Folha de São Paulo, 2 de fevereiro de 2010 - Primeiro Caderno - Seção: Dinheiro - Pág. B4
Autuações do fisco aumentam 20% e miram em bancos
Receita cobra R$ 90 bilhões de 474 mil sonegadores; no setor financeiro,
crédito dobrou, para R$ 6,8 bi
JULIANNA SOFIA
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
Para
fazer frente à queda de arrecadação registrada em
2009, a Receita Federal apertou a fiscalização -principalmente
no último trimestre- e fechou o ano passado com R$ 90,4 bilhões
em autuações a contribuintes. O valor (tributos devidos, multas
e juros) é 20% superior ao verificado em 2008 e representa o segundo
maior resultado da série histórica do fisco federal.
Embora 474.813 pessoas físicas e jurídicas tenham sido autuadas
ao longo de 2009 -3.800 a mais do que em 2008-, foi o cerco aos grandes contribuintes,
segundo a Receita, o que garantiu o maior volume de crédito tributários:
R$ 55,4 bilhões.
O grupo de grandes contribuintes é formado por 10.561 empresas, que
têm receita bruta anual superior a R$ 65 milhões. Além
disso, o fisco considera critérios como o número de funcionários.
"No último trimestre, a fiscalização aos grandes contribuintes
deu um salto [autuações somaram R$ 35 bilhões]. Isso é normal
todos os anos, mas, em 2009, houve uma orientação forte para
isso. Botamos o bloco na rua. A economia vinha dando sinais de melhora e isso
não se refletia na arrecadação. Houve um esforço
para aumentar a fiscalização, pois gera efeitos na arrecadação",
afirmou o subsecretário de fiscalização, Marcus Vinicius
Neder.
Em julho do ano passado, a então secretária da Receita Federal,
Lina Vieira, foi demitida sob o argumento oficial de que a fiscalização
vinha apresentando resultados insatisfatórios. Depois de deixar o cargo,
ela declarou que sua gestão incomodou grandes empresas, que passaram
a ser alvo de maior fiscalização por parte do fisco. No primeiro
semestre de 2009, as autuações a esse grupo de empresas totalizaram
R$ 12,3 bilhões.
Apesar do elevado valor das autuações, muitos contribuintes não
concordaram com a decisão do fisco e recorreram administrativamente.
Dos R$ 90,4 bilhões, apenas R$ 25 bilhões já foram pagos
ou parcelados. Os R$ 65 bilhões restantes devem levar, em média,
quatro anos para entrar nos cofres federais, se a Receita for vitoriosa
nos processos.
"
Esses R$ 90,4 bilhões não são dinheiro em caixa, são
apenas um lançamento. É mera vontade do fisco, interfere muito
pouco na arrecadação. Uma parte desse crédito é sonegação
pura e simples, mas outra parte é tese da Receita, que não se
sustenta no Judiciário e cai o auto de infração inteiro",
diz o tributarista Clóvis Panzarini.
A indústria foi o setor da economia com o maior crédito tributário
lançado em 2009. Foram autuadas 3.759 empresas, que devem R$ 37,7 bilhões
ao fisco. Em termos relativos, no entanto, o setor financeiro se destacou.
O crédito apurado no ano passado dobrou em relação a 2008,
para R$ 6,8 bilhões.
Entre as pessoas físicas, em 2009 houve redução tanto
no número de contribuintes autuados quanto no valor dos créditos
lançados. Segundo Neder, isso ocorreu porque as pessoas têm, cada
vez mais, regularizado sua situação com o fisco.
A Receita já concluiu sete processos de fiscalização e autuou em R$ 3,3 bilhões seis pessoas físicas e uma empresa citada na Operação Persona, deflagrada em 2007 para investigar suposto esquema de importações fraudulentas de equipamentos da Cisco. A empresa disse que a operação tinha como alvo um revendedor.