Folha de São Paulo, 13 de agosto de 2006 - Primeiro Caderno - Seção- Brasil - Pág. A18 e A19
ELEIÇÕES 2006 / ESTADOS
Aécio maquiou gastos da saúde
em Minas
Para cumprir mínimo constitucional, governador incluiu como despesas
da área combate à febre aftosa e até construção
de praça
Artifício foi utilizado em período em que tucano criou programas de "déficit zero" e "choque de gestão", suas maiores bandeiras eleitorais
FREDERICO VASCONCELOS
ENVIADO ESPECIAL A BELO HORIZONTE
O governo Aécio Neves (PSDB), de Minas Gerais, fez maquiagem contábil
nas prestações de contas de 2003 e 2004, para esconder a não-aplicação
de recursos
em serviços de saúde nos percentuais determinados
pela Constituição.
O artifício ocorreu no período em que Aécio lançou
os programas do "déficit zero" e do "choque de gestão",
carros-chefes da campanha para a reeleição em outubro. Ou para
uma eventual disputa pela Presidência da República em 2010.
Minas Gerais registrava no início de 2004 um déficit acumulado
de R$ 1 bilhão nas políticas públicas de saúde,
segundo o Ministério Público Federal. A inadimplência do
Estado com a saúde vinha desde 2000.
O governo mineiro contabilizou como gastos em serviços de saúde
para a população despesas com a erradicação da
febre aftosa e outras doenças de animais. Incluiu exposições
agropecuárias; precatórios; saneamento (cujos serviços
são tarifados); construção de praças e até a
locação de serviços de limpeza para o hotel de Araxá.
" O Poder Executivo simplesmente obedeceu à resolução
do Tribunal de Contas do Estado que determina o que deve ser considerado como
despesa na área de saúde", diz Fuad Noman, secretário
da Fazenda.
A mágica contábil compromete a austeridade e transparência
prometidas no "choque de gestão", a reforma que introduziu
processos de metas e avaliações no serviço público.
Esse programa foi patrocinado por grandes empresas privadas. Gerdau, Votorantim,
Vale do Rio Doce e grupo Moreira Salles dividiram os R$ 4 milhões pagos
ao Instituto de Desenvolvimento Gerencial, entidade privada que coordenou o
processo de aplicação dessa metodologia.
Parte dos recursos veio de uma fundação que tem sede no paraíso
fiscal de Delaware, nos EUA.
" O governo Aécio Neves implantou o "choque de gestão" para
domar a mais grave crise financeira e fiscal da história do Estado",
afirma o ex-secretário de Planejamento e Gestão, Antônio
Augusto Anastasia.
" O regime de absoluta austeridade permitiu que, de um déficit público
orçamentário de R$ 2,4 bilhões em 2003, o Estado alcançasse
o déficit zero em 2004 e ficasse superavitário em 2005. Minas Gerais
recuperou o aval da União, o crédito internacional e a capacidade
de investimentos", diz Anastasia.
A divulgação dos êxitos com o ajuste fiscal e reformas
na máquina administrativa inibe as críticas ao governo Aécio
e ofusca estudos que questionam o "déficit zero". Líder
com mais de 70% nas pesquisas eleitorais, Aécio lançou Anastasia,
o "pai" do "choque de gestão", candidato a vice-governador.
Hábil articulador político, Aécio formou ampla base parlamentar,
não é hostilizado pela oposição nem sofre maiores
questionamentos da imprensa local. O Tribunal de Contas do Estado e o Ministério
Público estadual, por sua vez, são tratados numa cartilha do
governo como "parceiros".
Ação civil pública
Em 2004, o Ministério Público Federal moveu ação
civil pública, pedindo que a União condicionasse a entrega de
R$ 376,2 milhões a Minas à aplicação em ações
e serviços públicos de saúde. Esses valores correspondem
ao que o governo teria que destinar à saúde, para obedecer ao
mínimo imposto pela Constituição (12% das receitas vinculadas
em 2004).
