Diário
do Comércio, 9
de fevereiro de 2011 - Primeiro Caderno -
Seção:
Legislação&Tributos - Pág.
26
Reforma
tributária não
tem consenso
Fragmentação criou mais divergências
entre especialistas e parlamentares sobre o que deve ser priorizado.
LÍDIA
REZENDE.
A
possibilidade de realização de uma reforma fragmentada,
em vez de uma ampla alteração no sistema tributário
do país, tem provocado divergências em relação às
modificações que devem ser priorizadas pelo governo federal.
Apesar de ter assumido o compromisso de restaurar o atual modelo tributário
durante seu mandato, a presidente Dilma Rousseff ainda não elaborou
de forma concreta as primeiras medidas a serem adotadas. A indefinição
gerou incertezas com relação à execução
da reforma nos próximos quatro anos e abriu brechas para a divisão
de opiniões entre especialistas, empresários e oposição.
De acordo com o presidente do Instituto
Brasileiro de Planejamento Tributário
(IBPT), João Elói Olenike, a redução das
alíquotas dos impostos que incidem diretamente sobre o consumo
proporcionariam efeito mais imediato sobre a economia brasileira, já que
atenderia à urgente necessidade de compensação cambial
por parte da indústria nacional.
"O IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) poderia ser facilmente
diminuído de forma definitiva, sem nenhuma burocracia, uma vez
que a medida não depende de aprovação pelo Congresso,
dependendo apenas de decreto presidencial. A redução do
preço dos produtos, proporcionada pela queda na tarifa, estimularia
o consumo, e em pouco tempo o aumento nas vendas faria com que o governo
recuperasse a perda na arrecadação", argumenta Olenike.
"Além disso, as alíquotas do Programa de Integração
Social (PIS) e da Contribuição para o Financiamento da
Seguridade Social (Cofins) poderiam ser reduzidas sem que houvesse danos
permanentes aos cofres públicos. Afinal, um país que tem
alcançado níveis cada vez maiores de arrecadação
pode arcar com uma diminuição de receita sem que haja prejuízos",
defende o presidente do IBPT.
A receita com tributos foi recorde no
ano passado, chegando a R$ 1,27 trilhão, uma alta de 15,9% na comparação com o R$
1,09 trilhão arrecadado em 2009. Nos primeiros 26 dias de 2011,
o recolhimento de impostos alcançou a marca dos R$ 100 bilhões.
O valor foi atingido com dois dias de antecedência em relação
ao ano passado e representa incremento de 3,8% na comparação
com o mesmo intervalo de 2010, segundo o Impostômetro, ferramenta
eletrônica desenvolvida pelo IBPT em parceria com a Associação
Comercial de São Paulo (ACSP).
Entre os tributos com maior volume de
arrecadação nos
26 primeiros dias do ano está o Imposto sobre Circulação
de Mercadorias e Prestação de Serviços (ICMS). A
receita com o imposto estadual totalizou R$ 19,763 bilhões, contra
R$ 17,945 bilhões no mesmo intervalo de 2010. O montante representa
alta de 10,1% no período.
"A alíquota do ICMS também pode ser reduzida sem
desequilibrar as contas públicas, principalmente por se tratar
de uma medida que beneficiaria significativamente as indústrias,
já que proporcionaria a queda dos preços das mercadorias.
No entanto, trata-se de um tributo estadual, que deve ser negociado com
cada uma das 27 unidades da Federação, o que torna o processo
mais moroso e delicado", explica Olenike.
Apesar de a redução da tributação sobre
o consumo ser considerada pelo presidente do IBPT como a melhor alternativa
diante da atual conjuntura econômica, ele admite que a medida não
deve ser a primeira escolha da presidente para o início da reforma.
"O governo já sinalizou que deve começar pela desoneração
da folha de pagamento salarial, baixando alguns pontos percentuais do
valor da contribuição para o Instituto Nacional do Seguro
Social (INSS), gradativamente. A alíquota passaria, aos poucos,
de 20% para 14%. Não é uma medida cujos efeitos são
observados de imediato, mas é um estímulo à formalização
do trabalho no país. Entretanto, para compensar as perdas em arrecadação,
o governo pretende criar outra contribuição, cuja cobrança
seria de 2% sobre o faturamento das empresas, o que anularia todos os
benefícios pretendidos com a desoneração da folha
de pagamento. Ou seja, na prática, a situação se
tornaria ainda pior, já que o valor recolhido através da
nova tarifa seria ainda maior do que o que é pago hoje",
diz Olenike.
