Site Sintaf/RS, 10 de novembro de 2006
PRESIDENTE DO SINDIFISCO-MG CONTA COMO FOI O "CHOQUE DE GESTÃO" EM MINAS
Planejamento estratégico, objetivos, metas, Programas de Qualidade
e Produtividade, desburocratização e reforma do Estado. Os conceitos,
usuais no setor privado, invadiram a área pública brasileira
há pelo menos duas décadas, trazidos pelas mãos de grandes
empresários e pelo ex-ministro Luiz Carlos Bresser Pereira, um dos maiores
defensores das metas e resultados na administração pública
do País. Durante os últimos 20 anos essas idéias disputaram
espaço na agenda pública e no imaginário do cidadão
brasileiro, sendo renovadas de tempos em tempos por lideranças que "modernizar" o
discurso do Estado mínimo e da eficiência empresarial frente a
fragilidade e burocracia do serviço público.
Maquiados, esses conceitos são substituídos por novos termos.
Governabilidade, reforma gerencial, superávit primário e, a grande
vedete do momento, o "choque de gestão", são a embalagem
do momento Nesse universo, duas instituições se destacam nacionalmente:
o Instituto Nacional de Desenvolvimento Gerencial (INDG), liderado pelo professor
Vicente Falconi Campos, e o Movimento Brasil Competitivo, do empresário
Jorge Gerdau Johannpeter. Ambas as instituições servem ao desenvolvimento,
estímulo e divulgação das visões empresariais a
serem aplicadas na reforma do Estado brasileiro.
Em Minas Gerais, o sucesso desta empreitada foi tão grande que o governador
Aécio Neves se reelegeu com mais de 70% dos votos. Para analisar o que
aconteceu em Minas, o Sintaf/RS trouxe a Porto Alegre o presidente do SINDIFISCO-MG,
Lindolfo de Castro, que apresentou ao Fisco gaúcho como foi feito o
choque de gestão no seu Estado.
"AJUSTE FEITO EM CIMA DA FOLHA DOS SERVIDORES PÚBLICOS"
O presidente do SINDIFISCO-MG, Lindolfo de Castro, foi muito claro, ontem (09/11),
durante depoimento aos auditores-fiscais gaúchos, quando apontou os
principais problemas enfrentados pelos colegas do Fisco mineiro no governo
Aécio Neves, onde o INDG atuou com grande desenvoltura: "A filosofia
implantada foi a de trazer da iniciativa privada os controles, as metas e objetivos
para entrar nas secretarias do Estado mineiro. Quem perdeu, principalmente,
foram os servidores públicos, pois todo o déficit foi tirado
em cima dos salários e dos direitos coletivos", denunciou.
Segundo ele, o choque de gestão - a menina dos olhos do governo Aécio
Neves - é totalmente baseado em avaliação de desempenho."É uma luta de concepção de modelo de Estado, de
ajuste do déficit feito em cima da folha de pagamento. O choque de gestão
nada mais é do que isso", declarou.
A primeira grande atitude do governo Aécio Neves ao ingressar na administração
pública, contou o presidente do SINDIFISCO-MG, foi congelar todo o aumento
de despesa (feito através de decretos de contingenciamento e que atingiu,
inclusive, um decreto de produtividade da categoria). Várias medidas
foram enviadas à Assembléia Legislativa, incluindo a extinção
de secretarias, a diminuição do quadro de Cargos em Comissão
e a redução do salário do governador (de R$ 19 mil para
pouco mais de R$ 10 mil).
"Foi adotado um conjunto de medidas, chamado de 'choque de gestão',
que atingiu os servidores, incluindo também uma profunda alteração
na Secretaria de Fazenda de Minas, onde estavam localizados o setor de Pagamento,
Auditoria e o Tesouro". Lindolfo conta que no governo anterior já havia
sido retirado o setor de Pagamento da SEF/MG e, agora no governo Aécio,
a Auditoria, ambos para a Secretaria de Planejamento e Gestão, o que
transformou-a em Supersecretaria, onde foram gestadas as
novas medidas. Na
estrutura
da Fazenda,
Aécio
criou também uma Subsecretaria da Receita.