" A verdade crua é que Minas Gerais tornou-se um contumaz sonegador
de recursos à saúde, fato, aliás, reconhecido pelo próprio
Tribunal de Contas do Estado", sustenta o MPF nos autos da ação
civil pública.
Ao aprovar as contas de Aécio de 2003, o conselheiro do TCE Sylo Costa
citou outros gastos atribuídos indevidamente à saúde pública,
como um "programa de melhoramento urbanístico e aquisição
de equipamento para fabricação de bloquete e meio-fio". "Considero
isso um engodo", afirmou. Costa ressalvou que o artifício contábil
não ocorre apenas em Minas Gerais.
Como o equilíbrio das contas é apoiado na maior arrecadação
e no corte dos gastos, teme-se que essa economia seja obtida com a redução
dos investimentos em outras áreas. "Uma das secretarias mais afetadas
por essa prioridade de ajuste das finanças públicas e que mais
se subordinou à orientação da secretaria de Gestão
foi a de Educação, que sofreu brutal corte no orçamento",
diz Rudá Ricci, sociólogo da PUC-MG.
Empresas
pagaram instituto para desenvolver reforma
DO ENVIADO ESPECIAL
O "choque
de gestão", a reforma administrativa do Estado, foi patrocinado
por grandes empresas contribuintes da campanha de Aécio Neves
com interesses em Minas Gerais: Gerdau, Votorantim, Vale e Companhia
Brasileira de Metalurgia e Mineração (grupo Moreira
Salles). Elas declararam contribuições ao candidato
tucano no total de R$ 3 milhões nas eleições
de 2002. |
Dívida mineira até aumentou, dizem críticos
DO ENVIADO A BELO HORIZONTE
Em novembro de
2004, a SMPB, agência de Marcos Valério de Souza,
que atendia ao governo de Minas, fez ampla campanha publicitária, para
comemorar e divulgar o "déficit zero". O discurso oficial
foi acolhido sem contestação pela imprensa.
O governo concentrou a publicidade no equilíbrio fiscal. Ou seja, aumentou
as receitas sem elevar a carga tributária e conteve as despesas. Para
os críticos, a campanha teria passado para o público a idéia
de que, em apenas dois anos, a gestão Aécio Neves teria eliminado
todas as dívidas, o que não ocorreu.
O balanço orçamentário, usado na propaganda, destaca que
o governo Aécio obteve superávit de R$ 90,7 milhões em
2004. Na publicidade, não foi ressalvado que, no final de 2004, havia
insuficiência de caixa de R$ 3,7 bilhões (R$ 2,9 bilhões
em 2005), nem menção à dívida pública (que
evoluiu de R$ 32,9 bilhões em 2002 para R$ 39,7 bilhões em 2005).
Fabrício Augusto de Oliveira, secretário adjunto da Fazenda do
governo Itamar Franco (MG), diz que "continuam deficitárias as
contas do Estado" e "irresolvido o problema de sua dívida,
a qual tem se mantido numa trajetória de crescimento".
"
Não passa de enganosa operação de marketing o déficit
zero anunciado", sustentou, em artigo publicado na época, em jornal
alternativo do Rio, o jornalista mineiro José Maria Rabêlo, vinculado
ao PDT. Rabêlo apresentava um quadro diferente: "O Estado deve mais
de R$ 60 bilhões, cerca de duas vezes e meia o total de sua receita
anual". Segundo seus cálculos, eram R$ 40 bilhões da dívida
com a União, R$ 13 bilhões com precatórios, R$ 8 bilhões
de restos a pagar e R$ 2 bilhões com o IPSEMG, responsável pela
assistência médica ao funcionalismo.
A
falta de um debate amplo nos meios de comunicação sobre os
acertos e erros da administração Aécio Neves foi reclamação
comum de vários entrevistados pela Folha, em Belo Horizonte, que pediram
para não ter seus nomes citados.
