Folha
de São Paulo, 9 de fevereiro de 2011 - Primeiro
Caderno - Seção: Editoriais - Pág.
A2
Editoriais
editoriais@uol.com.br
A
farra dos salários
Governo
Dilma tem razão em procurar impor limites aos aumentos
do funcionalismo, mas uma lei pode não ser o melhor caminho
para isso
A
ideia, ora em estudo no governo Dilma Rousseff, de estabelecer
uma regra para restringir os reajustes
de salário do funcionalismo
acerta no mérito, uma vez que é urgente impor um freio
ao aumento dos gastos públicos.
Na campanha eleitoral, a candidata já acenava com uma trava
na escalada dos vencimentos dos servidores. A proposta é limitar
os reajustes a um teto de 2% ao ano, além da variação
da inflação.
O funcionalismo esbaldou-se nos anos Lula, com aumentos generalizados.
Os ganhos dos servidores federais tiveram alta média de quase
40% acima da inflação. Já Legislativo e Judiciário
obtiveram ganhos reais de cerca de 20%.
O ex-presidente petista aproveitou-se do excelente momento econômico
para saciar sua base de apoio, em particular os sindicatos -que ele
agora acusa de "oportunismo" na discussão sobre
o valor do salário mínimo.
Como percentual do PIB, os gastos com o funcionalismo mantiveram-se
mais ou menos estáveis. Eram de 4,81% em 2002 e ficaram em
4,55% no ano passado. O resultado das contas do governo, em contrapartida,
deteriorou-se. Em 2009 e 2010, a meta de superavit primário
(a economia do setor público para pagar os juros da dívida)
não foi atingida, apesar de manobras contábeis para
tentar maquiar o fracasso.
Em decorrência desse quadro, um limite aos aumentos dos servidores
públicos se faz mais que necessário. Nada indica, no
entanto, que criar uma lei sobre o tema seja o melhor caminho para
tratar da questão. Está no Congresso desde 2007 um
projeto com esse fim. O limite de 1,5% proposto pela Fazenda foi
elevado para 2,5% -acima, portanto, dos 2% estudados por Dilma. Depois
de passar no Senado, a proposta patina na Câmara.
Além da dificuldade óbvia de unificar o Congresso em
torno de bandeira pouco popular, a aprovação de uma
lei sobre o tema corre o risco de ter um desdobramento nefasto. Em
vez de um limite, o teto poderá ser entendido pela categoria
como um piso para o reajuste -e o país não precisa
de mais um pretexto para indexação.
Os funcionários do Executivo são responsáveis
por 76,3% dos gastos do governo federal com o funcionalismo, somados
civis (56,1%) e militares (20,2%). O restante vem de Judiciário
(14,6%), Legislativo (3,7%) e algumas outras despesas. Em vez de
mais uma lei, bastaria determinação política
para conter os aumentos.
A presidente Dilma Rousseff sabe que, para cumprir suas promessas,
terá de gastar o dinheiro onde ele é de fato necessário
-no combate à pobreza e nos investimentos. E não em
aumentos irresponsáveis para o funcionalismo.
|