Folha
de São Paulo, 12 de março de 2011 - Primeiro
Opinião - Seção: Editoriais - Pág.
A2
Editoriais
FERNANDO RODRIGUES
Peleguismo em debate
BRASÍLIA - País da boquinha estatal, o Brasil tem
um acerto histórico a fazer com a herança getulista.
Aqui, goste ou não do seu sindicato, o trabalhador formal
está obrigado a contribuir com uma taxa anual -descontada
de seu salário de forma compulsória.
Ontem, uma novidade. Numa reunião com sindicalistas, Dilma
Rousseff ouviu uma proposta da CUT: acabar com o imposto sindical
e criar uma "taxa negocial". Nesse novo modelo, o dinheiro
só seria recolhido depois de a contribuição
ter sido aprovada em assembleias de trabalhadores.
Não há como saber se a CUT fala para valer, se a proposta
vingará nem se Dilma Rousseff vai colocar a mão nessa
cumbuca.
Também está claro que a CUT e seus sindicatos filiados
serão os maiores beneficiados da mudança. Ligada historicamente
ao PT, as fontes de financiamento dessa central são mais azeitadas
do que as de agremiações concorrentes.
O fim do imposto sindical seria uma catástrofe para grande
parte das centrais. Acostumadas a mamar na verba automática,
teriam de disputar o apoio voluntário dos trabalhadores da
noite para o dia.
Mesmo com todas essas ressalvas e quase impossibilidades práticas
para que seja enterrado o imposto sindical, é bom o tema ter
sido abordado numa reunião com a presidente da República.
Hoje, milhões de trabalhadores experimentam um pouco de raiva
no dia em que o desconto do imposto sindical surge em seus contracheques.
Passa algum tempo, todos se esquecem. Menos os dirigentes pelegos
de boa parte dos sindicatos, viciados no dinheiro fácil.
Ontem, teve sindicalista deslumbrado porque Dilma Rousseff mandou
servir suco aos presentes na reunião. Se o Brasil tivesse
um modelo trabalhista independente, essa turma não iria mendigar
migalhas no Planalto. O fim do imposto sindical é o primeiro
passo para um sistema sindical mais digno.
fernando.rodrigues@grupofolha.com.br
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