A alegação de que o governo do Estado atua para cercear a liberdade
de imprensa foi tema de campanha do Sindicato dos Jornalistas de Minas Gerais,
em 2004. O afastamento de jornalistas por suposta interferência do Palácio
da Liberdade virou tema de um trabalho acadêmico defendido em banca
na universidade.
"
A imprensa mineira é totalmente favorável ao governador Aécio
Neves. Nunca li ou ouvi nenhuma crítica, nenhuma matéria investigativa,
nenhuma denúncia na área da saúde, fazenda, arrecadação
ou educação", diz o presidente do sindicato mineiro dos
jornalistas, Aloísio Lopes. "O governador está blindado
na mídia. Ninguém fala mal. Tenho recebido de repórteres
a informação de que há orientação para não
se questionar o governo."
O jornalista Josemar Gimenez, diretor de redação de "O Estado
de Minas", contesta: "Não existe nenhum esquema de blindagem
com relação ao governo Aécio Neves. O jornal não
tem o menor compromisso com este ou aquele governo. Tem ganho prêmios
importantes na linha de investigação, trabalha com isenção.
Isso [a alegação de blindagem] faz parte do jogo político",
afirma Gimenez.
Em 2004, o sindicato pediu ao Ministério Público Federal a apuração
de suposta interferência do governo estadual em veículos de comunicação,
atribuindo o afastamento de alguns jornalistas a pedido da jornalista Andrea
Neves, irmã do governador e então coordenadora do Grupo Técnico
de Comunicação do Governo.
O jornal "Pauta", do sindicato, divulgou em 2004 desmentido da jornalista
Andrea Neves: "O governo de Minas jamais pediu a cabeça de qualquer
jornalista e nunca interferiu na linha editorial dos veículos de comunicação
social do Estado".
Em entrevista ao sindicato, ela confirmou haver feito reclamação à direção
da TV Globo, no Rio, pelo não-cumprimento de acordo para que o governador
participasse de uma entrevista, sem perguntas pré-gravadas. Durante
o programa, foram feitas perguntas gravadas com deputados da oposição
e lideranças dos servidores públicos. O jornalista responsável
pelo programa foi transferido de Minas Gerais, mas, segundo ela disse ao sindicato,
foi decisão interna da empresa.
Esse episódio e as demissões de outros jornalistas, atribuídas
a críticas que fizeram ao governo Aécio, foram tema do vídeo
documentário "Liberdade, essa palavra", projeto final do curso
de jornalismo da UFMG defendido por Marcelo Baêta e apresentado em junho
no Fórum Mineiro de Professores de Jornalismo. (FV
Empresário defende ajuda ao Estado dizendo que, "quando aparece político sério como Aécio Neves, todos querem ajudar"
DO ENVIADO A BELO HORIZONTE
"O governo Aécio Neves teve suas contas aprovadas, sem nenhuma única
ressalva pelo Tribunal de Contas do Estado, em todos os exercícios financeiros
de sua gestão, inclusive quanto às despesas executadas na área
de saúde", afirma Antônio Augusto Anastasia, ex-secretário
de Planejamento e Gestão.
Ele contesta que tenha havido maquiagem no registro das despesas com saúde: "A
questão sanitária envolve a saúde pública. Não
há regulamentação federal sobre a questão, o que
transforma a instrução do TCE em norma maior vigente", diz
Anastasia. "Não houve sequer concessão de liminar",
diz, sobre a ação oferecida pelo Ministério Público
Federal.
Para o secretário da Fazenda, Fuad Noman, "é absolutamente
improcedente a informação de que teria havido redução
nos investimentos nas áreas sociais". Segundo ele, em 2002 o Estado
investiu R$ 64,4 milhões em saúde, contra R$ 271,1 milhões
em 2005, um crescimento de 320%. Em educação, no mesmo período,
o crescimento foi de 229%. Em segurança pública foi de 720%.
