto mais batiam, mais satisfeitos ficavam.

Precisavam às vezes ser interrompidos pelos ladinos para que não se matasse o moribundo (algum ladino fazia uma proposta amenizadora, de vez em quando).

Os feitores, como delegados e superintendentes dos “homens”, se orgulhavam em andar pelas ruas da vila brandindo as esporas, exibindo suas tacas de couro d’anta, suas varas de marmelo, seus trabucos tilintantes cravejados de fivelas, suas bordunas ou cambitos de encorar tapa(do)s.

De vez em quando, davam umas três lambadas em um escolhido um pouco mais forte, simplesmente para dizer que ele era o fodão, o “cara”, e, depois, se o patrão passasse por ali, dava mais quatro, para inteirar sete (se benzendo no primeiro oratório por que passasse para aliviar a consciência).

Os tapas até que tentavam mascar uma folha do mato junto com o ouro em pó e depositar nos cabelos das morenas de tabuleiro que os visitavam nas minas, mas logo as morenas tinham que pagar um tributo ao carrasco se quisessem se aproximar tanto.

Certo dia, em 1711, não se sabe como, os tapas de toda a região mineradora, que costumavam esperar o carrasco, seu condutor de O.S , assentados, a começar da Vila do Carmo, resolveram esperá-lo de pé.

Foi um “deus nos acuda”, pois o carrasco não tinha mais motivo para brandir as fivelas do trabuco como sinal de que deveriam se pôr em marcha para a mina.

Desnorteados, os carrascos começaram a dar chicotadas a esmo, ora acertando, ora errando e os tapas começaram a entoar um zum zum zum (um canto gutural em dó maior, parecido com o mantra dos monges).

E isto deixava os carrascos mais nervosos ainda e seus braços já estavam doendo de tanto espancamento.

Chamaram os ladinos à praça e estes disseram: - falem o que querem e eu vou ver se consigo para vocês um ungüento para pôr nas feridas. Enquanto eu tento, parem com a zueira e voltem ao trabalho (acho que li isto num Ofício de então).

Os tapas responderam em coro: - durante a feijoada desta semana, conversamos e decidimos o que era melhor para nós: dê-nos liberdade.

Respondeu o ladino: - mas isto eu não posso dar; ademais, vocês não sabem o que é melhor para vocês. Eu sou a pessoa quem sabe tudo. Dêem-me carta branca e eu resolvo tudo.

Agora, voltem ao trabalho, enquanto eu tento conseguir o ungüento para não infeccionar as feridas, pois quem sofrerá serão vocês.

Então os ladinos conversaram com os patrões, que mandaram reduzir a quantia de sobras para minguar a feijoada, mas os tapas começaram a caçar e levar o fruto da caça para o panelão de feijoada. E a feijoada ganhou mais ingredientes.

E os patrões, orientados pela igreja e movidos pelo espírito cristão resolveram que era melhor proibir o uso de armas por escravos, aumentando-lhes a cota de trabalho (não seriam contadas as horas de deslocamentos, feriados, dias santos e ainda teriam que trabalhar mais 17 horas por mês).

Mesmo com estas medidas em vigor, os meninos tapinhas faziam bodoques, quebra-cabeças, estilingues e visgos para obter alguma carninha.

E os tapas continuaram conversando em volta da panela de feijoada, pensando como enchê-la.

Os anos se passaram com os tapas superando a todo o momento as inúmeras dificuldades criadas pelos contratadores e intendentes e repassadas pelos ladinos, mas nada mudava na escravatura.

Certo dia resolveram eleger um dos tapados para ser representante das reivindicações. Foi escolhido um tal Felício dos Santos. Tão logo se apresentou, foi pego para mártir, esquartejado e arrastado pelas rua por cavalos.

Disseram que ainda teve também um tal Tiradentes, muitos anos depois, que fora enforcado, mas eu não acredito, pois não iriam cometer duas vezes o mesmo erro.

Bem, resumindo, esta luta durou quase 200 anos, até que os escravos tapas ganharam a tão sonhada liberdade com a Lei Áurea e conquistaram o direito de sair da senzala e do rancho para morar numa favela.

Mas os ladinos continuaram lá, mamando nas tetas da Coroa e do Império, sem a consciência de seu lugar social ao se aposentar, sem refletir que todos estávamos passando de escravo a marginal.

E já se passaram mais de 100 anos que estão assim. Afinal, os homens de além mar continuam no comando de tudo nestes tempos de globalização total.

Quanto aos tapas, se hoje não mais os esquartejam ou enforcam; fazem Representação ao MP contra eles.

Então tapa(do)s, vamos esperar o carrasco assentados ou de pé?

Vai ou não vai ter feijoada e zueira?

Já não estão escutando o tilintar das esporas?