Diário
do Comércio, 24
de janeiro de 2011 - Primeiro Caderno -
Seção:
Agronegócio - Pág.
18
Tributos
afetam a produção
em Minas
Fabricação encontra-se estagnada há três
anos; execesso de impostos tira competitividade do produto.
MICHELLE VALVERDE.
A produção de cachaça em Minas Gerais ficou estagnada
em 2010. O Estado, que produz cerca de 60% da bebida artesanal do país,
tem a competitividade reduzida pelo excesso de impostos incidentes sobre
a cachaça de alambique. A manutenção dos resultados
se deve ao desestímulo dos produtores que questionam a alta taxação
dos produtos e limitam os investimentos na expansão dos alambiques.
Além de enfrentarem a estagnação, os produtores
também estão perdendo espaços nos supermercados,
isso devido à alíquota do Imposto sobre Produtos Industrializados
(IPI) incidente na cachaça mineira comprometer a competitividade
frente às bebidas industrializadas. A expectativa é que
o novo governo estadual interfira no setor reduzindo, pelo menos, o Imposto
sobre Circulação de Mercadorias e Prestação
de Serviços (ICMS), que hoje tem alíquota de 12%.
Segundo o presidente da Associação Mineira dos Produtores
de Cachaça de Qualidade (Ampaq), Alexandre Wagner da Silva, investir
na abertura e legalização de alambiques em Minas Gerais
tornou-se praticamente inviável. Além da alta tributação
cobrada das empresas regulamentadas e da vigilância acirrada, a
concorrência com os alambiques irregulares são os principais
entraves para a expansão do segmento. Os impostos podem representar
até 80% do valor final de comercialização do produto.
De acordo com Silva, somente o IPI representa
cerca de 30% do preço
médio do litro de cachaça artesanal. O valor cobrado varia
entre R$ 2,50 e R$ 3 dependendo da qualidade do produto, região
e tipo de embalagem. Enquanto esse produto é sobretaxado, a cachaça
industrial paga entre R$ 0,15 e R$ 0,20 por litro.
Modelo
falho - Outro questionamento do presidente da Ampaq é em
relação á forma de cobrança, já que
em todo o mundo a alíquota depende do percentual alcoólico
da bebida e no Brasil é definida pelo volume embalado. "O
governo federal precisa rever a cobrança do IPI para o produto
artesanal. A forma mais correta é avaliando o teor alcoólico.
O atual modelo além de comprometer a geração de
lucro estimula a produção de cachaça artesanal clandestina",
explicou Silva.
Segundo a Ampaq, o Estado responde por
60% da produção
de cachaça artesanal do país, possuindo cerca de 9 mil
produtores. Desse montante, menos de 10% dos alambiques é legalizado.
Os principais motivos atribuídos ao alto nível de clandestinidade
são a cobrança de impostos e a fiscalização
acirrada sobre as empresas regulamentadas.
"O produtor que investe na legalização dos negócios,
nos processos produtivos e na qualidade e apresentação
da cachaça artesanal acaba sendo penalizado com um volume expressivo
de impostos e uma fiscalização forte, o que retira a competitividade
do setor se comparado com as bebidas industrializadas e as empresas clandestinas",
disse Silva.
A produção de cachaça artesanal no Estado está estagnada
há três anos. Em 2010 foram produzidos 240 milhões
de litros da bebida. O preço médio de comercialização
de uma garrafa de 700 ml do produto é de R$ 10, sendo o valor
da bebida industrializada de R$ 2.
De acordo com os dados da Ampaq, para
construir um alambique de pequeno porte, com capacidade produtiva de
50 mil litros por ano, são
necessários investimentos iniciais próximos a R$ 300 mil.
O retorno é obtido em no mínimo em cinco anos.
"O governo precisa dar atenção maior para a produção
de cachaça artesanal. O setor além de gerar diversos empregos
já tem um mercado consumidor promissor, que pode ser ampliado
com preços mais competitivos. Minas Gerais tem como um dos atrativos
turístico a cachaça artesanal, o problema é que
a grande maioria dos alambiques funciona de forma irregular", avaliou
Silva.
Segundo Silva, estão nos planos do governo estadual a retomada
do projeto Pro-Cachaça e a redução da alíquota
do ICMS de 12% para 6%. ôCaso a alíquota realmente seja
reduzida vamos ganhar um fôlego e a procura pela legalização
pode ser novamente aumentadaõ, disse Silva.
Mercado
concorrido - Há mais de 17 anos produzindo a Cachaça
Coluninha, no município de Coluna, na região do Rio Doce,
o proprietário da marca, Silvio Garcia de Aguiar, se sente desestimulado
a investir na ampliação da produção. Por
ano são produzidos cerca de 50 mil litros de Cachaça Coluninha,
o mercado atendido pela empresa é o nacional.
O produtor que chegou a comercializar
a cachaça artesanal em
hipermercados, como o Carrefour e o Extra, atribui a queda na demanda
aos preços elevados do produto. A cobrança do IPI fez com
que os supermercados citados suspendessem a compra da cachaça
devido ao custo elevado com o imposto. Para o empresário, a falta
de incentivos dos governos federal e estadual reduz a competitividade
do setor e estimula a criação de empresas clandestinas.
O empresário destinava cerca de 25% da produção
ao mercado internacional. Porém com a crise financeira mundial
em 2009, os embarques foram suspensos. A expectativa do produtor era
retomar as exportações em 2010, o que foi inviabilizado
pela valorização do real frente à moeda norte-americana.
As negociações com o mercado internacional são consideradas
mais vantajosas por Aguiar, já que a cachaça de alambique
fica livre das cobranças de IPI e ICMS.
"A cachaça artesanal é um produto tradicional e característico
de Minas. Em outros estados onde o produto não é tão
característico, como na Bahia, o governo vem estimulando a produção
e as empresas de cachaça artesanal estão adquirindo competitividade
e ocupando uma parcela cada vez maior no mercado. O que falta em Minas é uma
política mais efetiva para desenvolver a competitividade e atrair
fornecedores de insumos, como garrafas", disse Aguiar. |