Hoje
em dia, 17
de fevereiro de 2011 - Primeiro Caderno -
Seção:
Economia - Pág.
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Encargo sinaliza para energia mais cara
Taxa embutida na conta de luz para garantir a estabilidade do sistema
dobrou de valor em janeiro
Tatiana
Lagôa - Repórter
Os encargos
do setor elétrico, cobrados embutidos na conta de
energia de todos os consumidores, iniciaram 2011 pressionando a formação
das tarifas. Só o Encargo de Serviços do Sistema (ESS)
- um dos nove existentes -, quase dobrou na comparação
entre janeiro de 2011 e igual mês do ano passado, passando de R$
64 milhões para R$ 120 milhões.
Em 2010, os encargos totalizaram R$ 17 bilhões, ante R$ 14,9 bilhões
em 2009. O aumento de custos com os encargos é rateado entre todos
os consumidores na data do reajuste anual e sinaliza para um índice
mais salgado. Na área da Companhia Energética de Minas
Gerais (Cemig), o acerto de contas será em 8 de abril.
Já entre os consumidores livres de energia, com demanda a partir
de 3 mil quilowatts (kW), o impacto já vai ser sentido na conta
do próximo mês. As estimativas são da Associação
Brasileira de Grandes Consumidores Industriais de Energia e de Consumidores
Livres (Abrace), que antecipou o valor do ESS que deverá ser divulgado
no final do mês.
O analista de mercado da Abrace, Victor Hugo Iocca, explica que o valor
arrecadado pelo ESS é usado para garantir a estabilidade do
sistema de distribuição de energia. “Quando uma
usina hidráulica não consegue gerar a quantidade necessária
de energia por alguma restrição, liga-se as usinas térmicas,
que são mais caras. Quem arca com esse custo é esse encargo,
que cai na conta do consumidor”, afirma.
O assessor da área de energia elétrica da Abrace, Fernando
Umbria, credita esse aumento do valor do ESS principalmente à falta
de estrutura do sistema energético do país. “Há vulnerabilidades
que ficam evidentes agora. Na medida em que o sistema não consegue
gerar energia para todas as regiões, é preciso onerar o
consumidor com o custo das fontes alternativas”, afirma. Ele explica
que o resultado de janeiro foi pressionado principalmente pela entrada
de Rondônia e Acre no Sistema Interligado Nacional (SIN).
Como a
linha de transmissão disponibilizada para os dois estados é muito
frágil tecnicamente, está sendo necessária a utilização
de usinas térmicas para suprir a demanda por eletricidade. Segundo
o presidente do centro de estudos Instituto Acende Brasil, Cláudio
Sales, o Brasil é um dos países com a taxa mais elevada
de encargos sobre o setor elétrico.
Dentre
os nove encargos cobrados, alguns subsidiam a mesma coisa. Um exemplo é o subsídio voltado para fontes alternativas
complementares, acionadas em caso de algum problema no sistema. Dois
encargos seriam usados para esse fim: o Programa de Incentivo a Fontes
Alternativas (Proinfa) e a Reserva Global de Reversão (RGR).
Custo alto reduz competitividade industrial
A alta
taxa de encargos cobrada na conta de energia tira a competitividade
da indústria brasileira. “A indústria vê a
energia elétrica como insumo básico. Todas as vezes que
ela aumenta, causa forte impacto para o setor”, afirma o analista
da Câmara Nacional da Indústria (CNI), Rodrigo Garcia.
Segundo
Garcia, os mais afetados com a alta dos encargos são os
produtores de alumínio, ferro, papel e celulose, a indústria
química e siderúrgicas, por usarem mais energia na produção.
Segundo
ele, o consequente aumento do custo da produção
está levando muitas empresas a fecharem as portas. Além
disso, os altos custos inibem a abertura de novas indústrias no
país, que se instalam no exterior. “O que parece ser um
problema só da indústria é algo que se reflete em
todos os brasileiros. Porque na medida em que as indústrias fecham
as portas, reduzem-se as oportunidades de empregos e passamos a importar
produtos, levando recursos para fora do país”, afirma.
Governo
define novas destinações para
os recursos
Além do Encargo de Serviços do Sistema (ESS), outros tributos
embutidos na conta de energia elétrica também foram reajustados
para cima. A Conta de Consumo de Combustíveis Fósseis (CCC) é um
deles. Segundo estimativas da Associação Brasileira de
Grandes Consumidores Industriais de Energia e de Consumidores Livres
(Abrace), entre 2009 e 2010, o subsídio passou de R$ 3 bilhões
para R$ 4,7 bilhões, o que representa um aumento de 56%. O encargo
serve para custear os gastos com os combustíveis utilizados nas
usinas térmicas da região Norte. Ele representa cerca de
30% no montante total dos encargos.
O assessor
da área de energia elétrica da Abrace, Fernando
Umbria, explica que esse aumento ocorreu principalmente porque ocorreram
mudanças na destinação do encargo. “Agora,
ele passou a ser usado para custear diversas coisas que não entravam
nessa conta. Ele custeia gastos de instalação e manutenção
de usinas, por exemplo, o que não acontecia antes”, afirma.
O Programa
de Incentivos às Fontes Alternativas de Energia (Proinfa)
também ficou mais caro para o consumidor. Em 2009, o valor total
ficou em R$ 1,3 bilhão e, em 2010, passou para R$ 1,8 bilhão,
um aumento de 40%. Ele foi criado como forma de incentivar uma maior
participação das fontes alternativas renováveis
na produção de energia elétrica, como biomasa e
eólica. “Esses encargos sobem a cada dia porque se tornaram
uma forma encontrada pelo governo para jogar todas as despesas que aparecem
no bolso do consumidor. É um cheque em branco que assinamos para
o governo”, afirma o diretor geral da comercializadora CMU Energia,
Walter Fróes.
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