Folha de São Paulo, 21 de fevereiro de 2010 - Primeiro Caderno - Seção: Dinheiro - Pág. B1
Fisco "blinda" grandes
grupos em ano eleitoral
Portaria sigilosa editada antes do Natal centraliza controle das auditorias
em
Brasília e reduz autonomia dos fiscais
| Leonardo Carvalho/Folha Imagem | |
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| Marcos Vinícius Neder, subsecretário do fisco e autor da portaria |
Autonomia
A Folha ouviu fiscais em diversas cidades. Muitos ainda não sabiam do
alcance das novas regras. Todos as criticaram, com expressões como "limitar", "inibir", "engessar" e "retirar
a autonomia" de seu trabalho. Na sua opinião, eles passarão
a fazer apenas relatórios e a cumprir ordens de cima.
Alegam que o delegado (autoridade local do fisco) e os auditores conhecem as
empresas de sua jurisdição e normalmente sabem quais precisam
ou não passar por auditoria.
Outro ponto levantado pelos fiscais é o risco de vazamento da lista
produzida em Brasília -o que traria constrangimentos a contribuintes
e à Receita.
Até este ano, como os dados não eram centralizados, nunca houve
uma relação de toda a programação de fiscalização
do país. Os dados eram tratados de forma restrita e independente por
cada uma das delegacias e unidades especiais
Frase
Não
adianta querer fiscalizar os grandes, é preciso saber fiscalizar
os grandes
MARCOS VINÍCIUS NEDER
subsecretário de Fiscalização da Receita Federal, autor
da portaria editada às vésperas do Natal que limita a atuação
de fiscais pelo país
Governo tentou interferir no fisco ao menos quatro vezes
DA
SUCURSAL DE BRASÍLIA
O governo tentou
interferir nos trabalhos de fiscalização da
Receita Federal em pelo menos quatro grandes casos entre o final de 2008 e
meados do ano passado: Ford, Santander, Petrobras e nas empresas da família
do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP).
Os dois últimos episódios tiveram ampla repercussão no
ano passado. Em relação à montadora americana e ao banco
espanhol, a Folha revela agora informações inéditas. A
começar pelos valores dos autos de infração sobre as duas
empresas, de R$ 1,2 bilhão e R$ 4 bilhões, respectivamente.
No caso da Ford, a ingerência partiu do ministro Guido Mantega. Em abril
do ano passado, Mantega pediu informações à cúpula
do fisco sobre uma auditoria na unidade da montadora na Bahia. Recomendou cuidado
no trabalho dos fiscais. Semanas depois, a Receita autuou a fabricante de automóveis,
alegando utilização indevida de incentivos fiscais. A reportagem
falou com três pessoas que participaram das conversas sobre o episódio,
sob a condição de não terem suas identidades reveladas.
Contaram que Mantega e o secretário-executivo do ministério,
Nelson Machado, pediram com todas as letras que a cúpula da Receita
tentasse reverter a multa. O ministro argumentou que um auto daquele valor,
em ano de crise global, iria dificultar novos investimentos da montadora no
país. No caso do Santander, executivos do banco levaram as reclamações
sobre a ação da Receita diretamente ao Planalto. Mais uma vez,
as queixas chegaram aos ouvidos de Mantega. No final de 2009, a Folha questionou
o ministro, que não negou as conversas no fisco.
"Converso com o secretário da Receita sobre várias empresas.
Não
posso declinar publicamente as empresas. Há empresas autuadas, multadas,
que reclamam, que acham que foram injustiçadas ou que estão sofrendo
alguma coisa. É natural que a gente converse, dentro da preservação
do sigilo fiscal", disse na época. "Conversei sobre várias
empresas. Mas não houve mudança de procedimentos, sobre nenhum
caso."
O episódio da família Sarney ganhou dimensão nacional
por conta do embate entre a ex-secretária do fisco Lina Maria Vieira
e a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil). Em entrevista à Folha, a ex-secretária
disse que a ministra havia lhe pedido, numa reunião a sós no
Palácio do Planalto, para "agilizar" a fiscalização
nas empresas do senador, o que Lina entendeu como um recado para encerrar logo
a investigação. Dilma negou o pedido e o encontro.
Ainda na gestão de Lina, o fisco aplicou um auto de infração
bilionário na Petrobras. O presidente da estatal, José Sergio
Gabrielli, foi ao presidente Lula dizer que a multa era um absurdo. Semanas
depois, Lina foi demitida do cargo. Procurados, Ford e Santander não
se manifestaram. (LS)
Colaborou CATIA SEABRA, da Reportagem Local
Marcos
Vinícius Neder, 51, subsecretário de Fiscalização
da Receita, diz que a centralização da programação
de auditorias melhorará o índice de acerto do órgão,
que já é de 90%. Isto é, hoje, de cada 10 fiscalizações,
em 9 os contribuintes são autuados.
"Eu preciso de setores que trabalhem essas informações [dados
dos contribuintes], para que o fiscal, ao sair para a fiscalização,
saia com efetividade, para não perturbar aquele que tem suas contas
em dia, aquele bom contribuinte", disse Neder à Folha.
Para ele, as delegacias do fisco não podem trabalhar isoladamente na
programação das fiscalizações e precisam ter maior
integração com as superintendências regionais e a sede. "Por
que é importante isso? Porque é muita informação.
Tenho que ter etapas, tenho primeiro que definir os setores mais estratégicos,
que volume de informações eu tenho, trabalhar esses dados e
definir os contribuintes."
A portaria RFB/Sufis 3.324/2009 prevê a seleção das fiscalizações
dos grandes e médios contribuintes para este ano e também para
2011. "Não quero melhorar o meu índice de acerto? Então
preciso da informação antes."
Para Neder, as críticas partem de quem desconhece o assunto. "Vou
controlar com metas um setor que não era tão controlado antes,
que é o setor da programação [da fiscalização]." Ele
rebateu afirmações de que as medidas não foram debatidas
e disse que houve duas reuniões com fiscais sobre o assunto no ano
passado.