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Tempo, 10 de março de 2011 - Primeiro
Caderno - Seção:
Política
- Pág. 4
Tramitação
PT vai protocolar PEC para extinguir leis delegadas
Para
Reginaldo Lopes, há abuso por parte dos chefes de Executivos estaduais
TELMO FADUL
Brasília. A Câmara dos Deputados deverá analisar
em breve uma proposta de emenda constitucional (PEC) que acaba com
a figura jurídica das leis delegadas. Na próxima semana,
o deputado federal Reginaldo Lopes (PT-MG) pretende protocolar a
proposição, que tem um objetivo único: enquadrar
o governo de Minas Gerais.
Já na justificativa da PEC, Reginaldo Lopes cita números
que, segundo ele, indicam o abuso do Palácio da Liberdade
na utilização das leis delegadas. Entre 2003 e 2007,
o governo mineiro editou 63 atos normativos dessa natureza, número
que subiu para 67 no período que vai de 2007 a 2010.
A PEC que será apreciada pelos parlamentares suprime o inciso
IV do artigo 59 e o artigo 68 da Constituição Federal
para extinguir a ferramenta que, na prática, permite ao Executivo
estadual legislar sobre determinados temas, prerrogativa que, por
origem, é da Assembleia.
"As leis delegadas ferem o estado democrático de direito,
desequilibram a relação harmoniosa entre os Poderes, é um
cheque em branco", afirma Reginaldo Lopes, em uma referência
direta ao governo de Antonio Anastasia, que, em pouco mais de dois
meses, já editou seis leis delegadas para promover mudanças
administrativas.
"O governador não pode criar secretarias, cargos, mudar
a estrutura do governo sem consultar o parlamento", disse Reginaldo
Lopes, que atende a apelo do bloco de oposição na Assembleia
Legislativa de Minas. O deputado federal também já ingressou
no Tribunal de Justiça do Estado com ações contra
as leis delegadas de Anastasia.
Outros Estados. "O problema é que esse modo PSDB de
governar está se expandindo. Já temos abuso de leis
delegadas em Alagoas e Goiás", denunciou Reginaldo Lopes,
em uma referência aos Estados governados pelos tucanos Teotônio
Vilela e Marconi Perillo. "Por isso, vamos entrar com a PEC
para cortar pela raiz", disse.
Indagado sobre a semelhança entre as leis delegadas e as
medidas provisórias (MPs), amplamente utilizadas no governo
federal pelo PT, Reginaldo Lopes desconversou: "A MP é mais
democrática, ela tem prazo de validade e precisa da aprovação
do Congresso, senão caduca", explicou o deputado.
A autorização para a edição de leis
delegadas pelo governo de Minas foi aprovada pela Assembleia mineira,
onde o bloco de oposição, formado pelo PT e PMDB, é minoria.
Comparação
Críticas vêm da oposição e até mesmo
da base Brasília. O líder da minoria da Câmara, deputado
Paulo Abi-Ackel (PSDB), critica a iniciativa de Reginaldo Lopes de
protocolar a proposta de emenda constitucional (PEC) que extingue
as leis delegadas. Para ele, a atitude é uma espécie
de mea-culpa. O tucano disse que Reginaldo Lopes está tentando
disfarçar o desconforto que sente ao ver a presidente Dilma
Rousseff controlar o Parlamento por meio das medidas provisórias
(MPs). Ela já editou quatro desde que assumiu.
"O governo do PT só perde em autoritarismo para o período
Vargas, conhecido pela edição de decretos-lei",
avaliou o tucano, que enxerga na medida provisória o mesmo
mal que Reginaldo Lopes atribui às leis delegadas: o impedimento
do Legislativo de opinar sobre alguns temas e de elaborar leis.
"A medida provisória tira do Congresso a discussão
de temas importantes para o país. Já a lei delegada
dá ao chefe do Executivo a liberdade para tratar apenas de
ações do Executivo", analisou Paulo Abi-Ackel,
para quem as mudanças pretendidas pelo governo de Minas demorariam
mais tempo para serem concretizadas sem as leis delegadas.
A PEC não encontra apoio nem mesmo dentro da base aliada
da presidente. "Eu acho que o Reginaldo Lopes devia fazer uma
PEC para acabar com as MPs", opinou o deputado federal Lincoln
Portela, líder do PR na Câmara. "Primeiro, resolvia
o nosso problema. Aí, depois, ele acaba com as leis delegadas".
(TF)
Remédio
inadequado
Especialista culpa o Legislativo Brasília. O professor da Faculdade de Direito da Universidade
de Brasília (UnB) Cristiano Paixão desconfia da proposta
de emenda constitucional que será protocolada na Câmara
dos Deputados para acabar com a possibilidade de edição
de leis delegadas.
"É um remédio inadequado para o problema",
afirmou o professor, que ainda fez uma comparação inusitada
para ilustrar a proposição do deputado mineiro: "É mesma
coisa que, para curar a doença, você resolver matar
a pessoa que está enferma".
Cristiano Paixão disse que "o instrumento em si (a lei
delegada) não é ruim", mas que precisa ser utilizado
com prudência. "O que não acontece em Minas Gerais",
constatou o professor, após consultar as estatísticas
constantes da justificativa da PEC de Reginaldo Lopes. "Mas,
em nível nacional, não é diferente, Dilma Rousseff
também abusa das medidas provisórias", analisou
o professor, que culpa o Legislativo por frequente perda de suas
prerrogativas. "O Executivo abusa desse instrumento porque o
Parlamento deixa. Os deputados votam a delegação antes
de ela entrar em vigor. Os parlamentares também precisam aprovar
medida provisória para que ela não perca os efeitos",
disse.
Paixão não acredita que a PEC possa chegar longe,
já que os governadores têm grande poder de barganha
no Congresso. (TF)
Tramitação
da proposta de emenda
Um terço. O autor da proposta necessita da assinatura de 171
deputados federais, um terço da Casa, para protocolar uma
PEC no Congresso Nacional (Câmara de Deputados).
Legalidade. A Comissão de Constituição, Justiça
e de Cidadania (CCJ) terá cinco sessões para aprovar
ou não a admissibilidade da proposta. Nessa comissão,
a análise se resume à constitucionalidade ou não
da matéria proposta.
Especial. Depois de aprovada na CCJ, a PEC será votada por
uma Comissão Especial, que vai analisar somente o conteúdo
da matéria.
Plenário. Se a PEC for aprovada na Comissão Especial,
fica pronta para ir ao plenário da Câmara em dois turnos.
Se ela for aprovada por, no mínimo, dois terços da
Casa, segue para votação no Senado, onde também
precisa ser aprovada com quórum especial. |