Hoje
em dia, 31
de janeiro de 2011 - Primeiro Caderno -
Seção:
Minas
Chacina de Unaí completa
sete anos sem data de julgamento
Acusados
de matar auditores fiscais podem entrar com mais um recurso no Superior
Tribunal de Justiça, em Brasília
Igor
Guimarães e Carolina Coutinho

Sete anos depois da chacina de Unaí, no Noroeste de Minas, a
Justiça brasileira ainda não tem previsão de quando
será o julgamento dos nove acusados de envolvimento no assassinato
de três fiscais do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE)
e de um motorista.
Após mais de 30 recursos impetrados ao longo do processo, os advogados
de defesa ainda podem acionar o Superior Tribunal de Justiça (STJ),
em Brasília, e solicitar o desenrolar do caso na Justiça
comum para escapar do júri popular. O último recurso da
defesa, com esse mesmo fim, foi negado pelo STJ em dezembro.
No dia 28 de janeiro de 2004, os auditores Nelson José da Silva,
João Batista Lages e Erastótenes de Almeida Gonçalves,
além do motorista Aílton Pereira de Oliveira, foram assassinados
em uma emboscada durante uma fiscalização de rotina em
fazendas de Unaí. Os irmãos Antério e Norberto Mânica,
fazendeiros que estão entre os maiores produtores de feijão
do país, são acusados de planejar o crime. Na época,
eles eram fiscalizados por exploração indevida do trabalho,
com multas que ultrapassaram R$ 2 milhões.
Ao longo dos últimos anos, a morosidade do processo motivou protestos
de familiares, amigos e servidores federais. Nesta quinta-feira (27)
está prevista uma manifestação na Avenida Álvares
Cabral, em Belo Horizonte, em frente ao prédio do Tribunal Regional
Federal.
Sindicalistas querem pressionar pela realização do júri
popular em Belo Horizonte e não em Patos de Minas, cidade próxima
a Unaí, onde a família Mânica poderia usar de seu
poder para influenciar os jurados. Prefeito desde 2004, Antério
foi eleito em Unaí quando ainda estava na cadeia. Pela legislação,
a inelegibilidade ocorre apenas para quem tem processo transitado em
julgado. Em 2008, quando ele foi reeleito, ainda não havia a restrição
da Ficha Limpa.
Além de Antério, respondem ao processo em liberdade o irmão
Norberto e os empresários Hugo Alves Pimenta e José Alberto
de Castro, todos beneficiados por habeas corpus. Os quatro acusados de
executar as vítimas estão detidos à espera de decisão
da Justiça. São eles Francisco Elder Pinheiro, Erinaldo
de Vasconcelos Silva, Rogério Alan Rocha Rios e Willian Gomes
de Miranda. Humberto Ribeiro dos Santos teria apagado uma das provas
do crime e também está detido desde 2004.
Todos também podem ganhar as ruas a qualquer momento. Na avaliação
do conselheiro da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e advogado criminalista
Adilson Rocha, a Justiça Federal não teria mais embasamento
para sustentar a detenção por tantos anos sem julgamento. “Há grande
chance de o STJ soltá-los. Existe um prazo máximo de 121
dias para manter a prisão, mas, pelo princípio da razoabilidade,
pode chegar a um, dois anos, mas sete é demais”.
Para especialistas, as normas jurídicas do país beneficiam
quem tem poder econômico e bons advogados à disposição. “É sempre
triste e deprimente testemunhar casos de impunidade como esse. É uma
manifestação explícita de que no Brasil raramente
ricos vão para a cadeia”, diz o coordenador do Instituto
Minas Pela Paz, o sociólogo Luis Flávio Sapori. Ele defende
reformas na lei processual, com a redução do número
de recursos. “O pressuposto uso do direito de defesa se torna um
mecanismo de impunidade”.
Adilson Rocha diz que o problema não está na lei, mas na
estrutura deficiente. Ele toma como exemplo os dois únicos tribunais
de BH que julgam crimes de homicídio. “Temos dois júris,
no máximo, por dia, enquanto a cidade registra cinco, seis assassinatos
diários”. O conselheiro da OAB defende a contratação
de mais juízes, promotores e pessoal de apoio.
Crimes de homicídio podem prescrever se não forem analisados
pela Justiça em um prazo de até 20 anos. Porém,
conforme interpretação da Justiça, esse prazo pode
ser estendido por até 70 anos. “Não acredito que
a chacina de Unaí chegue a esse ponto”, afirmou Rocha.
Até o prefeito Antério Mânica se diz insatisfeito
com a lentidão da Justiça, embora seus advogados tenham
entrado com vários recursos. “Não encontraram nenhum
indício da minha participação nesse crime. Estou
com a consciência tranquila. Quero ser julgado”.
Para a presidente do Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais, Rosângela
Rassy, é inadmissível que o julgamento ainda não
tenha acontecido. No Pará, lembra, o caso Irmã Dorothy,
missionária norte-americana assassinada em 2005 por contrariar
interesses de madeireiros, foi a júri em um ano.
Crime
provocou insegurança nos auditores fiscais
O presidente da Associação dos Auditores Fiscais do Trabalho
de Minas Gerais, João Coelho Frasão de Barros, disse que
depois do crime, os fiscais ganharam mais proteção. Desde
então, sempre que vão fiscalizar propriedades em áreas
rurais do estado são acompanhados por policiais militares ou federais. "Achávamos
que o auditor fiscal era imbatível, uma autoridade que impunha
respeito, mas depois destas mortes, percebemos que somos frágeis
e impotentes frente a esses assassinos".
Além disso, a chacina e sua até então impunidade
provocou um desestímulo à categoria. Frasão afirmou
que muitos fiscais se sentem angustiados e amedrontados por exercer tal
função, temendo serem as próximas vítimas. "Nos
sentimos desamparados vendo um crime tão bárbaro e cruel
ainda sem conclusão. Nossa categoria não é mais
a mesma".
Viúva diz que só terá paz
com o julgamento
Viúva do auditor fiscal Nelson José da Silva, morto aos
52 anos, a comerciante Helba Soares da Silva, de 47, disse que acorda
todos os dias pensando no crime, que até hoje não a deixa
em paz. "Sinto que eu ainda não enterrei meu marido. Minha
vida tem sido buscar punição para os assassinos. E só poderei
descansar no dia em que os culpados forem julgados e condenados. Rezo
para que isso aconteça o mais rápido possível. Já não
aguento mais essa demora".
Helba é a única das quatro viúvas da chacina que
ainda vive em Unaí, Noroeste de Minas. As outras mudaram-se para
Belo Horizonte. Por causa disso, ela ainda paga o preço de não
poder andar livremente pela cidade, cujo prefeito, Antério Mânica, é um
dos nove acusados pelo crime. "Não tenho a liberdade de ir
em qualquer lugar nesta cidade. Logo após o crime, quando me encontrava
com ele, eu o xingava. Mas o melhor é não encontrá-lo".
Pelas ruas da cidade, Helba conta que ainda são feitos muitos
comentários sobre a chacina. "Nesses sete anos, o pessoal
da cidade abriu muito a boca, o que gerou novas provas, novas testemunhas,
pessoas que viram os acusados no dia do crime, fortalecendo a acusação.
Pelo menos para isso, essa demora serviu", desabafou. |