""
O déficit zero'" não foi uma campanha publicitária,
e sim ação de governo. Com o anúncio, indicamos que foi
interrompido um ciclo de muitos anos de déficits orçamentários
acumulados, importante passo para saneamento das contas públicas",
diz Noman.
"
Minas paga todas as suas contas e, embora a dívida com a União
seja alta e cresça sozinha com os juros e a correção pelo
IGP-M, é possível pagar as parcelas sem comprometer o dia-a-dia
da administração", diz.
Sobre as críticas do economista Fabrício Oliveira, diz que a
Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2003 a 2006 apresentou as
estimativas de resultados primário e nominal, "mostrando, de maneira
inequívoca, que o governo de Minas jamais pretendeu enganar sua população". "Não
houve nenhuma tentativa de engodo, como afirmado no inconsistente e incompleto
trabalho", diz o secretário da Fazenda.
"
Resultados primários, operacionais e nominais são apenas cálculos
para exame de tendências futuras. Para a definição de políticas
de Estado, o relevante é o valor a ser arrecadado e as despesas obrigatórias."
Empresas
Anastasia diz que o interesse de grandes empresas ao patrocinar o "choque
de gestão" é "contribuir para a construção
de um novo modelo de gestão pública". "Elas contribuíram
para campanhas de políticos de diferentes partidos e Estados, o que é permitido
por lei", diz.
Noman diz que o fato de Carlos Alberto Sicupira, da Fundação
Brava, e Vicente Falconi, do IDG, serem conselheiros da Ambev "não é motivo
para qualquer constrangimento". "Pelo contrário, o professor
Falconi é considerado o maior especialista brasileiro em gestão.
E não se registra qualquer interface funcional entre a empresa [Ambev],
o instituto e o Estado", afirma o secretário.
"
Jamais houve repasse de qualquer informação sigilosa a terceiros",
diz o secretário da Fazenda. "O Ministério Público
do Estado constatou esta posição e, por isso, arquivou a representação
do Sindifisco".
Vicente Falconi diz que "o interesse dos empresários é o
mesmo de todos nós: melhorar a governança do país para
que possamos trabalhar, produzir riquezas". Segundo ele, "quando
aparece um político como o Aécio Neves, querendo fazer um trabalho
sério para melhorar a gestão do Estado, todos querem participar
e ajudar".
Diz que "o operador dessa fundação [Sicupira] é um
empresário brasileiro com atividades muito grandes aqui e no exterior,
um patriota, quis participar, continua querendo".
A fundação explica ter sede em Delaware "inspirada no modelo
de "endowement", usado em fundações e universidades
norte-americanas e não permitido pela legislação brasileira". "Os
recursos são investidos e somente os rendimentos são usados nas
operações. A fundação se perpetua independentemente
dos fundadores".
Sobre a suspeita levantada pelo Sindifisco, de quebra de sigilo fiscal,
Falconi diz que "não estamos interessados em nenhuma relevância de
nenhuma marca de nenhum produto".
Outros parceiros
A Fundação Brava informa, por sua assessoria, que, "além
do governo de Minas Gerais, mantém o mesmo projeto, com os mesmos consultores
e os mesmos parceiros da iniciativa privada, na prefeitura de Porto Alegre,
no governo do Rio Grande do Sul, no governo do Ceará (com início
na gestão de Tasso Jereissati) e na prefeitura de São Paulo (com
início na gestão de José Serra)".
Sobre as alegações de cerceamento à imprensa, a assessoria
de Aécio informa que "o governo do Estado nunca fez qualquer tipo
de ingerência nas decisões de qualquer empresa do setor privado".
Atribui a volta do tema "às oposições na área
política e sindical, em especial agora, que se instalou o processo eleitoral". "É um
argumento completamente falso, sem base na realidade e desrespeitoso aos jornalistas
de Minas." (FV)