Folha de São Paulo, 9 de julho de 2010 - Primeiro Caderno - Seção: Opinão - Pág. A3
TENDÊNCIAS/DEBATES
A
urgência da auditoria da dívida pública
IVAN VALENTE
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É
inadmissível que um país gaste bilhões dessa forma e
ninguém se manifeste sobre isso; é preciso saber para onde
vai o dinheiro público
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O Copom (Comitê de Política Monetária) aumentou para
10,25% a taxa de juros com a justificativa de contenção da
inflação. O que não se fala é que, com esse aumento
-que consolida o Brasil como paraíso dos capitais especulativos-,
dispara também a dívida pública do país.
Enquanto se mantém a atração do capital financeiro internacional,
as consequências internas com escassez de recursos para áreas
sociais são desastrosas. O relatório final da CPI da dívida
pública, proposta por nosso mandato, reconhece que o fator mais importante
para o crescimento da dívida foram as altas taxas de juros.
O documento afirma que as decisões do Copom sobre o tema não
são transparentes. Mas os dados levantados pela CPI vão além
e revelam como a dívida se tornou o nó da política econômica
brasileira. De 1995 a 2009, ela saltou de R$ 60 bilhões para R$ 2
trilhões, sendo que R$ 1 trilhão foi pago apenas em juros e
amortizações.
Somente no ano passado, R$ 380 bilhões -36% do Orçamento do
país- foram alocados para juros e amortizações. Outro
bolo foi destinado à rolagem da dívida. Enquanto isso, foram
destinados menos de 3% para educação e menos de 5% para saúde.
Os documentos analisados pela CPI também apontam para acordos e contratos
extremamente lesivos aos cofres e interesses nacionais, desde o boom da dívida
externa até sua transformação, depois do Plano Real,
em dívida interna.
As ilegalidades incluem a aplicação de juros flutuantes nos
contratos da dívida externa com bancos privados internacionais na
década de 70, com dano de US$ 223 bilhões ao patrimônio
público, e cláusulas ilegais em acordos com bancos privados
nos anos 80 e 90.
Incluem também aplicação do mecanismo de "juros
sobre juros", proibido pelo STF, e recompras antecipadas de títulos
da dívida externa por meio do pagamento de ágio de até 50%
do valor de face do título e da emissão de títulos da
dívida interna, mais onerosa para o país.
Ao longo dos trabalhos da CPI, PSDB, DEM, PT e PMDB impediram a convocação
de autoridades monetárias, como os ministros Pedro Malan e Antônio
Palocci. Depois de muita batalha, conseguimos ouvir o presidente do Banco
Central, Henrique Meirelles, e o ministro Guido Mantega. Ambos negaram que
a dívida seja um problema para o país.
O próprio Tribunal de Contas da União (TCU), no entanto, encontrou
várias ilegalidades nas auditorias pontuais da dívida feitas
pelo órgão -isso porque a maioria dos fatos examinados pela
comissão nem sequer chegou a ser auditada pelo TCU. Ou seja, é preciso
aprofundar as investigações. Por isso, todos os documentos
da CPI foram encaminhados à Procuradoria-Geral da República,
que criou um grupo especial para investigá-los. Pelas mesmas razões,
defendemos a realização imediata de uma auditoria integral
da dívida pública, conforme prevê a Constituição
Federal. A sociedade precisa saber para onde vai o dinheiro público.
Essa enorme sangria de recursos nunca é quantificada em sofrimento
e humilhação dos milhões de brasileiros que pagam um
preço monumental pela educação sucateada, pela falta
de sistema de saúde de qualidade, de moradia decente, de aposentadorias
dignas e de empregos que adviriam de investimentos públicos. Ou seja,
camufla-se o impacto da dívida pública para os brasileiros.
É
inadmissível que um país gaste bilhões dessa forma e
ninguém se manifeste sobre isso. A passividade no enfrentamento e
a ocultação dessa verdade à população
impedem a construção de um país soberano e com justiça
social. Com a palavra, os candidatos à Presidência da República.
IVAN VALENTE, engenheiro mecânico, é deputado federal pelo PSOL/SP.