Folha de São Paulo, 3 de fevereiro de 2010 - Primeiro Caderno - Seção: Dinheiro - Pág. B4
Consumo limita queda da carga tributária
Apesar da crise, percentual de tributos sobre o PIB cai só 0,14 ponto
em 2009, para 35,02%, afirma IBPT
FÁTIMA FERNANDES
DA REPORTAGEM LOCAL
A manutenção da demanda interna e do emprego fez a arrecadação
de tributos no país em 2009 seguir na proporção de cerca
de 35% do PIB, segundo estudo do IBPT (Instituto Brasileiro de Planejamento
Tributário), com base em uma estimativa de PIB de R$ 3,11 trilhões
para 2009.
A arrecadação nominal de impostos federais, estaduais e municipais
no Brasil somou R$ 1,09 trilhão em 2009, o que representou um aumento
de R$ 36,01 bilhões ante 2008.
A carga tributária brasileira correspondeu no ano passado, portanto,
a 35,02% do PIB, o que representou uma queda de 0,14 ponto percentual sobre
o percentual de 2008, de 35,16%.
Essa queda é considerada mínima pelo IBPT, que chegou a prever,
no início de 2009, por conta da crise mundial, recuo de até 1,5
ponto percentual na proporção entre a arrecadação
de tributos e o PIB.
A redução de impostos federais, como o IPI (Imposto sobre Produtos
Industrializados) para carros, eletrodomésticos e material de construção,
e a manutenção do emprego ajudaram a manter a arrecadação.
"A demanda não caiu, e a maior parte da arrecadação
tem origem no consumo", afirma Gilberto Luiz do Amaral, que deixou ontem
a presidência do instituto, agora comandado por João Eloi Olenike.
A arrecadação de tributos federais, que representa cerca de
70% de toda a arrecadação do país, segundo o IBPT, subiu
2,73% em 2009 ante 2008. No caso de tributos estaduais, a alta da arrecadação
foi de 4,67%, e, dos municipais, de 6,84%.
Para fazer o balanço da arrecadação, o IBPT considera
todos os valores nominais arrecadados, multas, juros, correção
monetária e as contribuições corporativas e sindicais.
Receita
A Receita Federal não considera multas, juros e correção
monetária e tem outros números sobre 2009. No ano passado,
segundo a Receita, houve queda real de 2,96% na arrecadação
de tributos federais, que somou R$ 710,02 bilhões, em relação
a 2008.
O que puxou a arrecadação de tributos federais, segundo o IBPT,
foi o Fundaf (Fundo de Desenvolvimento e Administração da Arrecadação
e Fiscalização, para o qual é recolhida parte das multas
aplicadas aos contribuintes por irregularidades fiscais), com alta de 28,97%.
Depois seguem as contribuições ao FGTS (Fundo de Garantia do
Tempo de Serviço), com aumento de 15,66%, e ao INSS, de 11,23%.
No caso dos tributos estaduais, o IBPT destaca o IPVA (imposto dos carros)
e o ITCMD, tributo sobre heranças e doações, com alta
de 21,20%, no período.
Para o consultor tributário Clóvis Panzarini, a carga tributária é injusta
e de péssima qualidade. "Se a carga tributária equivale
a 35% do PIB e a sociedade tem de pagar escola privada, plano de saúde
e segurança particular, ela é alta. Nos países nórdicos,
a carga tributária equivale a mais de 40% do PIB e a população
não reclama."
Para Paulo Vaz, advogado especializado na área tributária,
o estudo do IBPT mostra que a arrecadação está estável. "As
renúncias fiscais, que incluíram, principalmente, a diminuição
do IPI para automóveis, eletrodomésticos e móveis, não
tiveram impacto de maneira significativa na arrecadação."