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Estado
de Minas, 31 de janeiro de 2011 - Primeiro Caderno
- Seção:
Gerais
Chacina
de Unaí completa sete anos à espera
da Justiça
Alessandra Mello - Estado de Minas Helba
Soares da Silva, 47 anos, perdeu o marido, o auditor fiscal do trabalho
Nelson José da Silva, de forma brutal. Vítima
de um crime de destaque internacional, Nelson e outros dois auditores,
Eratóstenes de Almeida Gonçalves e João Batista
Soares Lage, além do motorista Ailton Pereira de Oliveira, foram
tocaiados em uma estrada rural de Unaí, a 580 quilômetros
de Belo Horizonte, Noroeste de Minas Gerais, e fuzilados, em plena luz
do dia. Apesar da repercussão, a Chacina de Unaí, como
o caso ficou conhecido nacionalmente, até hoje não foi
julgada em nenhuma instância. O crime completa nesta sexta-feira
sete anos.
“Estou esperançosa que finalmente este ano os acusados
sejam julgados. Durante todos esses anos eles tiveram acesso à mais
ampla defesa, ao contrário do que aconteceu com meu marido, que
foi assassinado brutalmente, de forma fria e cruel, sem nenhuma chance
de se defender”, afirma a comerciante Helba. Até hoje a
viúva de Nelson mora em Unaí e de vez em quando tem de
se encontrar com o principal acusado da chacina, o prefeito reeleito
da cidade, Antério Mânica (PSDB). Considerado um dos maiores
produtores de feijão do país, o prefeito e seu irmão,
Norberto Mânica, também fazendeiro, eram alvos freqüentes
de fiscalizações para coibir exploração de
trabalhadores rurais, a maioria delas realizadas por Nelson.
“Logo após o crime minha família quis que eu me
mudasse da cidade, temendo represálias, mas me recusei. Não
ia sair fugida, abandonar minha casa e a minha vida. Não fiz nada
de errado. Pelo contrário, fui uma da principais vítimas
de um crime horrível”, afirma Helba. Nos primeiros anos,
ela conta que sempre que se encontrava com Antério fazia um escândalo. “Xingava
mesmo, partia para cima, brigava. Agora isso não acontece mais,
pois ele não vai nos locais onde sabe que pode me encontrar”,
relata Helba, que participa nesta sexta-feira em Belo Horizonte de uma
manifestação em frente ao prédio da Justiça
Federal para exigir a marcação do julgamento.
Segundo
a viúva, no início do processo, quando começaram
os sucessivos adiamentos em função dos recursos, a família
ficou muito pesarosa. “No começo, a demora teve um lado
bom que acabou ajudando, pois conseguimos novas provas e testemunhas
que reforçam a tese da acusação. Mas já passou
da hora de o julgamento acontecer.” A reportagem não conseguiu
localizar o prefeito de Unaí para falar sobre o assunto.
Em
dezembro, segundo a presidente do Sindicato Nacional dos Auditores
Fiscais do Trabalho (Sinait), Rosangela
Rassy, o Superior Tribunal de
Justiça apreciou os últimos dos recursos impetrados pelos
acusados para tentar impedir que o processo seja analisado pela Justiça
Federal na capital mineira. “Todas as nossas expectativas são
positivas no sentido de que o julgamento aconteça este ano. Durante
sete anos trabalhamos para que esse julgamento fosse realizado, mas os
réus se locupletaram da estrutura da Justiça brasileira,
que permite diversos recursos, para tentar adiar o julgamento. Mas, como
todos os recursos já foram julgados e negados, queremos que o
júri aconteça o mais rápido possível, pois
se trata de um crime de homicídio.”
Durante
cinco anos, a defesa dos acusados entrou com dezenas de recursos na
Justiça Federal, Supremo Tribunal Federal e STJ para tentar
transferir o julgamento para Patos de Minas. O evento desta sexta-feira
vai pedir que o julgamento dos nove acusados seja marcado com urgência,
já que todos os recursos dos réus foram apreciados e negados
em instâncias superiores. Cinco mil balões brancos serão
soltos durante o ato, que comemora também o Dia Nacional de Combate
ao Trabalho Escravo, instituído na mesma data da chacina, como
forma de homenagem aos fiscais assassinados.
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