O
Dia do Enforcado
Carlos
Peixoto
AFRE – DF Ipatinga
chpeixoto@oi.com.br
Um
dia da forca, outro do enforcado. Para quem
não se recorda do nome, Roberto Brant
também já foi Secretário
de Fazenda do Estado de Minas Gerais. Mas quem
foi Tiradentes? Antes de morrer com a corda
TODA no pescoço em 21 de abril de 1792,
o que fazia aquele pobre homem?
Segundo o brasilianista Kenneth Maxwell, autor do livro A devassa da devassa,
Joaquim José da Silva Xavier foi um bode expiatório escolhido
pelas autoridades portuguesas para purgar o crime da nobreza: “Não
era influente, não tinha importantes ligações de família,
era um solteirão que passava a maior parte de sua vida à sombra
de protetores mais ricos e bem sucedidos”. (MAXWEL, pp. 215, 216).
Pelo menos no dia do enforcamento o povo estava presente: nas janelas enfeitadas,
nos pátios, nas ruas, nas arcadas, por toda parte, para ver um Tiradentes
abatido, esquálido, percorrer seus últimos passos entre a cadeia
pública e o Largo da Lampadosa, no centro do Rio de Janeiro. Joaquim
foi enforcado e esquartejado, sua casa foi arrasada e o local da construção
salgado para que ali não brotasse mais nada; seus bens foram confiscados,
seus filhos e netos declarados infames.
Em outras cordas, muitos Joaquins, Josés e Antônios encontraram
destino semelhante ao do alferes. A ironia do enforcamento do Tiradentes fica
por conta do selo de “infames”, sob o qual as entidades sindicais,
professores e estudantes, cidadãos de Minas Gerais e do Brasil, viram-se
impedidos de acessar a Praça Tiradentes, em Ouro Preto, mantidos a distância
pelo cordão de isolamento, cercados por fortes barreiras policiais no
dia 21 de abril de 2009.
Naquele dia, o Governo de Minas mandou enfeitar a Praça Tiradentes,
em Ouro Preto, para que o Chefe do Executivo pudesse desfilar. O povo, repentinamente
desprovido de salvo conduto, só teve acesso ao “espaço
público” através do elevador de serviço: - empurrados
para os becos e vielas da cidade histórica de Vila Rica, os cidadãos
não puderam participar, sequer como coadjuvantes, da representação
comemorativa do aniversário de enforcamento do herói Tiradentes.
O próprio Tiradentes teria sido excluído da cerimônia,
se a sua execução estivesse marcada para o dia 21 de abril de
2009. Afinal, Tiradentes era um homem do povo. Na certa o Chefe do Cerimonial
contrataria um ator da Rede Globo de Televisão, bonito, sarado e bem
alimentado, enquanto a Bibi Ferreira entoaria a Marselhesa. É difícil
não se emocionar. No teatro principal o dono da festa homenagearia a
si próprio: - a mesma elite que enforcou o alferes. E o povo bateria
palmas pedindo “Aécio para Presidente!”.
Como dizia o Gatopardo, “é preciso que as coisas mudem para permanecer
como estão”. A história traça uma curva em espiral,
sobe, desce e retorna sobre si mesma, negando e afirmando em eterna contradição:
- duzentos e cinquenta anos depois, Roberto Brant e demais herdeiros do clã Diamantinense
dos Caldeira Brant aguardam a oportunidade de receber uma bolada de US$ 390
milhões, confiscados da família pela COROA PORTUGUESA,
em 1750, no tempo do Brasil Colônia. A mesma Coroa que mandou enforcar
o Tiradentes.
Nestes dias bicudos, o pobre, feio e barbudo Joaquim José da Silva Xavier,
sem uma pataca no bolso, caso resolvesse passear pelas ruas da cidade de Ouro
Preto em sua data máxima, ele seria revistado pela Polícia e
fichado como desocupado ou cachaceiro: - um louco da derrama.
O corpo do Tiradentes foi descido da forca, esquartejado e lançado ao
opróbrio. Sua efígie, desde então, tem sido utilizada
para outras liberdades. Liberdade, esta palavra tão desbotada que não
mais se escreve com sangue, mas com extrato de tomate oferecido pelo anunciante
do telejornal das vinte horas.
Quem seriam os inconfidentes dos dias de hoje? Em que salas, tavernas, becos
escuros, e por que causas eles se reuniriam para conspirar contra a tirania?
Bloqueados todos os sítios, algemados aos pés das mesas, por
meio de que códigos secretos se comunicam os homens e as mulheres dispostos
a arriscar o pescoço em nome de ideais tão fora de moda, como
liberdade, dignidade, respeito, isonomia?
Será que o máximo representante dos valores “sonhados” pelo
Tiradentes repousa nas mãos daquele que entrega a Comenda da Inconfidência
no dia 21 de abril? Seria este homem, por força do destino, ou por nascimento,
o Governador de Minas Gerais, com o seu terno lustrado, medalha estalando no
peito, o guardião do espírito dos inconfidentes? E o povo, onde é que
o povo entra nesta história?
É
preciso atualizar o Tiradentes, resgatá-lo das mãos dos poderosos
e devolvê-lo ao seio do povo, de onde ele veio.
Diz o ditado que em casa de enforcado não se fala em corda. O
inconfidente de hoje talvez ficasse bem representado na pele do desempregado,
demitido das minas que abastecem as siderúrgicas, ou do pequeno empresário,
enforcado em uma árvore da praça pública como forma
de protesto contra a carga tributária, depois de ter sido feito de
bobo pela engenharia complexa do SIMPLES, engolido pelo regime da Substituição
Tributária; ou ainda o Tiradentes não seria um cidadão
esganado por dívidas, com a língua de fora, o limite de crédito
estourado em face dos aviltantes juros bancários? – ao contrário
do grande empresário, que ao primeiro suspiro de falta de ar procura
logo o refresco do Tesouro Público, onde é recebido por mocinhas
de minissaia, paparicado com toda sorte de subsídios e outros decotes
tributários impublicáveis.
Ou, no tempo em que vivemos, quem sabe, se o Joaquim José da Silva Xavier
exercesse o ofício de dentista, talvez o nosso Tiradentes não
fizesse muita questão de passar recibo de seus serviços odontológicos,
revoltado com o Imposto de Renda, que limita a uma ninharia o abatimento de
gastos com educação.
Em tese, se o nosso Sistema Fiscal é injusto, e penaliza mais o pequeno
contribuinte do que o rico, nós, Auditores Fiscais, fazemos o papel
do braço que guia a mão do carrasco no pescoço dos cidadãos.
Eu disse em tese, não pretendo aqui debater doutrinas das aparências
tributárias. Mas não é nada salutar para a evolução
do espírito humano, para nossa consciência psicológica,
neste espinhoso ofício de tributar, fiscalizar e arrecadar, passar para
a História como os algozes da política de enforcamento fiscal
deste Governo. Odiados pela sociedade. Odiados pelos Mandatários do
Executivo. Os inimigos dos donos de Minas. Serão estas as infâmias
que teremos que carregar?
Ipatinga, 24 de abril de 2009, passados duzentos e dezessete
anos do enforcamento do Tiradentes.