PONTO DE VISTA
Nš 11
28 de abril de 2009
 
  
O Dia do Enforcado

Carlos Peixoto
AFRE – DF Ipatinga
chpeixoto@oi.com.br

Um dia da forca, outro do enforcado. Para quem não se recorda do nome, Roberto Brant também já foi Secretário de Fazenda do Estado de Minas Gerais. Mas quem foi Tiradentes? Antes de morrer com a corda TODA no pescoço em 21 de abril de 1792, o que fazia aquele pobre homem?

Segundo o brasilianista Kenneth Maxwell, autor do livro A devassa da devassa, Joaquim José da Silva Xavier foi um bode expiatório escolhido pelas autoridades portuguesas para purgar o crime da nobreza: “Não era influente, não tinha importantes ligações de família, era um solteirão que passava a maior parte de sua vida à sombra de protetores mais ricos e bem sucedidos”. (MAXWEL, pp. 215, 216).

Pelo menos no dia do enforcamento o povo estava presente: nas janelas enfeitadas, nos pátios, nas ruas, nas arcadas, por toda parte, para ver um Tiradentes abatido, esquálido, percorrer seus últimos passos entre a cadeia pública e o Largo da Lampadosa, no centro do Rio de Janeiro. Joaquim foi enforcado e esquartejado, sua casa foi arrasada e o local da construção salgado para que ali não brotasse mais nada; seus bens foram confiscados, seus filhos e netos declarados infames.

Em outras cordas, muitos Joaquins, Josés e Antônios encontraram destino semelhante ao do alferes. A ironia do enforcamento do Tiradentes fica por conta do selo de “infames”, sob o qual as entidades sindicais, professores e estudantes, cidadãos de Minas Gerais e do Brasil, viram-se impedidos de acessar a Praça Tiradentes, em Ouro Preto, mantidos a distância pelo cordão de isolamento, cercados por fortes barreiras policiais no dia 21 de abril de 2009.

Naquele dia, o Governo de Minas mandou enfeitar a Praça Tiradentes, em Ouro Preto, para que o Chefe do Executivo pudesse desfilar. O povo, repentinamente desprovido de salvo conduto, só teve acesso ao “espaço público” através do elevador de serviço: - empurrados para os becos e vielas da cidade histórica de Vila Rica, os cidadãos não puderam participar, sequer como coadjuvantes, da representação comemorativa do aniversário de enforcamento do herói Tiradentes.

O próprio Tiradentes teria sido excluído da cerimônia, se a sua execução estivesse marcada para o dia 21 de abril de 2009. Afinal, Tiradentes era um homem do povo. Na certa o Chefe do Cerimonial contrataria um ator da Rede Globo de Televisão, bonito, sarado e bem alimentado, enquanto a Bibi Ferreira entoaria a Marselhesa. É difícil não se emocionar. No teatro principal o dono da festa homenagearia a si próprio: - a mesma elite que enforcou o alferes. E o povo bateria palmas pedindo “Aécio para Presidente!”.

Como dizia o Gatopardo, “é preciso que as coisas mudem para permanecer como estão”. A história traça uma curva em espiral, sobe, desce e retorna sobre si mesma, negando e afirmando em eterna contradição: - duzentos e cinquenta anos depois, Roberto Brant e demais herdeiros do clã Diamantinense dos Caldeira Brant aguardam a oportunidade de receber uma bolada de US$ 390 milhões, confiscados da família pela COROA PORTUGUESA, em 1750, no tempo do Brasil Colônia. A mesma Coroa que mandou enforcar o Tiradentes.

Nestes dias bicudos, o pobre, feio e barbudo Joaquim José da Silva Xavier, sem uma pataca no bolso, caso resolvesse passear pelas ruas da cidade de Ouro Preto em sua data máxima, ele seria revistado pela Polícia e fichado como desocupado ou cachaceiro: - um louco da derrama.

O corpo do Tiradentes foi descido da forca, esquartejado e lançado ao opróbrio. Sua efígie, desde então, tem sido utilizada para outras liberdades. Liberdade, esta palavra tão desbotada que não mais se escreve com sangue, mas com extrato de tomate oferecido pelo anunciante do telejornal das vinte horas.

Quem seriam os inconfidentes dos dias de hoje? Em que salas, tavernas, becos escuros, e por que causas eles se reuniriam para conspirar contra a tirania? Bloqueados todos os sítios, algemados aos pés das mesas, por meio de que códigos secretos se comunicam os homens e as mulheres dispostos a arriscar o pescoço em nome de ideais tão fora de moda, como liberdade, dignidade, respeito, isonomia?

Será que o máximo representante dos valores “sonhados” pelo Tiradentes repousa nas mãos daquele que entrega a Comenda da Inconfidência no dia 21 de abril? Seria este homem, por força do destino, ou por nascimento, o Governador de Minas Gerais, com o seu terno lustrado, medalha estalando no peito, o guardião do espírito dos inconfidentes? E o povo, onde é que o povo entra nesta história?

É preciso atualizar o Tiradentes, resgatá-lo das mãos dos poderosos e devolvê-lo ao seio do povo, de onde ele veio.

Diz o ditado que em casa de enforcado não se fala em corda. O inconfidente de hoje talvez ficasse bem representado na pele do desempregado, demitido das minas que abastecem as siderúrgicas, ou do pequeno empresário, enforcado em uma árvore da praça pública como forma de protesto contra a carga tributária, depois de ter sido feito de bobo pela engenharia complexa do SIMPLES, engolido pelo regime da Substituição Tributária; ou ainda o Tiradentes não seria um cidadão esganado por dívidas, com a língua de fora, o limite de crédito estourado em face dos aviltantes juros bancários? – ao contrário do grande empresário, que ao primeiro suspiro de falta de ar procura logo o refresco do Tesouro Público, onde é recebido por mocinhas de minissaia, paparicado com toda sorte de subsídios e outros decotes tributários impublicáveis.

Ou, no tempo em que vivemos, quem sabe, se o Joaquim José da Silva Xavier exercesse o ofício de dentista, talvez o nosso Tiradentes não fizesse muita questão de passar recibo de seus serviços odontológicos, revoltado com o Imposto de Renda, que limita a uma ninharia o abatimento de gastos com educação.

Em tese, se o nosso Sistema Fiscal é injusto, e penaliza mais o pequeno contribuinte do que o rico, nós, Auditores Fiscais, fazemos o papel do braço que guia a mão do carrasco no pescoço dos cidadãos. Eu disse em tese, não pretendo aqui debater doutrinas das aparências tributárias. Mas não é nada salutar para a evolução do espírito humano, para nossa consciência psicológica, neste espinhoso ofício de tributar, fiscalizar e arrecadar, passar para a História como os algozes da política de enforcamento fiscal deste Governo. Odiados pela sociedade. Odiados pelos Mandatários do Executivo. Os inimigos dos donos de Minas. Serão estas as infâmias que teremos que carregar?

Ipatinga, 24 de abril de 2009, passados duzentos e dezessete anos do enforcamento do Tiradentes
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