|
Folha
de São Paulo, 26 de julho de 2011 - Primeiro
Caderno - Seção: Poder - Pág. A4
Estados driblam STF para manter incentivos fiscais
Novas
leis em São Paulo, Rio e Mato Grosso do Sul asseguram
benefícios considerados ilegais em junho
Objetivo é evitar fuga de indústrias atraídas
com incentivos, como fabricantes de leite longa vida em SP
MARIANA CARNEIRO
DE SÃO PAULO
Quatro
Estados que concediam incentivos fiscais considerados ilegais pelo
Supremo Tribunal Federal em junho driblaram o veto
imposto pelo
tribunal e continuam assegurando os benefícios a diversas
indústrias estabelecidas em seus territórios.
São Paulo, Rio de Janeiro e Mato Grosso do Sul editaram novas
leis que anularam ou reduziram o impacto da decisão. O Espírito
Santo decidiu não cumprir a determinação judicial
e pretende recorrer contra ela, embora a decisão do STF tenha
sido unânime.
Na prática, isso significa que as empresas continuam a recolher
menos ou nenhum ICMS em operações nesses Estados. Com
isso, levam vantagem em relação a concorrentes de outras
regiões.
Em junho, o Supremo derrubou de uma vez só 23 normas de sete
Estados por considerar ilegais os incentivos que elas criaram.
A decisão deu impulso a negociações entre o
governo federal e os Estados para mudar a legislação
do ICMS e acabar com a guerra fiscal.
"Isso provocou uma corrida por um perdão amplo e irrestrito
dos benefícios", disse o economista Amir Khair, ex-secretário
municipal de Finanças de São Paulo.
Os Estados primeiro tentaram validar os incentivos antigos no Confaz
(Conselho Nacional de Política Fazendária), onde se
reúnem os secretários da Fazenda de todos os Estados,
mas não tiveram sucesso.
São Paulo teve cancelada uma lei que reduzia o ICMS pago pelos
fabricantes de leite longa vida. Mas as indústrias não
sofreram prejuízo. Desde março está em vigor
um decreto que garante desconto no imposto pago pelas indústrias
paulistas.
O decreto começou a valer antes mesmo que o Supremo vetasse
a lei que beneficiava o setor. "O governo intensificou os benefícios
para fazer frente aos incentivos de outros Estados", disse o
presidente do Sindleite, Carlos Humberto de Carvalho. "As fábricas
podiam se mudar para outro Estado."
O medo do êxodo das indústrias beneficiadas pelos incentivos
levou Mato Grosso do Sul a reeditar uma lei que teve alguns dispositivos
cancelados pelo STF uma semana depois da decisão do tribunal.
"
Não houve prejuízo para o setor industrial com a decisão
do STF", informou a Federação das Indústrias
de Mato Grosso do Sul, por meio de nota.
Para a tributarista Jerusa Mocelin, criar novas leis é uma "burla" à decisão
do Supremo: "Prova que a guerra fiscal não parou".
No Rio de Janeiro, empresas do setor aéreo continuam comprando
querosene de aviação mais barato do que em outros Estados,
apesar do veto do Supremo à lei que garante o benefício.
O Estado cobrava 4% de ICMS. No início de julho, um novo decreto
fixou alíquota de 12% para o combustível no Rio, ainda
abaixo do que outros Estados cobram.
OUTRO LADO
Benefício já foi cancelado, diz SP; Rio não
comenta
DE
SÃO
PAULO
O Estado
de São Paulo afirma que o benefício ao setor
leiteiro é "um mecanismo de defesa, não de ataque" e
que o Estado defende a neutralidade de incentivos.
"Em 2008, São Paulo teve que conceder benefícios em
função de vantagens concedidas noutros Estados, que
estavam prejudicando o produtor paulista", diz o coordenador
da Administração Tributária da Secretaria de
Fazenda, José Clóvis Cabrera.
Depois disso, outros Estados ampliaram benesses aos fabricantes: "No
começo deste ano a situação ficou incontornável
e São Paulo teve que rever o beneficio anterior".
Por isso, segundo Cabrera, o incentivo vetado pelo Supremo já havia
sido cancelado antes do julgamento. "O Estado está entrando
com informações para dizer ao Supremo que esse beneficio
já havia sido revogado", diz.
A Procuradoria Geral do Estado do Rio de Janeiro afirmou, por meio
de nota, que já "enviou orientação para
cumprimento de todas as decisões" do STF. Sobre o novo
decreto sobre o preço do querosene de aviação,
a assessoria do Estado informou que "não comentará" o
assunto.
O Espírito Santo informou, por meio de nota, que vai entrar
com recurso, no próprio Supremo, contra a suspensão
dos benefícios aos avicultores e suinocultores.
A assessoria do governo de Mato Grosso do Sul afirma que a decisão
do Supremo atingiu benefícios que não eram usados desde
2003 e que a edição da nova lei foi feita para validar
vantagens antes dessa data, a fim de dar segurança jurídica às
empresas: "A decisão do Supremo foi acatada".
|