Guerra fiscal - Já na avaliação do jurista e advogado
tributarista Ives Gandra Martins, a prioridade do governo deveria ser
a erradicação da guerra fiscal. "Enquanto houver esta
briga entre os estados, teremos uma Federação de inimigos.
Como o ICMS é um tributo estadual, as unidades federativas utilizam
o imposto como mecanismo de atração de investimentos, extinguindo
a isonomia que deveria haver", defende.
" preciso regulamentar uma norma que proíba a concessão
de incentivos fiscais de qualquer natureza pelos estados. O ICMS é um
tributo de vocação nacional que foi outorgado às
unidades da Federação e, portanto, não deveria comportar
tais benefícios. A criação de uma alíquota única
para todo o país eliminaria o problema. O tributo poderia ser
fixado em 18% e, no caso de transações interestaduais,
a partilha seria estabelecida em 9% para o estado produtor e 9% para
o estado consumidor", sugere Martins.
Embora a indústria de bens de capital seja um dos setores mais
afetados pelo câmbio sobrevalorizado, o diretor regional da Associação
Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq),
Marcelo Veneroso, argumenta que, antes de quaisquer reduções
ou desonerações, o governo deveria promover a simplificação
das cobranças tributárias.
"A redução do ICMS certamente ajudaria o segmento
a retomar competitividade. No entanto, é importante destacar que
a burocracia existente para a apuração e pagamento de impostos
no país também onera significativamente as empresas. Na
comparação com um país de primeiro mundo, as companhias
brasileiras gastam cinco vezes mais tempo e mão de obra para apurar
tributos. E, além das despesas fixas para que se consiga efetuar
os pagamentos dentro da lei, há ainda a consultoria externa necessária",
diz Veneroso. "A simplificação do sistema de recolhimento
de impostos é crucial para que os efeitos promovidos por desonerações
e reduções de alíquotas sejam sentidos. Uma ação
não funcionaria sem a outra", completa.
Oposição continua descrente com execução
Apesar de
a presidente Dilma Rousseff ter se comprometido a executar medidas para a alteração do sistema tributário,
a oposição não acredita que a reforma fiscal saia
do papel dentro do prazo. "O argumento de que um plano de ações segmentadas é mais
eficiente do que um pacote de alterações profundo e extenso é válido,
já que, durante os oito anos do governo Lula, a propalada reforma
tributária nunca saiu do papel. Mas, por enquanto, é só isso
que sabemos, já que medidas e projetos concretos ainda não
foram definidos", avaliou o deputado federal por Minas Gerais Eduardo
Azeredo (PSDB).
Segundo ele, o motivo da descrença na promessa do atual governo
em executar a reformulação fiscal é o arquivamento
do projeto aprovado pelo Senado há oito anos. "Temos que
ter o pé atrás mesmo. Em 2003, os senadores se debruçaram
sobre este assunto e conseguiram aprovar um modelo de reforma em total
consenso entre oposição e situação. No entanto,
a proposta foi sepultada no momento em que chegou à Câmara
dos Deputados", argumentou Azeredo.
O pacote de medidas elaborado pelo Senado previa a implementação
das alterações em três etapas distintas: emergencial,
transitória e estruturante. Na primeira fase, estavam incluídas,
entre outras ações, o fim da cumulatividade da Cofins e
a desoneração dos bens de capital. A segunda fase serviria
para unificar a legislação do ICMS e preparar o sistema
para a etapa estruturante.
Na terceira e última parte, os impostos sobre a produção
seriam unificados através da criação do Imposto
de Valor Agregado (IVA), composto pelo IPI, ICMS e Imposto sobre Serviços
de Qualquer Natureza (ISSQN).
Apesar de nenhuma das alterações previstas na segunda
e terceira etapas ter sido colocada em prática nos últimos
oito anos, Azeredo afirmou que a oposição continuará cobrando
providências do governo.
"Não é porque as medidas não saíram
do papel que elas deixaram de ser importantes. A necessidade de uma reestruturação
do modelo fiscal continua urgente. O sistema tributário permanece
penalizando os mais carentes e inibindo o crescimento econômico
do país", defendeu o deputado federal.
"A desoneração da folha de pagamento deve ser promovida
o quanto antes. Apesar dos níveis recordes de criação
de emprego, apenas 50% dos trabalhadores brasileiros estão dentro
da formalidade, ou seja, com carteira assinada. Se houver uma medida
que elimine o excesso de encargos, a criação de empregos
formais será estimulada", disse. (LR) |