Estado de Minas, 13 de abril de 2011 - Primeiro Caderno - Seção: Gerais - Pág. 13

Ernesto Braga
Receita da morte

Força-tarefa prende donos do laboratório Hipolabor, com sede em Sabará, por sonegação fiscal, formação de cartel e adulteração de remédios que teriam tirado a vida de duas pessoas

A Operação Panaceia (remédio para todos os males), encabeçada pelo Ministério Público Estadual (MPE), prendeu ontem Ildeu de Oliveira Magalhães, presidente da indústria mineira Hipolabor Farmacêutica, e seu sócio, o químico Renato Alves da Silva. Eles são acusados de vários crimes, entre eles o de adulteração e falsificação de medicamentos que teriam matado duas pessoas em Santa Luzia, na Região Metropolitana de BH, e causado problemas neurológicos em outras quatro. A prisão é resultado de uma investigação iniciada em novembro de 2009 pelo MPE, depois de denúncias de que os remédios estariam matando pacientes.

Ildeu foi detido em seu luxuoso apartamento triplex, no Bairro de Lourdes, na Região Centro-Sul da capital, avaliado em R$ 6 milhões, e Renato no Belvedere, na mesma região, no confortável apartamento onde mora, que custou R$ 2 milhões. O MPE achou indícios que relacionam o “enriquecimento vertiginoso” dos dois ao esquema de falsificação praticado desde 2000. A farmacêutica Larissa Pereira, da Sanval, empresa ligada à Hipolabor, foi presa e um colega farmacêutico detido para averiguação.

As mortes comprovadas dos dois pacientes que usaram remédios falsificados e adulterados – anestésicos, analgésicos e anticoagulante – e outras que estão sendo investigadas, entre elas uma no Espírito Santo, são a ponta do novelo desenrolado pelo MPE ao investigar a Hipolabor. Ildeu e Renato também são acusados de lavagem do dinheiro arrecadado com a falsificação de medicamentos e sonegação fiscal. O prejuízo ao fisco estadual causado pela empresa nos últimos 10 anos é estimado em R$ 600 milhões, segundo o promotor Christiano Leonardo Gonzaga Gomes, da comarca de Sabará, na Grande BH, onde fica a sede da indústria.

Os remédios produzidos com princípios ativos falsos eram vendidos a preços subfaturados e, com isso, a empresa pagava menos impostos. Eles ainda poderão responder por formação de quadrilha e fraude em licitações públicas. A pena prevista chega a 29 anos de prisão.

A Secretaria de Direitos Econômicos, do Ministério da Justiça, conduz investigação paralela à do MPE de formação de cartel entre a Hipolabor e pelo menos outras sete indústrias do ramo farmacêutico, de Minas, São Paulo, Goiás e estados do Nordeste. O esquema, segundo o promotor Christiano Gomes, era chefiado por Ildeu. As empresas combinavam qual ofereceria o menor preço para vencer os pregões, prática fraudulenta adotada inclusive em certames abertos pela Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais.

Além dos mandados de prisão contra Ildeu e Renato, a força-tarefa formada pelo MPE, Receita Estadual, polícias Militar e Civil e Ministério da Justiça cumpriu ontem seis mandados de busca e apreensão nas residências dos acusados e sedes da Hipolabor, às margens da BR-381, no Bairro Borges, em Sabará, e nos bairros Eymard e Cidade Nove (Nordeste da capital) e Castelo (na Pampulha). Os mandados foram expedidos pela juíza Cláudia Costa Cruz Teixeira, da 2ª Vara Cível/Criminal de Sabará.

No apartamento do presidente da Hipolabor houve apreensão de vasta documentação, papéis que comprovam a existência de contas bancárias do empresário no exterior, 112 mil euros (R$ 257,6 mil) e US$ 30 mil (R$ 47,6 mil), dinheiro sem origem comprovada. “Há suspeita de que seja fruto de ações ilícitas”, afirmou o promotor Rogério Filippetto, coordenador do Centro de Apoio às Promotorias de Defesa da Ordem Econômica e Tributária. Também foi achado um revólver calibre 32. “Ele (Ildeu) afirmou ter registro da arma, mas não o apresentou”, disse o delegado Denilson Gomes, do Centro de Apoio Operacional do MPE.

HISTÓRICO As investigações do MPE foram feitas pelos promotores Christiano Gomes e Ana Carolina Pinto Coelho. Ambos atuam em Sabará e iniciaram a apuração depois de receber as denúncias das mortes das pessoas que fizeram uso dos medicamentos adulterados e com base no enriquecimento ilícito de Ildeu e Renato. Os promotores foram coordenados por Renato Froes, da Promotoria de Defesa da Ordem Econômica e Tributária. “Descobrimos um histórico de autuações fiscais envolvendo a Hipolabor, que chamamos de empresa-mãe, e outras duas que fazem parte do grupo: a Sanval, laboratório de São Paulo, e Rhamis, distribuidora de medicamentos mineira, todas de propriedade de Ildeu”, disse Renato Froes.

