O
patrulhamento da mídia
Lindolfo
Fernandes de Castro
O
principal papel da imprensa é o
de informar a sociedade com imparcialidade,
ouvindo todas as partes envolvidas. O jornalismo
não deve ser instrumento do poder
econômico para mascarar a realidade
e desinformar a população,
evitando que ela reaja diante dos abusos.
O único compromisso da imprensa
deve ser com a verdade. Mais do que proporcionar
o acesso à informação
ela deve, necessariamente, garantir que
essa informação corresponda à realidade
dos fatos, condição fundamental
para que qualquer situação
indesejável possa ser alterada.
Nesse
contexto, gostaríamos de propor
uma reflexão sobre como a mídia
tem se rendido ao capital e se desviado
do que deveria ser seu único compromisso,
ao reproduzir um conceito criado pelas
elites - o de responsabilidade fiscal.
A ética da responsabilidade fiscal,
logo transformada em Lei (LRF), nada mais é do
que um mecanismo de transferência
de renda do setor público (serviços
e servidores) para o capital financeiro.
Após o Plano Real (1995), a renda
do trabalhador foi transferida em mais
de 10% para o capital, com o conseqüente
empobrecimento da classe média,
que tinha uma participação
de 20% na renda nacional, atualmente reduzida
para 11%.
Pela
Lei de Responsabilidade Fiscal, os governos
das três esferas (federal, estadual
e municipal) têm que concentrar esforços
para que o Estado dê lucro e gere
superávit primário a qualquer
preço. É preciso, ainda,
cumprir os limites da despesa com a folha
de pagamento dos servidores públicos
em relação à Receita
Corrente Líquida, a fim de garantir
o lucro dos banqueiros e demais detentores
do capital - só no governo Lula,
foram gastos R$ 600 bilhões, quatro
vezes o orçamento da Previdência.
Além disso, tem que sobrar dinheiro
para investir (receita de capital) em infra-estrutura
e em obras faraônicas e eleitoreiras.
Para
tanto é preciso reduzir os gastos
com as despesas correntes e, para atingir
esse objetivo, vale tudo. Ainda que isso
seja feito à custa do arrocho salarial
dos servidores e do sacrifício da
população que, além
de ser extorquida com alíquotas
confiscatórias (42% sobre a conta
de energia, 33% sobre a de telefone, entre
outras), é penalizada com a falta
de investimentos nos serviços essenciais:
saúde, educação, habitação,
segurança etc. E, mais uma vez,
vem à tona o falso discurso de que
o Estado está gastando muito com
a folha de pagamento do funcionalismo e,
como conseqüência, há déficit
na Previdência. Ou seja, o real objetivo é justificar
os investimentos do Estado em infra-estrutura
- onde estão as obras nos setores
essenciais? - e isentá-lo da responsabilidade
de garantir serviços públicos
de qualidade para a população.
De
acordo com a "ética" do
governo, não é considerado
investimento - mas supérfluo - o
pagamento de um bom salário ao médico,
ao professor e ao policial, para que prestem
um bom serviço à população,
sem que precisem ter três ou quatro
empregos para melhoria das condições
de vida. Novamente, o discurso falacioso
de que o Estado precisa investir em obras
para gerar emprego e crescimento econômico
e que dinheiro pago aos aposentados e servidores
públicos é dinheiro jogado
fora. Ora, todos sabemos que os recursos
investidos em setores públicos essenciais
e na Previdência promovem a distribuição
de renda e alimentam a demanda agregada,
com isso gerando crescimento e melhoria
das condições de vida da
população.
Na
realidade, o que está por trás
desse discurso é a tentativa de
mascarar a realidade, buscando esconder
os reais interesses dos detentores de capital,
financiadores de campanhas políticas.
Também está por trás
disso, a concessão indiscriminada
de benefícios fiscais para siderúrgicas,
mineradoras, joalherias e empresas aéreas.
Estão, ainda, os recursos investidos
em obras eleitoreiras para as grandes empreiteiras,
os juros dos banqueiros e a indústria
da previdência privada. É a
lógica de privatizar lucros e socializar
prejuízos.
