|
Estado
de Minas, 18 de maio de 2011 - Primeiro Caderno
- Seção:
Opinião - Pág. 11
OPINIÃO
Dívida renegociada: benefício e transparência
Renata
Vilhena - Secretária de Estado de Planejamento e Gestão
de Minas Gerais
No último sábado, o Estado de Minas publicou reportagem
em que o senador Aécio Neves (PSDB-MG) chama a atenção
para o sistema de correção do saldo das dívidas
dos estados junto à União, que vem transformando esse passivo
em um montante impagável. Diversos governadores e prefeitos, de
vários partidos, têm manifestado a mesma preocupação,
pois o problema existe em todas as unidades federativas brasileiras e
municípios que renegociaram suas dívidas com o governo
federal.
Em 2004, quando aqui em Minas atingimos o equilíbrio fiscal,
que ficou simbolicamente conhecido como “déficit zero”,
demos um passo importante para que pudéssemos recuperar nossa
capacidade de governar o estado. Ao reorganizarmos as contas públicas,
assumindo como premissa que o governo gastaria apenas o que arrecadasse,
passamos a ser capazes de pagar os servidores públicos em dia,
de honrar nossos compromissos junto aos fornecedores e ao governo federal,
e de ter recursos em caixa para investimentos em saúde, educação,
segurança e infraestrutura.
Para quem não é especialista, também é simples
entender. Imagine uma pessoa que tem um salário de RS 3 mil, mas
gasta R$ 5 mil por mês para fazer frente às suas despesas,
entre elas, por exemplo, prestações da casa própria.
Se é uma situação deficitária todo mês,
a médio prazo, por mais que a pessoa se esforce, será um
quadro de absoluta insolvência. Em 2004, o que fizemos foi aumentar
o salário dessa pessoa para R$ 4 mil reais, e reorganizar os compromissos
mensais de forma que eles coubessem dentro do orçamento. Ou seja,
a pessoa teve suas receitas e despesas equilibradas, passando a gastar
em um mês o mesmo valor que recebia. Isso foi o “déficit
zero”.
Quanto à casa própria, a dívida não deixou
de existir, mas suas prestações passaram a ser pagas em
dia, de acordo com o limite mensal máximo permitido pelo plano
de financiamento. Porém, o saldo devedor, em vez de diminuir,
aumentava, porque o índice utilizado para corrigir o saldo era
maior que o valor máximo permitido para quitação
da dívida, mensalmente. É uma situação idêntica à daqueles
que faziam financiamentos habitacionais com o extinto Banco Nacional
da Habitação (BNH), e depois de anos pagando as prestações,
estavam com saldo devedor maior que o valor de mercado do imóvel.
E é uma situação idêntica também à dos
governos estaduais, cujas dívidas junto ao governo federal pagam
juros fixos entre 6% e 9,5% ao ano mais o índice IGP-DI, que em
2010 ficou em cerca 11%. Para Minas, por exemplo, os juros totais foram
de 18,5%. Com isso, apesar de termos pago cerca de R$ 2,9 bilhões à União
em 2010, a dívida do estado cresceu R$4,5 bilhões no período.
Situação semelhante vivem todas as demais unidades federativas.
Pela abrangência do problema, é fundamental que um debate
em torno de mudanças nos critérios de pagamento da dívida
aconteça em nível nacional. Não basta que os estados
façam esforços para eliminar seu passivo, o que, aliás,
tem sido feito. Como o custo financeiro é superior ao limite máximo
de comprometimento da receita, o passivo não só persiste
como ainda cresce, mensalmente. Assim, é preciso que o governo
federal discuta propostas de renegociação da dívida.
Uma delas, que vem ganhando força, é que os estados e municípios
comprometam o valor que seria destinado ao pagamento dos juros com investimentos
em educação, saúde, segurança e infraestrutura.
Com isso, o montante que hoje é repassado à União
já seria aplicado em melhorias diretas para a população,
assegurando aos cidadãos benefícios reais com o uso do
dinheiro arrecadado, além de maior transparência em sua
destinação.
|