Nos últimos oito anos, segundo ele, a Receita autou as empresas em R$ 4 milhões por irregularidades fiscais. “Hoje (ontem), a comarca de Sabará recebeu outra denúncia de prática de crime contra a ordem tributária pela Hipolabor, com rombo de R$ 9 milhões ao erário”, disse o promotor. De acordo com o subsecretário da Receita Estadual, Gilberto Silva Ramos, já está comprovado prejuízo de R$ 19 milhões em sonegação fiscal praticada, desde 2008, pela indústria. “Ainda temos 70 gigabites de arquivos ocultos da empresa para analisar se o prejuízo vai aumentar”, avaliou.

Fundada em 1984, a Hipolabor tem faturamento anual de R$ 300 milhões, segundo o promotor Christiano Gomes. No fim do ano passado, foi especulada a venda dos ativos da empresa, especializada em produtos hospitalares e comercialização de medicamentos, incluindo genéricos, supostamente por problemas financeiros, por causa das constantes notificações da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) de irregularidades sobre a qualidade dos produtos. Laboratórios farmacêuticos do Japão e Itália estariam interessados em adquirir a Hipolabor. “A Anvisa também faz parte dessa força-tarefa e busca descobrir o controle paralelo de falsificação de medicamentos”, afirmou o promotor Renato Froes.

EMPRESA ESPERA APURAÇÃO

A direção da Hipolabor não quis falar sobre as acusações que resultaram na prisão do presidente, Ildeu de Oliveira Magalhães, e do sócio Renato Alves da Silva. No começo da noite, a empresa divulgou nota, informando que “a Hipolabor atua no mercado farmacêutico desde 1984, fornecendo produtos com qualidade comprovada através das certificações ISO 9001 e Boas Práticas de Fabricação, sendo esta emitida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa)”. Segundo a nota, todos os produtos fabricados e comercializados são registrados no Ministério da Saúde/Anvisa. A direção da Hipolabor informa que vai aguardar as apurações para prestar esclarecimentos necessários à população.

reportagem de capa

MP investiga teia de fraudes

Denúncia de participação do laboratório Hipolabor em cartel para fraudar concorrências pode levar à prisão de outros envolvidos no esquema e incriminar mais empresas do ramo
Ernesto Braga
Valquiria Lopes

A investigação da denúncia de formação de cartel por indústrias farmacêuticas, comandado pelo presidente da Hipolabor, Ildeu de Oliveira Magalhães, e seu sócio, Renato Alves da Silva, ainda pode resultar na prisão de outros envolvidos no esquema, segundo o promotor Renato Froes, de Defesa da Ordem Econômica e Tributária do Ministério Público Estadual (MPE). Dois farmacêuticos que trabalham no grupo industrial foram encaminhados à Polícia Civil para averiguações. “Investigamos mais seis ou sete empresas do ramo e a participação de sócios do Ildeu em cada uma. São laboratórios e distribuidores de medicamentos de Minas, São Paulo, Goiás e Nordeste do país. Os nomes das empresas são mantidos sob segredo de Justiça”, disse.

Como a denúncia inclui empresas de fora de Minas, o Ministério da Justiça faz uma investigação paralela à do MPE. A secretária de Direito Econômico do ministério, Ana Maria Melo Netto, esteve ontem em Belo Horizonte para acompanhar a Operação Panaceia. Segundo ela, as empresas que fazem parte do cartel criavam estratégias para combinar qual ofereceria o menor preço em licitações públicas, se tornando a vencedora dos pregões. Com a combinação, o valor dos medicamentos era superfaturado em 20%. “A comunicação era por meio de e-mails, mensagens de texto e pessoas foram flagradas em ligações feitas no momento das licitações”, disse a secretária.

O promotor Christiano Leonardo Gonzaga Gomes, da comarca de Sabará, que recebeu as primeiras denúncias contra a Hipolabor, afirmou que pessoas que fazem parte do cartel têm grande influência dentro de prefeituras de Minas, São Paulo e Espírito Santo, o que facilita a ação do grupo. De acordo com Renato Froes, foram identificadas fraudes contra licitações abertas pela Secretaria de Estado de Saúde de Minas. “Não identificamos envolvimento de servidores públicos no esquema”, disse. Ana Maria Netto ressalta que, se comprovada a fraude, as empresas que compõem o cartel podem ser multadas em 1% a 30% do seu faturamento. “As pessoas envolvidas estão sujeitas a prisão de dois a cinco anos e multa de até 50% do valor aplicado às empresas.”