Depois
dessa reflexão inicial, gostaríamos
de propor uma análise sobre a relação
entre a imprensa, o governo de Minas Gerais
e a propaganda que se criou em torno do "choque
de gestão" implementado no
Estado. Afinal, além da fama de
excelente gestor - que, sabemos, não
corresponde à realidade - o governo
mineiro tem se tornado famoso pelo cerceamento à imprensa,
sobretudo a local. São inúmeros
os casos de jornalistas mineiros demitidos
por ousarem divulgar qualquer informação
desfavorável ao governo, ao mesmo
tempo em que se multiplicam as manchetes
enaltecendo o trabalho realizado no Estado.
A
julgar pelas manchetes, Minas Gerais parece
ter resolvido o problema da segurança
pública, a educação
e a saúde no Estado funcionam às
mil maravilhas, enfim, não existem
problemas. Minas não tem uma dívida
impagável de R$ 46 bilhões,
no Estado não há crianças
analfabetas e famintas e nem desemprego,
as pessoas não morrem por falta
de assistência médica e o índice
de criminalidade é baixo, os médicos,
professores, policiais, fiscais e demais
servidores públicos têm salários
dignos. Ora, isso é um absurdo!
Qualquer técnico de orçamento,
economista, administrador público,
jornalista e cientista político,
com um mínimo de independência,
honestidade e isenção, constatará que
isso não passa de uma farsa. Basta
pesquisar os dados do IBGE, dos indicadores
sociais e dos balanços oficiais
do Estado de Minas Gerais.
Para
aqueles que têm o privilégio
do acesso à verdade e conseguem
ler nas entrelinhas, ultrapassando a barreira
da mentira, causa indignação
a divulgação pela mídia
de elogios ao governo do Estado, retratado
como liderança política e
exemplo de administração
de primeira, que resolveu o problema de
um Estado falido através do "choque
de gestão" e equilíbrio
das contas públicas (déficit
zero), que melhorou os serviços
públicos e colocou "Minas nos
trilhos".
Minas
tem, hoje, a segunda maior arrecadação
de ICMS do país e o terceiro PIB,
mas é um Estado endividado, com
a segunda maior dívida em relação à Receita
Liquida Real. Minas é um Estado
pobre em termos de Índice de Desenvolvimento
Humano (IDH): 0,773 (dados de 2002). Este índice é calculado
pela combinação de três
indicadores: esperança de vida ao
nascer, alfabetização de
adultos, escolarização e
PIB per capta. Tais índices permitem
a ordenação dos países
segundo o grau de desenvolvimento alcançado
em cada um desses aspectos da vida humana.
Se comparado com os outros estados, o IDH
de Minas é o 10o, o 11o em renda
per capta e o 8o em termos de alfabetização.
o que é inaceitável para
importância e riqueza do nosso Estado.
O
IDH de Minas é, ainda, menor do
que o do Brasil (0,775), que, no ranking
mundial, ocupa o 88ª posição
(típico de país subdesenvolvido),
menor que o da Argentina (0,853) e do Chile
(0,839). O menor IDH do mundo é o
de Serra Leoa (0,273) e o maior, da Noruega
(0,956). Todos esses dados confirmam o
que já vínhamos denunciando
na mídia: o ajuste do governo mineiro
foi realizado à custa dos servidores
e da população mais carente.
Que governo competente é esse?
Gastar
dinheiro da população com
marketing e publicidade enganosa, chantageando
a imprensa e condicionando as verbas destinadas à publicidade à extensão
dos elogios, é imoral e antiético.
Com isso o interesse econômico está preservado
e, com ele, a política do Robin
Hood às avessas, de retirar dinheiro
de pobre para dar aos ricos. Para concluir
nossa reflexão, citamos Carlos Heitor
Cony: "Aos ricos, as batatas. Aos
pobres, restará o consolo de servir
ao Estado dos ricos. E receber o Bolsa
Família como prêmio por bom
comportamento".
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