Folha de São Paulo, 18 de fevereiro dde 2010 - Primeiro Caderno - Seção: Dinheiro - Pág. B2
PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.
Da crise financeira à crise fiscal
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Dúvidas crescentes quanto à sustentabilidade das contas públicas
devem forçar
os governos a iniciar o ajuste fiscal
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A
CRISE econômica mundial, que começou no sistema financeiro em
2007, ameaça converter-se em crise fiscal. Refiro-me principalmente
aos países desenvolvidos. Na maioria dos países de mercado emergente,
o quadro é mais favorável.
O problema é mais grave na Europa, onde diversas economias avançadas
e emergentes registram deterioração dramática em termos
de deficit público e nível de endividamento. A Grécia
parece ser apenas a ponta de um iceberg.
Os números são medonhos. Nos Estados Unidos, o deficit fiscal
alcançou quase 10% do PIB em 2009. No Reino Unido, mais de 14%. Na Espanha,
mais de 11%. Na França, quase 8% do PIB. A dívida pública
vem aumentando rapidamente nas economias desenvolvidas. Nos cinco países
atingidos por crises financeiras sistêmicas (Estados Unidos, Reino Unido,
Espanha, Irlanda e Islândia), a dívida pública aumentou
em média cerca de 75% em termos reais de 2007 a 2009.
Menos comentados são os dados de dívida externa bruta (dívida
pública e privada colocada no exterior) dos países desenvolvidos.
Estudo recente de Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff, que toma por base estatísticas
do FMI e do Banco Mundial, mostra que a dívida externa das economias
avançadas alcança, em média, nada menos que 200% do
PIB.
No caso da Europa desenvolvida, a razão dívida externa/PIB chega
a 266%! Na América Latina, notória por sua propensão a
crises de endividamento externo, a razão dívida externa bruta/PIB
está por volta de 50%. Parte considerável da dívida externa
dos europeus é dentro da Europa, o que pode mitigar o problema. Mas
não há dúvida de que a fragilidade das contas europeias
aumentou bastante nos anos recentes.
A desconfiança começa a rondar os desenvolvidos, especialmente
os europeus. A situação fiscal pré-crise já era
problemática em muitos desses países em razão do impacto
do envelhecimento da população sobre gastos públicos com
previdência e saúde. Com a crise de 2007-2009, as contas governamentais
foram fortemente afetadas pelas medidas de socorro ao sistema financeiro, pelos
programas de estímulo fiscal e pela própria recessão.
Os mercados estão ficando cada vez mais inquietos quanto à sustentabilidade
das contas públicas de vários países europeus. A Grécia é um
caso extremo, mas diversas outras economias estão sob suspeita, notadamente
Espanha, Portugal e Itália, mas também o Reino Unido e até mesmo
a França. Alguns analistas avaliam que as contas britânicas e
francesas se parecem mais com as italianas do que com as alemãs.
Essa situação cria um dilema delicado para os países desenvolvidos,
inclusive para os Estados Unidos. A recuperação da atividade
econômica ainda está longe de consolidada. Ela foi impulsionada
por políticas fiscais e monetárias ultra-expansivas, mas a demanda
privada continua relativamente fraca. Desse ponto de vista, parece prematuro
retirar os estímulos fiscais e monetários.
Por outro lado, as dúvidas crescentes quanto à sustentabilidade
e confiabilidade das contas públicas devem forçar os governos,
ou alguns deles, a iniciar o ajustamento fiscal antes que a recuperação
tenha se firmado. Cortes de gastos ou aumentos de impostos reforçariam
a confiança na solvência do governo, mas podem provocar uma recaída
na recessão.
PAULO NOGUEIRA BATISTA JR., 54, escreve às quintas-feiras nesta coluna. É diretor-executivo no FMI, onde representa um grupo de nove países (Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Haiti, Panamá, República Dominicana, Suriname e Trinidad e Tobago), mas expressa seus pontos de vista em caráter pessoal.