Grávida morreu depois de anestesia

Passados cinco anos da morte de duas pacientes que se submeteram a procedimentos cirúrgicos com uso de medicamento injetável produzido pelo laboratório Hipolabor Farmacêutica, familiares das vítimas ainda travam uma batalha na Justiça por reparação de danos. Operadas no Hospital São João de Deus, em Santa Luzia, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, Zélia Pereira Eupídio, na época com 34 anos, e Jenicleide da Silva Santos, entraram em coma após a aplicação do anestésico Tradinol Pesado (cloridrato de bupivacaína). Mesmo tendo sido transferidas para leitos de centro de tratamento intensivo (CTI) de hospitais da capital, as duas não resistiram. Além das duas mortes, quatro pessoas apresentaram problemas neurológicos após contato com o anestésico.

Nas ações impetradas pelos familiares das vítimas são réus tanto o laboratório quanto a unidade hospitalar. “Minha mulher entrou bem no hospital. Iria dar à luz nosso terceiro filho e tudo estava bem. Ela teve acompanhamento de pré-natal durante toda a gravidez e faria um parto normal. Como a criança virou às vésperas do parto, teve que fazer uma cesariana. A partir daí, todos os problemas da minha família começaram”, conta o marido de Zélia, o entregador Florivaldo Vítor do Nascimento, de 38. Conforme a denúncia do Ministério Público, a paciente deu entrada no Hospital São João de Deus no dia 10 de março de 2006 para o parto, mas apresentou sintomas de alterações neurológicas e entrou em coma. Transferida para o Hospital Evangélico, em Belo Horizonte, morreu em 18 de março.

“Nunca fui procurado pelo hospital nem pelo laboratório. Eu e meus três filhos passamos por dificuldades, porque não tinha dinheiro para pagar uma babá e precisava trabalhar. Contei apenas com a ajuda de amigos e parentes”, disse o entregador. Segundo ele, a dor psicológica da família também foi muito grande. “Mudei com minha família para Sete Lagoas, porque não conseguia viver mais em Santa Luzia. Minha filha mais velha, que na época da morte tinha 7 anos e hoje está com 12, me ligava quando eu saía para trabalhar, dizendo que estava com medo de ficar sozinha e de me perder. Quero que isso tudo seja reparado”, cobra Nascimento. O processo está na fase de instrução e julgamento e a expectativa do advogado dele, Renato Humberto Lino de Araújo, é que em três anos seja dada a sentença definitiva.

De acordo com o defensor, o medicamento usado para anestesia na cirurgia de Zélia foi encaminhado para análise na Fundação Ezequiel Dias (Funed). “O laudo da instituição atestou que as condições de esterilidade bacteriana e fúngica do produto eram insatisfatórias e que havia partículas de impurezas no medicamento”, disse o advogado. Em novembro de 2006, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determinou a suspensão e comercialização do cloridrato de bupivacaína em Minas.

CONTRACEPÇÃO Um dia após as complicações no parto de Zélia, a paciente Jenicleide Silva Santos também seguiu um caminho sem volta ao dar entrada no Hospital São João de Deus, em 11 de março de 2006. Internada para submeter-se a uma cirurgia de contracepção, com uso da bupivacaína, Jenicleide apresentou manifestações neurológicas, teve convulsões e entrou em coma. Transferida para o Hospital Risoleta Neves, na capital, ela teve alta no dia 30 do mesmo mês, mas ficou com sequelas em decorrência do uso do medicamento. Conforme consta a denúncia do Ministério Público (MP), ela tinha dificuldades para respirar, convulsões, insônia, dormência pelo corpo, perda de memória e fortes dores de cabeça. Jenicleide foi submetida a uma traqueostomia e passou a respirar com ajuda de aparelhos. Mas, conforme o MP, faleceu após uma crise de tosse por causa da oclusão da traqueostomia.

De acordo com o advogado do Hospital São Judas Tadeu, Mário de Souza Aguirre, a unidade responde na Justiça pelo dois casos. “Temos interesse em esclarecer as mortes, porque não houve erro na administração dos medicamentos. Há uma ação contra o laboratório, pedindo indenização por danos materiais no valor de R$ 500 mil, o que equivale à queda histórica com internações após os fatos. A repercussão desse caso foi grande e muito ruim”, disse Aguirre. Os medicamentos Parinex (heparina sódica), com ação anticoagulante, e Lidol (neperidina), que é analgésico, também produzidos pelo Hipolabor, ainda estão sendo submetidos a análise, por suspeita de adulteração.

Fiscalização

Mesmo com a determinação de suspensão de um lote do medicamento Parinex, a interdição cautelar aplicada a um lote do analgésico Lidol e o cancelamento do registro de fabricação do cloridrato de bupivacaína, a pedido da própria empresa, a Secretaria de Estado da Saúde informou não ter visto motivos para interferir no funcionamento da Hipolabor. Por meio de nota, a SES informou que, “até o momento não havia sido detectada situação passível de medidas que gerassem a suspensão ou cancelamento de registro de medicamentos, ou até mesmo do alvará de funcionamento e dos termos de autorização de funcionamento junto à Anvisa”. Ainda conforme o texto, “isso não impede que outros órgãos públicos, como Ministério Público e Polícia Federal, promovam investigações, apurações de denúncias, entre outros procedimentos”.