Folha de São Paulo, 24 de fevereiro de 2010 - Primeiro Caderno - Seção: Dinheiro - Pág. B4
Arrecadação tem melhor janeiro da história
Retomada da produção industrial e fim de parte das desonerações
fiscais adotadas em 2009 ajudam governo a obter R$ 72 bi
Receita de janeiro só perde para as de dezembro de 2009 e de 2007;
para o fisco, "em termos de arrecadação, já estamos
fora da crise"
EDUARDO RODRIGUES
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
No melhor janeiro da história para a arrecadação do
governo, a Receita Federal recolheu R$ 73,027 bilhões. Com a retomada
da produção industrial e o fim de parte das desonerações
adotadas no ano passado, o resultado do primeiro mês do ano superou
em 13,64% o valor arrecadado em janeiro de 2009, quando os efeitos da crise
internacional eram sentidos na economia brasileira.
Janeiro também marcou o terceiro melhor resultado de arrecadação
do fisco, só ficando atrás dos meses de dezembro de 2009 e
de 2007. Além disso, foi o quarto mês de crescimento na comparação
com o mesmo período do ano anterior, após longos 11 meses de
queda constante nas receitas federais.
"Em termos de arrecadação, já estamos fora da crise",
afirmou o coordenador de Análise da Receita, Raimundo Elói
de Carvalho, que lembrou que o resultado ainda não é suficiente
para reverter a queda acumulada em 12 meses, o que só deve ocorrer
no fim deste trimestre. "Esperamos que resultados positivos sejam tendência
ao longo do ano", completou Carvalho.
Segundo o fisco, apesar da base de comparação baixa (janeiro
de 2009), o crescimento no mês passado é decorrente da alta
das vendas no varejo, da recuperação da produção
industrial e da recomposição de alíquotas do IPI (Imposto
sobre Produtos Industrializados) após o fim da vigência de parte
das renúncias fiscais.
A primeira medida anticíclica dessa natureza adotada pelo governo
federal ocorreu por meio da redução do IPI incidente sobre
os automóveis, em dezembro de 2008.
Fim de incentivos
Desde outubro do ano passado, no entanto, apenas os carros com motor flex
1.0 contam com alíquotas menores do imposto, que devem ser totalmente
recompostas no final de março próximo.
Dessa forma, a arrecadação do IPI sobre automóveis no
mês passado alcançou R$ 288 milhões, com alta de 712,3%
em relação às receitas do tributo em janeiro do ano
passado.
Ainda assim, devido ao peso maior na economia, o setor financeiro foi o que
proporcionalmente mais contribuiu para o crescimento da arrecadação
em janeiro, sobretudo por meio da elevação nos pagamentos da
contribuição sobre lucros e do IOF (Imposto sobre Operações
Financeiras). Em outubro do ano passado foi instituída uma alíquota
de 2% na entrada de recursos estrangeiros no país.
Reforço extra
Além disso, o fisco contou com um reforço de caixa em janeiro
devido ao grande volume de pagamentos de ajustes do Imposto de Renda, por
parte de empresas que antecipam suas declarações ao longo do
ano e precisam fazer essa consolidação entre janeiro e março
do ano seguinte. Com aumento de 29,64% em relação ao mesmo
mês de 2009, essas receitas totalizaram R$ 1,975 bilhão.
"
Houve essa concentração em janeiro porque as empresas pagam
o imposto devido, acrescido pela taxa Selic mais 1% ao mês. Com a percepção
de que os juros podem aumentar, quem tinha dinheiro em caixa preferiu pagar",
explicou Carvalho.