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Hoje
em Dia, 10 de julho
de 2011 - Primeiro Caderno - Seção:
Economia - Pág.
11
"Passado 2028, o percentual da receita provavelmente
será elevado. E muito"
"A dívida hoje está na casa dos R$54 bilhões. Se
ela fosse corrigida pelo IPCA, estaria em R$5 bilhões"
"Os governos estaduais devem pressionar o Governo federal para mudar as
condições"
"Dívida dos estados com a União é impagável"
TATIANA MORAES
REPÓRTER
Nos termos atuais do contrato, a dívida dos estados com a União,
firmada em 1997 e 1998, é impagável. A afirmação é do
doutor em economia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e
ex-secretário-adjunto geral da Secretaria da Fazenda de Minas
Gerais no governo Itamar Franco, em 1999, Fabrício Augusto de
Oliveira.
Autor de vários livros sobre economia brasileira e finanças
públicas, ele comenta que a única forma de quitar o montante,
financiado até 2028 com possibilidade de ser estendido até2038, é negociando
o indexador, o índice Geral de Preços (IGP-DI). Caso isso
não aconteça, os estados, inclusive Minas Gerais, terão
que reduzir ainda mais o orçamento destinado às políticas
públicas.
Ou seja, menos verba para educação, saúde e transporte,
entre outros. Enfim, a conclusão é simples: ou o Governo
federal altera os termos do financiamento, ou quem vai pagar a conta é,
mais uma vez, a sociedade.
Como
começou a dívida?
A dívida dos estados com a União foi iniciada nos anos
de 1997 e 1998. Naquela época, os estados estavam com dificuldade
financeira e tinham que rolar quase que diariamente as suas dívidas
no mercado financeiro. A situação tornou-se crítica,
com taxas de juros altas. Diante desta cenário, o Governo federal
decidiu completar o processo de federalização da dívida
com os governos subnacionais.
Essa federalização aconteceu de uma vez?
Não. Foi aos poucos. A dívida dos estados foi sendo trocada
por uma dívida com a própria União. Começou
com a dívida externa, avançou em 1993, na época
do governo do Itamar, com as dívidas dos estados com Caixa Econômica
e outros órgãos federais, e foi finalizada nesse período,
1997 e 1998, quando a União decidiu fazer a troca da dívida
mobiliária dos estados por uma dívida contratual. Porém,
para isso a União impôs condições.
Quais são os parâmetros do contrato?
Os juros são variáveis. Essas taxas de juros reais, descontada
a inflação, oscilam entre 6% e 9% ao ano. Para os estados
que fizeram o pagamento de 20% do estoque da dívida na época
do contrato, a taxa de juros foi fixada em 6%. Para os que só fizeram
o abatimento de 10%, como é o caso de Minas Gerais, a taxa de
juros foi de 7,5%. E para os que não fizeram pagamento inicial,
a taxa de juros foi de 9%. Além disso, como garantia para a União,
os estados deveriam destinar 13% da receita líquida para quitar
a dívida e ficaram proibidos de contrair novas dívidas
com a União.
De todos os termos do contrato, qual seria o mais danoso?
O indexador. Escolher o IGP-DI foi um erro. Como ele é alto, a
dívida cresce de maneira exponencial.
Em quanto tempo a dívida deve ser quitada?
Todo o montante deve ser pago em 30 anos, a contar da assinatura
do contrato, que pode ter sido em 1997 ou 1998, como é o caso de Minas. Segundo
o contrato, em 2028 os estados poderão renegociar a dívida
por mais dez anos, ou seja, até 2038. Entretanto, o contrato prevê que
depois de 2038 não poderá haver outras extensões
de prazos. Ou seja, até 2028, 13% da receita dos estados deve
ser destinada à dívida. Passado 2028, o percentual da receita
provavelmente será elevado. E muito. É uma bola de neve.
"Os movimentos organizados devem se unir e cobrar a revisão dos
parâmetros do contrato"
Por que é uma 'bola de neve'?
