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Estado
de Minas, 29 de março de 2011 - Primeiro Caderno
- Seção:
Economia -
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BRASIL S/A
Ditadura do caixa
Governo
descobre o pé para cobrir a cabeça ao aumentar
o IOF sobre gastos no exterior com cartão
Antônio Machado
O governo trabalha com duas prioridades que supostamente tiram da frente
todas as outras: a inflação alta e o viés de valorização
do real. Tais objetivos são conflitantes, embora essenciais, exigindo
perfeita afinação dos instrumentos da política econômica.
É isso o que a Fazenda e o BC deveriam ter considerado ao levar à assinatura
da presidente Dilma Rousseff o decreto que aumentou de 2,38% para 6,38%
a alíquota do Imposto sobre Operações Financeiras
(IOF) incidente sobre os gastos com cartão de crédito no
exterior.
A decisão contraria a intenção de segurar a depreciação
do dólar, o que é combatida com uma mistura de ações
que impliquem a redução das entradas de divisas e aumentem
as saídas. O aumento dos custos das viagens internacionais está na
mão oposta dessa estratégia.
Os economistas do governo sabem disso e não a tomaram pensando
na taxa cambial. A medida se destina, exclusivamente, a gerar caixa e
assim compensar a correção de 4,5% da tabela do Imposto
de Renda – despesa não contemplada no orçamento federal
de 2011, mas acertada pela presidente com as centrais sindicais como
troca pelo reajuste do salário mínimo para R$ 545. Os sindicalistas
queriam mais.
A preocupação do governo em não esticar as contas
fiscais sem que haja provisão de receita revela uma gestão
responsável. Se tivesse havido tal preocupação nos últimos
dois anos do governo Lula, tais problemas não existiriam, e Dilma
estaria à vontade para governar.
Paciência: ela só pode decidir com base no que tem. Mas
que então os operadores da política econômica não
queiram induzir a imprensa a outras conclusões, como se deu na
véspera do aumento do IOF, que coincidiu com o anúncio
das contas externas do país em fevereiro.
Na apresentação dos resultados, o BC destacou o aumento
do gasto com viagens ao exterior: US$ 3,07 bilhões no bimestre,
volume 38% superior ao de igual período do ano passado. Daí para
a aparente relação entre tal fato e o IOF foi um pulo.
E se leu coisas assim: “gasto no exterior cresce e IOF sobe”.
Não há esse nexo causal.
Havia quando o país vivia crises crônicas de escassez de
divisas, levando os governos a administrar o câmbio, a promover
leilões de moeda para o importador, a forçar estatais a
se endividar lá fora e a racionar a venda de dólares para
os turistas. Poucos devem se lembrar de que houve época em que
só se podia comprar US$ 500 por pessoa, e cartão de crédito
era válido apenas no Brasil.
A economia no córner
Hoje, problema não é dólar escasso no Brasil, mas
sua abundância. Esse é um termo da equação
que põe a política econômica no córner. O
outro é político. Para governar, Dilma vai ter de fazer
escolhas sobre quem paga a fatura das decisões, diferentemente
de Lula.
Ele encontrou no segundo mandato folga fiscal e crédito farto
nos bancos públicos para atender a maioria das demandas sem precisar
arbitrar sobre quem recairia o custo. A consequência do orçamento
apertado, além da necessidade de reprimir a demanda para a Selic
não disparar, é que Dilma precisará negociar com
sua base aliada, o empresariado e os grupos sociais como Lula jamais
precisou.
Estátua por encargos
Pegue-se uma das promessas de Dilma em sua campanha eleitoral: a desoneração
dos encargos sociais sobre a folha salarial. Na última reunião
do Grupo de Avanço da Competitividade, o ministro Guido Mantega
afirmou aos empresários presentes que o governo vai fazer essa
reforma, ouvindo elogios do industrial Jorge Gerdau.
“Se vocês fizerem isso, vão merecer uma estátua”,
disse, com a ressalva de que não poderia haver aumento de carga
tributária. Ao governo a condição é que ela
não baixe. Trata-se, portanto, de se achar outra distribuição
do ônus tributário. Estima-se que a parte empresarial da
contribuição ao INSS corresponda a R$ 95 bilhões.
A colcha de retalhos
De onde sairá o custeio do INSS, se a desoneração
for completa e beneficiar as empresas em geral, e não só as
exportadoras, como se cogitou no início dessa discussão?
A idéia é aumentar as alíquotas do PIS/Cofins, cuja
arrecadação foi de R$ 180,2 bilhões em 2010.
Em tal caso, a desoneração total da contribuição
patronal ao INSS equivale a 53% dessa receita. A quanto teria de chegar
a alíquota? Parece inviável recuperá-la só inchando
o PIS/Cofins. Assim está o governo: descobrindo o pé para
cobrir a cabeça. É o que se fez com o IOF sobre pagamentos
internacionais com cartão. E até a inflação
leva na cabeça, já que também o IPI sobre cerveja,
refrigerante e água mineral foi aumentado. Está virando
colcha de retalhos.
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