O grupo TARF também foi atingido. Com a filosofia de que "fiscal é para
fiscalizar", o governo do Estado começou a tirar a fiscalização
do grupo Tributação e Arrecadação, mantendo-a separada.
No início de 2003, o governo Aécio, através de Lei Delegada,
restringiu o número de repartições com fiscais (AFREs) lotados para 25 Delegacias
Fiscais; as outras unidades (Administrações Fazendárias) ficaram somente
com o controle administrativo, neste caso, chefiado por um gestor (GEFAZ).
Para
Lindolfo, essa foi a principal perda da fiscalização, pois
foi atingido o espaço e a atribuição do fiscal. "A
mudança gerou um clima terrível. Pois apesar de estar na lei
que eles não têm competência para lançar crédito
tributário, o que ocorreu é que eles acabaram fazendo (conferência
de notas, livro fiscal, pedindo ao contribuinte para fazer denúncia
espontânea etc). Ou seja, na prática, acabaram exercendo
a atividade fiscal", revelou o presidente do sindicato mineiro.
Reforma administrativa
Lindolfo conta que Aécio enviou cerca de 15 mensagens para a Assembléia
Legislativa, sendo duas emendas constitucionais, duas leis complementares
e 11 ou 12 projetos de leis. Nesse material havia, segundo consideração
do presidente do Sindifisco-MG, a maior perda de direitos dos servidores
públicos
no País, maior até mesmo que a Reforma da Previdência. "A
idéia mais clara é a seguinte: precisamos congelar o crescimento
vegetativo da Folha de Pagamento. O governo decidiu congelar a folha e pronto".
Os adicionais por tempo de serviço foram mexidos, sendo retirado o seu
caráter objetivo, transformando-o em critério subjetivo. Ele
acabou com o qüinqüênio para os futuros servidores e
criou uma premiação por avaliação no seu lugar.
Reduziu também
o qüinqüênio de quem já o tinha conquistado,
colocando-o dentro do vencimento básico, que ficou congelado. E deixou
opcional a troca dos qüinqüênios pela premiação.
Criou também
um sistema de prêmios, com base em avaliação de desempenho
e metas financeiras, além de estabelecer um subteto salarial.
O governador decidiu simplesmente não pagar alguns direitos,
como promoções
e progressões na carreira antiga. Com isso, a despesa líquida
de pessoal ficou congelada durante três anos. "Em resumo: fez
o ´choque
de gestão` em cima do funcionalismo. A reforma foi calcada
em cima da gestão
de servidores, com foco em avaliação, resultado e premiação",
aponta Lindolfo.
Avaliação por desempenho
No saco de maldades, revela, o destaque era a avaliação de desempenho.
Nessa avaliação, explicou, há tanto o caráter
de premiação quanto o caráter punitivo. O caráter
punitivo veio pela perda de remuneração e pela quebra de estabilidade. "Aécio
regulamentou um artigo que afirma ser lícito demitir por insuficiência
de desempenho. Com duas avaliações insuficientes você pode
demitir um fiscal".
A avaliação de desempenho foi a grande luta do sindicato. Na
visão de Lindolfo, o objetivo era controlar o fiscal e não
o contribuinte. O prêmio instituído por Aécio foi só para
o pessoal em atividade, excluindo os aposentados, além de não incidir
sobre as férias e nem mesmo na licença de saúde.
Para receber 100% do prêmio-desempenho, não bastava haver incremento
de receita, era preciso ter avaliação acima de 95%. Na
Secretaria de Fazenda, o prêmio era pago com incremento de receita
e, nos outros órgãos,
com redução de despesa.
Um dos problemas do Fisco Mineiro, de acordo com o presidente do Sindifisco-MG,
foi a categoria ser muito segmentada: servidores com
com qüinqüênio,
outros sem; com paridade e sem; além dos novos fiscais. "Enfim,
o prêmio-desempenho
tinha um caráter divisionista e excludente. Chegou ao absurdo da
licença-maternidade ser excluída do prêmio".
A malandragem da implantação do prêmio foi dar, inicialmente,
um valor mais alto, para quebrar a política remuneratória e,
depois, não declinar gradativamente. "No trimestre passado foi
zero e neste trimestre será de 0,4% do salário". A novidade,
agora, é a Lei de Política Remuneratória para o funcionalismo
mineiro, que será pioneira no Brasil.