É
uma bola de neve porque os encargos são muito altos e os valores
pagos com os 13% não são suficientes. Tudo que sobra é incorporado
ao estoque, aumentando ainda mais a dívida.
Em valores de dezembro de 2010, quais são os 'números'
da dívida de Minas Gerais com a União?
De janeiro a dezembro de 2010, Minas Gerais pagou R$ 3,1 bilhões,
o equivalente a 13% da receita do Estado, que totalizou R$ 33,1 bilhões.
A dívida com a União fechou o ano passado em R$ 54,8 bilhões.
O valor é muito maior do que no início do contrato, em
1998.
E quanto era a dívida em 1998?
R$14,849 bilhões.
Crescendo
nessas proporções, a dívida é impagável?
E uma dívida impagável, pelo menos no horizonte que vislumbramos,
2028 ou 2038. Não temos como quitá-la, a não ser
que Minas Gerais renuncie ao seu papel de provedor de políticas
públicas. Ou seja, invista menos em educação, transporte,
saneamento, entre outros.
Para a União foi um bom negócio?
Para a União foi um ótimo negócio, um negócio
da China. O Governo federal levou vantagem em vários pontos, inclusive
financeiramente. Principalmente com relação aos estados
que pagam 7,5% e 9% ao ano.
Por que foi um 'negócio da China'?
Primeiro porque, com o contrato, a União atou as mãos dos
estados. Conseguiu o que vinha tentando desde a década de 80:
controlar as finanças dos governos subnacionais, retirar a autonomia
dos governos estaduais de se endividarem, de gastarem excessivamente.
Ou seja, com o contrato, a União conseguiu impor o seu controle
sobre os estados.
Qual o objetivo desse controle?
Na época, o Governo federal precisava garantir superávit
primário para fechar um acordo com o FMI. Porém, teria
que ser um superávit primário de todo o setor público:
Governo federal, estados, municípios e empresas estatais. Como
o contrato proíbe os estados de terem outras dívidas com
a União e estipula que 13% da receita líquida deve ser
para quitar a dívida, não há gastos excessivos.
Sem contar que o governo faz empréstimos baseado na Selic, que
está em 12,25%. Ou seja, somados os juros estipulados ao índice
IGP-DI, o financiamento fica mais caro do que a Selic. O governo ganha
até financeiramente. Resumindo: o governo controla o Estado, garante
superávit primário para negociar com o FMI e ainda ganha
financeiramente.
O que se pode fazer para mudar a situação?
Com a aproximação de 2028, finalmente todos estão
acordando para o fato de que a dívida é impagável.
Os governos estaduais devem pressionar o Governo federal para mudar as
condições dos contratos. Pelo menos o indexador deve ser
alterado.
E a sociedade, pode fazer alguma coisa?
A primeira ação da sociedade é se informar sobre
a dívida. Depois, os movimentos organizados devem se unir e cobrar
tanto do Estado quando da União a revisão dos parâmetros
do contrato.
Qual seria o indexador ideal?
OIPCA.
Qual seria o cenário da dívida se o indexador fosse
o IPCA?
A dívida hoje está na casa dos R$ 54 bilhões. Se
ela fosse corrigida pelo IPCA, estaria em aproximadamente R$5 bilhões.
Para que tenhamos uma noção da dívida pública
mineira, qual é a participação da dívida
com a União no total das pendências do Estado?
A dívida da União consome 13% da receita líquidas.
As demais dívidas compõem o 1% restante. Porém,
a dívida da União não é a mais injusta.
E qual é a mais injusta?
A da Cemig, que surgiu de um acerto de contas da União com o Estado.
A União devia para a Cemig e transferiu essa dívida para
Minas Gerais. Ela também é indexada pelo IGP-DI, porém,
incidem juros reais - descontada a inflação - de 8,18%
por ano. Em 2010, a dívida com a Cemig fechou em quase R$ 1 bilhão.
Esta é outra bola de neve, mais cara ainda. É outro caso
que deve ser analisado.
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