O
Tempo, 14 de março de 2011 - Primeiro
Caderno - Seção:
Política
- Pág. 17
O
exercício da política e a verdade dos fatos
Distante
da cena política há algum tempo, José Dirceu
está de volta.
Protagoniza o episódio inicial do filme roteirizado pela cúpula
do PT cujo enredo pretende travestir de tentativa de golpe a mancha
irremediável do mensalão. Semanas
atrás, Dirceu foi pródigo em manifestar a sua
opinião sobre temas diversos.
Ele esteve presente na capa de "O Globo". O jornal chamava
a atenção para a tese defendida por ele de que existiria
um conluio entre a imprensa internacional e o governo dos Estados
Unidos para denunciar as atrocidades que estão ocorrendo na
Líbia. Na
verdade, encontrar formas de defender regimes autoritários
não é novidade. Há pouco tempo, Marco Aurélio
Garcia, assessor da Presidência, vindo da Venezuela, perguntado
sobre a liberdade de imprensa naquele país, respondeu que
se ela tinha acabado foi depois que ele saiu de lá.
Aqui
o ex-ministro esteve à vontade para defender a postura
autoritária do governo do PT na votação do salário
mínimo, que culminou com a iniciativa de fixar seu valor por
decreto, violentando a Constituição.
Como é difícil defender o indefensável, o ex-ministro
utilizou-se de um subterfúgio conhecido: o ataque é a
melhor defesa. Em vez de uma discussão política leal
partiu da mentira para defender seu raciocínio. No caso, aproveitou
para acusar o ex-governador Aécio de governar "Minas
com leis delegadas pela Assembleia", tentando fazer um paralelo
entre esse instrumento e a iniciativa autoritária e inconstitucional
do PT que surpreendeu o país.
Como não é possível crer que Dirceu seja uma
pessoa tão má informada, só mesmo creditando à má-fé a
tentativa de confundir a opinião pública.
A lei
delegada - utilizada nos governos Aécio e Anastasia
por apenas 30 dias - é instrumento previsto na Constituição
Federal e Estadual. Tem sido utilizado, em maior ou menor grau, por
diversos governos. Prevê que o Executivo solicite à Assembleia
autorização para emitir leis durante um determinado
período com finalidade especifica.
Cabe à Assembleia conceder ou não a autorização.
O Executivo se submete à decisão da Assembleia, a quem
cabe a última palavra.
No
caso dos governos Aécio e Anastasia, elas foram utilizadas
apenas para garantir agilidade em mudanças na estrutura administrativa
do Estado. Nenhum assunto diretamente ligado à vida do cidadão
foi objeto de lei delegada. Portanto, ela respeita a Constituição.
A iniciativa do governo do PT contraria a Constituição,
o que torna esdrúxula a comparação que Dirceu
deliberadamente tentou fazer.
Dirceu
critica o uso das leis delegadas. No entanto, esconde dos mineiros
que o governador Agnelo Queirós, do PT, acaba de
fazer toda a reforma do governo do Distrito Federal por decreto.
Não se deu sequer ao trabalho de consultar a Assembleia
Legislativa.
O exercício da política exige, sobretudo, respeito à verdade. |