O Tempo, 05 de setembro de 2005 - Primeiro Caderno - Seção Política- Pág. A4

Órfãos da CUT e PT querem nova central
MAGALI SIMONE

Os sindicalistas – ao longo da história do Brasil – já foram perseguidos, presos, torturados, mortos. Lutaram na clandestinidade contra duas ditaduras. Ajudaram a derrubar Fernando Collor de Mello, elegeram o atual presidente.

No governo Luiz Inácio Lula da Silva, o ministro do Trabalho, Paulo Marinho é o ex-presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT-MG). Mas a mesma tempestade que achincalha o atual governo, também torna frágil o movimento sindical.

Embora nenhum sindicalista tenha sido acusado de participar do esquema de corrupção, o fato de a CUT, que liderou os maiores protestos do país contra o neoliberalismo e a interferência do Fundo Monetário Internacional (FMI), ter se aliado ao atual presidente deu força a movimentos para a renovação do sindicalismo nacional.

Só nos últimos dois meses, dissidentes das duas maiores centrais sindicais – a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e a Força Sindical –, ambas identificadas com o governo Lula, tentam traçar novas alternativas para o sindicalismo brasileiro.

A Coordenação Nacional de Lutas (Conlutas), ligada ao PSTU e ao PSOL, e a Nova Central Sindical dos Trabalhadores (NCST), que se considera apartidária, surgem dispostas a abrigar os órfãos do tradicional sindicalismo brasileiro.

As duas novas centrais nasceram praticamente juntas: ambas foram criadas a partir de reuniões promovidas em julho deste ano.

Bandeiras
As duas instituições sindicais têm bandeiras muito parecidas: lutar contra o desemprego, pela valorização do salário mínimo, pelo fim do banco de horas. (Veja infografia).

A diferença entre as duas novas centrais está na forma de agir. Ligada ao PSTU e PSOL – partidos fundados por integrantes de facções rebeldes expulsas do PT – a Conlutas tem como principal discurso palavras de ordem que sempre estiveram em pauta na esquerda antes da eleição de Lula.

“Somos contra o FMI, contra a política econômica de juros altos, contra o esquema de corrupção que se institucionalizou neste governo”, disse o presidente do PSTU, José Maria de Almeida, um dos coordenadores nacionais da Conlutas, durante a manifestação “Minas vai às ruas – Contra a Corrupção e a Política Econômica do Governo Lula”, promovida em Belo Horizonte na última quinta-feira.

Outro coordenador nacional do movimento que também esteve na capital mineira, o deputado federal João Batista de Oliveira de Araújo, o Babá (PSOL-RJ), por sua vez, propôs a convocação de um plebiscito revogatório para consultar a população sobre a permanência ou não do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “Sei que será difícil, mas com a pressão popular podemos tudo. Fora todos”, afirmou na ocasião.

NCST
Já a Nova Central Sindical dos Trabalhadores (NCST) tem como meta manter distância segura de partidos e de governos. A idéia, segundo o presidente nacional da entidade, José Calixto, é criar uma central independente, que centralize seus esforços na luta pela manutenção e expansão dos direitos dos trabalhadores.

“Vamos abrigar sindicatos ligados a diversas tendências partidárias. Mas não devemos nos ligar a nenhum. Pelo menos 60% dos sindicatos que estão nos procurando não eram ligados a nenhuma das antigas centrais. O restante é dissidente de outras, principalmente da CUT”, afirmou.

Mas como a Conlutas, partidários da NCST já preparam uma grande manifestação, agendada para esta terça, em São Paulo, que terá como meta protestar contra a corrupção. A possibilidade de unirem as forças, no entanto, por enquanto está descartada.

“Boa parte dos sindicatos e lideranças da Conlutas era da CUT e simplesmente escrachavam as entidades que não eram conveniadas com eles. Não dá para fingir que nada aconteceu durante todos esse tempo. Só o tempo dirá o que vai acontecer”, afirmou Calixto.

Conlutas flerta com entidades de MG

Embora ainda não tenha fundado seu diretório em Belo Horizonte, a Conlutas também estende seus braços em direção a Minas Gerais. Depois de reunir 30 mil pessoas em Brasília num ato contra o governo federal, a entidade promoveu uma manifestação em Belo Horizonte na última quinta-feira.

De acordo com a Polícia Militar, eram apenas 500 pessoas – um décimo que pretendiam arrastar pelas ruas da capital –, mas o protesto deixou o trânsito lento na principal avenida da cidade.

Alguns sindicatos que historicamente são ligados à CUT – como o Sindicato dos Servidores da Prefeitura de Belo Horizonte (Sindibel) e o Sindicato dos Professores de Belo Horizonte – flertam com a Conlutas. Durante a manifestação da quinta-feira, eles participaram ativamente do protesto da Conlutas.

De acordo com o presidente dessa entidade, Robson Itamar, a entidade já discute a possibilidade de deixar a CUT e se filiar à Conlutas. “Estamos apoiando os movimentos que nos apoiam. Ajudamos a CUT a eleger Pimentel, mas ela não faz nada para que ele nos receba e atenda nossas reivindicações”, afirmou Itamar.

Outro que está de namoro com a Conlutas é o Sindifisco- MG. De acordo com o presidente dessa entidade Lindolfo Fernandes de Castro, a Conlutas veio em um momento em que as centrais sindicais se tornaram “chapa branca”, ou seja, parte do governo.

“O crime organizado é mais forte onde não há fiscalização ou vigília. Então precisamos de entidades que garantam o fortalecimento dos trabalhadores, sobretudo dos fiscais”, afirmou Castro.