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Estado
de Minas, 3 de junho de 2011 - Primeiro Caderno
- Seção:
Opinião - Pág. 6
Dívida do estado e opção
pelo povo
Dinis Pinheiro - Presidente da Assembleia de Minas e do Colegiado de
Presidentes das Assembleias Legislativas
Em recente visita ao Jequitinhonha, ouvi
de um líder dos trabalhadores
rurais locais uma frase que, em sua simplicidade, resume o que equivale à verdadeira
diretriz de governo para o Brasil: “Onde tem povo, tem que ter
desenvolvimento”. A frase desse líder, de apelido Chicão,
foi dita em um contexto em que mostrava que ele, seus colegas de assentamento
e famílias jamais conseguiriam se manter ali, se o poder público
não criasse condições para que tivessem trabalho,
alimento e educação.
A frase me volta à reflexão quando retorna ao debate a
questão da dívida dos estados com a União, renegociada
pela última vez, de forma impositiva, em 1997 (Lei Federal n° 9.496/97),
e que, desde então, vem sufocando os orçamentos estaduais,
ao mesmo tempo em que ajuda, contabilmente, a União a apresentar
folgados saldos em suas próprias contas.
Embora não seja único, o caso de Minas – bem exposto
pelo vice-governador Alberto Pinto Coelho em recente artigo neste jornal – é exemplar.
Minas pagou R$ 2,9 bilhões à União em 2010, apenas
a título de juros e correção monetária, e
ainda assim sua dívida cresceu R$ 4,5 bilhões. Isso, na
prática, significa que o estado deixou de aplicar quase R$ 3 bilhões
em benefício de seus cidadãos, sob a forma de mais investimentos,
por exemplo, na erradicação dos bolsões de miséria,
em educação e em saúde.
O debate sobre a necessidade de uma nova renegociação dessa
dívida, 14 anos depois, já não é mais uma
questão de governos, mas deve envolver toda a sociedade. Não é,
também, um debate que possa colocar em lados opostos partidos
ou correntes. Há que se transformar em uma missão coletiva
e ecumênica, que conduza a soluções em favor do povo.
A Assembleia de Minas já iniciou esse caminho, com a proposta
de criação de uma Frente Parlamentar pela Renegociação
da Dívida e a convocação, por sua Comissão
de Fiscalização Financeira e Orçamentária,
de audiência pública para discutir o assunto. Além
disso, vamos propor no início de junho, durante reunião
do Colegiado de Presidentes das Assembleias Legislativas, que todos os
legislativos estaduais encampem a proposta de renegociação
para fortalecer as tratativas com o governo federal.
Nossa proposta concreta é que haja uma redefinição
em torno do pagamento dos juros e do índice adotado para a correção
da dívida, o que a torna “impagável”, como
bem classificou o senador Aécio Neves (PSDB-MG). Entendemos que
uma solução adequada seria transformar os recursos destinados
ao pagamento dos juros em um Fundo Especial para Erradicação
da Pobreza, que seria aplicado no próprio estado. Tal fundo seria
gerido de forma especial, sem entrar no caixa único, e teria regulamento
próprio, definindo com clareza os setores em que seria aplicado,
todos, naturalmente, voltados para a redução das desigualdades
regionais e sociais e a erradicação da pobreza.
A retenção nos próprios estados dos valores devidos
a título de juros e correção não prejudicaria
o caixa do Tesouro, que continuaria a computar como pagas as parcelas
e, assim, garantir o seu saldo contábil. Por outro lado, liberaria
os estados para, mediante critérios bem definidos e claros, fazerem
investimentos indispensáveis à obtenção daquela
diretriz exposta pelo líder rural do Jequitinhonha: levar o desenvolvimento
até o povo, garantindo a ele trabalho, alimento e educação.
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